Pato Donald, Edição Especial de 50 Anos (1984)

Essa é uma revista que li criança ainda. Me lembro de maneira cristalina até hoje.

No filme que está passando, Indiana Jones entrou há pouco no templo empoeirado. Ele pega a estatueta dourada, o que põe em movimento dezenas de armadilhas mortais, o templo ameaça desabar, a trilha sonora sobe, Indy corre por corredores cobertos de teias de aranhas cenográficas, enquanto uma bola gigante corre em sua direção.
Pouca gente sabe, mas uma das sequências mais icônicas do cinema moderno é uma releitura do diretor Steven Spielberg de uma das cenas que o marcaram na infância, a sequência acima reproduz uma das passagens repletas de ação e aventura audaz do título O Pato Donald, de Carl Barks.

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Pato Donald é a prova de que qualquer material, nas mãos de um autor competente – ou neste caso, genial – pode virar uma obra marcante, influente e capaz de gerar grandes emoções, foi o que Barks provou nos seus mais de 24 anos de envolvimento com o título.
Carl Barks foi um tímido e pacato artista norte-americano, que viveu quase a totalidade dos seus 99 anos em sua pequena fazenda, indo apenas duas vezes por mês à cidade para comprar suprimentos e remeter suas páginas aos editores. No entanto, assim como Hergé, com sua vasta biblioteca em casa e sua coleção de National Geographic, conseguia criar mundos vivos, repletos de detalhes, onde seus patos passavam suas emocionantes aventuras.

Carl Barks, o homem dos patos.

Carl Barks, o homem dos patos.

O Pato Donald, que até então era apenas um personagem de animação ranzinza e psicologicamente raso, nas mãos de Barks ganhou maiores contornos de personalidade, e um mundo completamente rico ao seu redor. Foi da pena do desenhista que saíram personagens como Tio Patinhas, os Irmãos Metralha, a bruxa Maga Patalógica, a Moedinha da Sorte do Tio Patinhas, sua caixa-forte no coração de Patópolis, a cidade de Patópolis e sua história, os Escoteiros-Mirins, o vizinho Silva, o infalível manual dos Escoteiros-Mirins, o primo sortudo Gastão, Professor Pardal e seu auxiliar Lampadinha, em síntese, um dos elencos mais ricos já vistos em uma HQ.
Em todas essas décadas que Barks esteve à frente dos patos, é realmente difícil escolher o que pode ser mais representativo, esta edição selecionada aqui, entretanto, tem duas aventuras que oferecem um vislumbre do que Barks tem de melhor.

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A aventura Donald na África, mostra o pato azarado às voltas com uma maldição equivocada (que visava atingir Tio Patinhas, mas o zumbi não levou em consideração, nos 30 anos que perseguiu o pato milionário, que este tinha envelhecido, acabando assim confundindo Donald com a versão jovem de seu tio rico) e tendo que negociar com feiticeiros em plena selva africana, e a fantástica Donald nos Andes mostra uma das histórias mais célebres de Barks, quando o pato e seus sobrinhos acabam na cidade perdida de Quadradópolis, onde tudo é quadrado e qualquer coisa redonda é um crime passível de morte, e o único modo de Huguinho, Zezinho e Luizinho escaparem da execução, é soprarem uma bola de chiclete… quadrada, em praça pública.

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O Donald de Barks era às vezes o exemplo típico do homem ordinário, o homem do dia-a-dia contra o mundo ao seu redor, um azarado crônico tentando de todas as maneiras triunfar sobre a vida, mas frequentemente fracassando, seja devido às forças do destino, ou aos seus próprios vícios de personalidade. Em outras ocasiões, era o homem (ou pato) que junto com seu tio e seus três sobrinhos passava por grandes aventuras ao redor do globo e do espaço, frequentemente aprendendo uma grande lição no processo, para logo em seguida voltar para a banalidade e ordinariedade do seu cotidiano, como se nada houvesse acontecido.

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Em vida, Carl Barks foi fazendeiro, lenhador, condutor de mulas, vaqueiro, impressor, e assim como seu personagem, conheceu o fracasso de perto diversas vezes, mas para nós, ele sempre será o homem dos patos, um homem que acumulava as funções de argumentista, desenhista e arte-finalista e vendia quase 20 milhões de exemplares por mês ao redor do mundo.
Will Eisner o considerava o Hans Christian Andersen dos quadrinhos. Com razão. Suas histórias eram fábulas ágeis e deliciosas de ler, ligeiramente cínicas e subversivas, mas todas com um grande coração e compreensão do mundo. São histórias que sobrevivem há mais de 60 anos, encantando as mais diversas gerações e que nem o próprio autor, isolado do mundo em sua fazenda, e sempre assinando suas histórias como “Walt Disney”, desconfiava do alcance e importância da sua própria obra.
Em 1994, aos 93 anos, Barks foi pela primeira vez para Europa, tamanho era o culto à sua obra que ele desfilou em carro aberto e se reuniu com diversas autoridades e artistas locais. O que apenas mostra o grande legado que ele deixou, o de ser alguém sempre lembrado com carinho por todos os fãs de quadrinhos, graças às suas maravilhosas histórias.
Incluindo por este que vos fala.

No novo milênio a editora Abril compilou toda a obra de Barks em 41 volumes, hoje, raríssimos.
Uma leitura obrigatório para todas as idades.

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