Pois bem. Na esteira do lançamento do Harry Potter aditivado on drugs da Marvel, o HQ Café fez uma sessão especial de postagens detalhando tudo que você queria saber sobre o Mago Supremo prestes a entrar em cartaz nos cinemas, o que aliás, fez eu me questionar mais de uma vez: existe mesmo alguém que queira saber algo sobre o Doutor Estranho?

O fato é que após a divisão da pauta feita aqui no site, caiu no meu colo falar sobre a história de maior destaque do bom doutor: a graphic novel Doutor Estranho e Doutor Destino – Triunfo e Tormento, obra do veterano Roger Stern e de um Mike Mignola ainda cheirando a fraldas. Deveria ter saído umas semanas atrás, mas não rolou, é nisso que dá não ter o Olho de Agamotto.

- Histórias realmente boas? Ih, por Vishanti, não temos.

– Histórias realmente boas? Ih, por Vishanti, não temos.

Acredite, na reunião interna foi difícil achar alguma história marcante do Estranho pra falar a respeito. Listando: Triunfo e Tormento, sem sombra de dúvidas, Shamballa que é chata de dar dó, o Juramento, que é legal mas que tem que tomar ainda muito Biotônico Fontoura para virar clássico dos quadrinhos, O Que Está Te Perturbando Stephen? que apesar da arte sempre magnífica de P. Craig Russell eu não lembro chongas da história, o que é sempre um mal sinal. Chegamos até a apelar para coisas mais obscuras, como a passagem de Steve Englehart, a fase Marshall Rogers e até mesmo o curto run de Warren Ellis pelo título dele – pobre Raul que teve que ler isso – para ver se vinha algum caldo para engrossar a sopa. Não teve. O que temos é Triunfo e Tormento mesmo.

Doutor Estranho sombrio, radical e mothafucka de Warren Ellis, foi mal aí, Raul.

Doutor Estranho sombrio, radical e mothafucka de Warren Ellis, foi mal aí, Raul.

Não me lembro se foi nas conversas do grupo ou na sua postagem sobre a trajetória do personagem , Lê Souza resumiu o principal problema do Doutor Estranho: ele não é da DC. Explicando: ficando de fora de iniciativas como a Vertigo, o personagem sempre teve que se virar com uma incômoda trava de segurança. Em suas histórias, o terror sempre pode avançar apenas até certo ponto, assim como sua personalidade também pode ir apenas até certo ponto, até onde não comprometa o aceitável pelo público médio.

Doutor Estranho MAX, tentativa tardia de ser Vertigo. Água.

Doutor Estranho MAX, tentativa tardia de ser Vertigo. Água.

Assim, ele acabou se tornando meio o personagem estepe da editora para resolver problemas místicos genéricos. Ao mesmo tempo que tem um caráter levemente esnobe, isso também sempre teve que ficar preso a determinados parâmetros aceitáveis do mainstream, nunca podendo se tornar um Spider Jerusalem ou John Constantine da vida, por exemplo, ou alguém abertamente desagradável (o que com certeza seria bastante divertido). Bom, mas voltemos a Triunfo e Tormento.

Para o caso de você não saber: a história mostra o bom Doutor tendo que empreender uma jornada até o inferno para salvar uma alma, no fim das contas derrotando o diabo em seu próprio jogo. É uma graphic épica e definidora, mostrando o personagem como uma figura nobre, oriunda da tragédia e em momento algum temos dúvida do seu protagonismo graças ao carisma conferido a ele. Pena que estou falando do Doutor Destino, uma vez que o Doutor Estranho só faz merda a história inteira. E isso que essa é a maior história dele, imagina se não fosse.

Quando você sabe que um sujeito é bom no que faz? Quando ele tem 80 páginas para fazer, um prazo apertado e ainda consegue dar uma aula de design e narrativa.

Quando você sabe que um sujeito é bom no que faz? Quando ele tem 80 páginas para fazer, um prazo apertado e ainda consegue dar uma aula de design e narrativa.

Dadas as proporções, Triunfo e Tormento está para o Doutor Destino assim como A Piada Mortal está para o Coringa: foi a história que definiu o modelo definitivo do personagem. Antes dela, vários elementos que aparecem na história já haviam dado as caras na trajetória do vilão, mas ela é a narrativa que junta e costura tudo, acrescentado uma origem instigante e que explica boa parte das motivações e o porquê dos seus métodos. Se antes dela ele era um ditador sombrio genérico com uma estranha obsessão quase homoafetiva por Reed Richards e também uma espécie de cleptomaníaco cósmico, especializado em roubar poder, luva do infinito, gema da eternidade, o cacete a quatro, aqui ele é uma figura trágica, quase heróica e nobre à sua própria maneira.

Na história ele convence Doutor Estranho a empreender uma jornada até o inferno em busca da alma de sua mãe. Já quanto a Estranho, bom, o pior gesto que vemos na história vem dele, que é mandar um paciente que precisava de uma operação ir pastar porque não tinha dinheiro para pagar o tratamento. E repare, o pior gesto em uma história que tem o próprio demônio como antagonista. Tá certo.

 

Doutor Destino: que cara legal.

Doutor Destino: que cara legal.

E também duvidar da credibilidade da história da mãe do Destino – uma mulher que está há décadas padecendo no FUCKING INFERNO – na cara do filho dela e chamar Von Doom toda hora de ditador sanguinário (esse é o momento que a história ganharia se tivesse um pouco mais de ambiguidade, como por exemplo, mostrar alguns aldeões enforcados, do modo como foi feito, Destino parece nobre e Estranho soa apenas um puta babaca mal-educado mesmo) não ajuda em nada a tornar o personagem mais simpático e cativante ou até mesmo para elevá-lo ao posto de herói da história. Lendo, o que Stephen Strange parece ser é o pau no cu supremo em vez de mago supremo,  isso sim.

O roteiro foi obra de Roger Stern bom artesão da indústria, com passagens memoráveis por Vingadores, Capitão América, Superman e diversos outros títulos. No que talvez seja seu melhor trabalho, o que não é dizer pouca coisa.

E Mike Mignola está presente aqui em fase de transição, quando ele estava saindo do estilo Marvel de desenho e indo se tornar o Mignola que todos conhecemos. Repare que quando a história se passa na Terra, ele mantém o formato americano das páginas, como algo preso e limitado e quando vai para o inferno, os quadros são amplos e ilimitados, sem fim. Narrativa pura. Sem contar que mesmo com o visível tempo mínimo que ele teve para fazer a história, consegue entregar um trabalho simplificado, que é uma aula de design e narrativa em cada página. Belo gibi, meninos.

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