Eu li em 1988. Provavelmente (muito) deve ser bem pior do que eu me lembro. Não reli para não quebrar a magia da coisa. Lá vamos nós então pelos tortuosos labirintos da memória.

Não sei se dá para chamar de clássico, uma vez que suas reverberações foram mínimas, mas foi uma das fases mais psicodélicas e interessantes do título O Incrível Hulk. A fase da Encruzilhada. Durou um tempão, Hulk 53 a 64 aqui em terras brasilis, na Abril, se lhe interessa.
Bill Mantlo e Sal Buscema cuidavam do título do Shrek fisiculturista a um bom tempo. O run da dupla não era exatamente um material ruim, mas não sobreviveu ao tempo e teve o azar de estar inserido bem dentro da explosão criativa da Marvel de Jim Shooter, com X-men, Quarteto Fantástico e Tropa Alfa de John Byrne, Thor de Walt Simonson, Demolidor de Frank Miller entre diversas outras coisas. De repente, apenas ficar no esquema história one-shot com o verdão vagando de lá pra cá não parecia mais o suficiente para manter a cabeça acima da água naquele novo mercado.

A bizarra Tríade que acompanha Hulk ao longo de todo o longo arco de histórias.

Mantlo e Buscema começaram a inovar gradualmente, primeiro tornando o Hulk inteligente e fundindo sua personalidade com a de Banner, isso levou a uma trama longa, mais de ano, onde gradualmente pesadelos vinham aterrorizá-lo a cada noite e Banner começava a encarar finalmente as consequências de toda a destruição e mal que ele causava como Hulk. O que não ajudou em nada o seu estado psicológico.
Ao fim de mais de dois anos de história, Banner sucumbe dentro do monstro. Ele desaparece. Resta apenas o Hulk, uma força primal, furiosa e destruidora, mais monstro que homem.
Após um combate que destrói boa parte da cidade, a saída encontrada é mandá-lo para uma outra dimensão, que vá ser problema de outra pessoa, não é nada muito heróico, eu sei, mas era o que tinha para o momento.
O que leva à Encruzilhada.

Steve Ditko manda um abraço.

No tal arco da Encruzilhada, as coisas funcionavam da seguinte maneira, a besta verde era colocada diante de infinitos portais, cada um levando para um mundo diferente. Ele iria entrar de mundo em mundo, tentando finalmente encontrar uma dimensão onde se sentisse… feliz. Cada vez que ele ficava furioso, frustrado, ou infeliz, cada vez que ele achasse que ali não é o seu lugar, um feitiço implantado o fazia retornar ao ponto zero, de volta à Encruzilhada. Para começar tudo de novo.
O conceito era interessantíssimo, e Mantlo acho que nunca escreveu tão bem em toda sua errática carreira, com histórias que fugiam do óbvio, ora eram parábolas sobre a solidão, ora flertavam com a hard sci-fi.

Essa eu me lembro até hoje. Era um mundo onde ele finalmente arranjava um amigo. Como vocês podem ver, não acabou bem. Historinha triste pra porra.

O mais interessante é que com o tempo Hulk começa a ganhar curiosos companheiros de viagem, formas luminosas chamadas Pompons Coletivos (ou outro nome, estou escrevendo de memória sobre coisas que li há quase 30 anos ), uma duende armada de arco e flecha, um demônio escuro e uma estrela que parecia um prisma avermelhado. Cada um com uma função bem específica, a arqueira parecia sempre chamar o Hulk à razão, a estrela o acalmava e consolava, e o demônio era quem o colocava no caminho para esmurrar e destruir seja qual fosse a dificuldade à sua frente.

Naqueles plot twists onde apenas esse tipo de série pode proporcionar, Hulk é preso em um mundo onde até as crianças são mais fortes que ele.

Ao fim do arco, tem uma das histórias mais marcantes do personagem, na verdade uma cópia descarada de Mantlo de uma graphic novel que Barry Windsor-Smith estava desenvolvendo da época, mas ainda assim, uma grande história.
Nela, temos finalmente uma recapitulação da difícil infância de Banner, cujo pai trabalhava com testes atômicos, sempre exposto a inúmeros materiais e não queria ter filhos. Ele sabia que a criança simplesmente não seria normal, no meio da histeria anti-mutante que nascia no universo Marvel.
O ignorando, sua esposa engravidou mesmo assim. O pai sempre destratou a criança, não a queria e achava que ela só poderia ser um monstro.
Aos quatro anos de idade, no Natal, Banner abre um kit de montar que era o presente para o pai. Sozinho e sem ajuda, monta uma imensa miniatura de uma estação petrolífera (ou algo assim, não lembro), o pai vê a cena e fica lívido, destrói a miniatura a pontapés, bate no garoto e espanca brutalmente a mãe que tenta se interpor entre os dois. Nenhuma criança normal poderia fazer aquilo, como ele vocifera diversas vezes, ele não é uma criança, é uma aberração, um monstro.

O “gatilho”, sempre que Hulk se sentia infeliz, o encanto implantado o trazia de volta ao ponto de partida para começar tudo de novo.

Com o tempo e os constantes mal-tratos, a mãe de Banner morre, deixando ele sozinho com o pai.
E é o momento, após o fim de todo aquele longo arco, que descobrimos que a duende, o demônio e a estrela jamais existiram.
Na verdade a tríade que o acompanhava são as lembranças de Banner, ainda vivo em algum ponto dentro da fera, que influenciam Hulk e o colocam no caminho certo.
A estrela, era sua mãe, era a mesma estrela que ela colocava sobre o berço dele, a duende, era uma boneca de pano que pertenceu a ela e a qual ele se apegou quando sua mãe não estava em casa. E o demônio, evidentemente era a maneira que ele via seu pai quando pequeno.

Banner: infância abusiva.

A história, como deve ter notado, era triste pra caramba, e dava toda uma nova dimensão ao personagem e a que realmente significava o Hulk. Muito dela respingou no malfadado Hulk de Ang Lee. Sempre tive curiosidade de reler esse arco todo, mesmo tendo quase certeza que não deve ser tão bom quanto eu me lembro.
Mas Mantlo nunca escreveu melhor que isso. Buscema nunca desenhou melhor que isso, com uma ótima arte-final do filipino Gerry Talaoc que ressaltava os aspectos bestiais da criatura e se não bastasse, ainda introduzindo em seu arco final um desenhista que faria história na próxima década, Mike Mignola.
Está valendo. E muito.

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