Halloween. Finados. Día de Muertos. Na sociedade ocidental contemporânea, os dias de transição entre outubro e novembro são marcados por um confuso (e rico) período que mistura primitivos ritos europeus de luto, feriados católicos de celebração de mártires e comemorações dos aspectos mais sombrios da cultura pop atual. Velas são acesas e preces sussurradas no silêncio dos cemitérios. Nos EUA, crianças travestidas de monstros ocupam as noites de suas vizinhanças, numa espécie de salvo-conduto para “serem levadas”. Nas ruas das megalópoles mais cosmopolitas, jovens se vestem de espectros e zumbis, comemorando a vida e a liberdade. Tentamos dialogar com o desconhecido por meio do medo, reverência e do escárnio. Pavor e excitação dançam de mãos dadas pelos cantos escuros que os homens evitam em seu dia-a-dia. Doces e travessuras.

É nesse momento que somos brindados com um episódio especial de Dia das Bruxas de Westworld, com direito até uma clássica procissão mexicana dos mortos. Nele, os personagens da série são assombrados por seus fantasmas pessoais, colocando em dúvida sua própria identidade, enquanto a linha que separa os heróis e vilões dessa tragédia futurista vai se apagando (se é que um dia ela sequer existiu), na medida em que os cenários cada vez mais instigantes do parque os colocam em confronto com as consequências de suas próprias ações e, porque não, com o seus monstros interiores.

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Dr.Ford e o Fantasma dos Natais Passados

Contrapasso vem adicionar mais uma nova camada na complexa personalidade do doutor Henry Ford. Em episódios passados fomos apresentados a um velho e cansado programador, um sábio conhecedor dos sortilégios do parque, que aos poucos se revela como um homem ambicioso com um complexo de Deus, possivelmente capaz de cometer terríveis atos para realizar seus sonhos mais grandiosos. Ainda não sabemos exatamente qual é seu objetivo, mas temos a impressão que o velho mágico está muito próximo de seu truque final. E nesse momento o vemos hesitar.

Assim como o turrão Sr. Scrooge, Ford parece ter sido visitado pelo seu fantasma de natais passados: Arnold. Embora morto há muito tempo, a presença do co-fundador do parque pode ser sentida por quase todo o episódio, como se Ford estivesse em um jogo contra um inimigo invisível, do qual ele só consegue enxergar alguns passos. Se Ford é um deus, ele se mostra uma divindade falha, que mesmo com seus vastos poderes não consegue capturar totalmente o plano de seu velho colega que vem assombra-lo do mundo dos mortos.

E como Deus, Ford é solitário. A única figura com quem pode partilhar suas agruras é um dos velhos robôs do parque, para quem revela que seus planos no fundo são apenas uma tentativa freudiana de tentar compensar uma antiga repressão de infância. Se seu pai lhe disse um dia que você provavelmente não será nada significativo na vida, qual é a melhor forma de rebeldia se não criar um mundo inteiro e se tornar Deus nele? A obsessão de Ford com o seu passado se revela ainda na  criança-robô, que faz sua segunda aparição na série. Seria ela o avatar do amargurado Ford, ou talvez seu irmão, com quem dividia travessuras infantis? Poderia seu irmão ser o próprio Arnold, numa revisitação do mito de Caim e Abel?

Mas os monólogos com o robô já não são suficientes para aplacar sua dúvida. Um assombrado Ford tenta tatear às cegas em buscas de pistas sobre seu inimigo, dessa vez confrontando Dolores. Nesse novo diálogo descobrimos que até mesmo o poderoso doutor encontra limites ao lidar com os anfitriões. Arnold pode ter enterrados suas diretrizes tão fundo no software dos autômatos que nem mesmo Ford seria capaz de encontrar a verdade, como um jardim secreto protegido por uma muralha de segredos e subterfúgios. E pela reação de Dolores na sua ausência, ele provavelmente tem razão: Arnold (ou o fruto de sua programação nos anfitriões) ainda vive em suas criações, e pretende derrubar seu antigo inimigo.

O nível de contida ansiedade de Ford chega ao seu ápice quando ele decide intervir diretamente no parque, em uma surpreendente e misteriosa conversa com o Homem de Preto. O tenso diálogo vale mais pelos silêncios eloquentes, as frases subentendidas pelos dois. Aparentemente o programador e o velho visitante nunca haviam se encontrado, mas fica claro que o pistoleiro sabe muito sobre os bastidores do parque e o funcionamento dos anfitriões. A reverência com que ele se refere à Arnold e sua aberta hostilidade para com Ford indicam que sua cruzada particular pelo labirinto pode ser um empecilho aos planos do doutor. Seria o pistoleiro o “cavaleiro negro” do finado Arnold na partida de xadrez entre os fundadores do parque?

O épico diálogo também trata de continuar a desconstruir a figura do homem de preto como o grande antagonista da história. Descobrimos que em algum momento do passado ele salvou Westworld de alguma tragédia, talvez então tendo resolvido assumir a fantasia do grande vilão do parque, quem sabe um papel necessário para o cumprimento de sua missão, talvez uma forma de fazer sentido às suas próprias experiências anteriores. Mas pelos olhos sofridos do pistoleiro vemos que ele também tem seus próprios espectros do passado para assombra-lo.

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Dolores e William no País das Maravilhas

Em outro cenário do parque, Dolores, William e Logan chegam à Pariah, uma cidade que parece mais um mash up exagerado de uma vila mexicana do Velho Oeste com Sodoma e Gomorra. Um lugar frequentado por toda a sorte de malfeitores, à procura de saciar seus desejos mais bizarros, de atirar em mortos em seus caixões até transar em praça pública. Dentre esses assassinos está um contingente de confederados, segundo Logan, a chave para eles alcançarem uma das fases mais secretas de Westworld, um reencenamento de uma das batalhas da Guerra Civil americana, que ocorreria no limiar do parque. Confortável nesse ambiente de devassidão, Logan (o eterno babaca) não tem nada a aprender a não ser brincar com seu jogo particular. O mesmo não pode ser dito de Dolores e William.

A jornada de William e Dolores é muito semelhante: ambos são seguidamente lembrados de que são apenas duas indefesas ovelhas numa terra de lobos sanguinários e sem controle. Ela, presa à sua própria programação, a eterna donzela em perigo; ele, acorrentado por sua própria personalidade bovina, aparentemente moldada por uma sociedade que o convenceu ser de uma classe inferior, incapaz de fazer frente às ofensas de Logan. Homem e máquina encontram em Pariah uma etapa crucial para sua dupla jornada em direção à sua própria identidade. Em meio à uma orgia de sexo, terror e sangue, os dois encontram um no outro apoio e cumplicidade (inclusive amorosa) para finalmente romperem com os estigmas a eles impostos. Dolores vai aos limites de sua sanidade, seguindo vozes e visões em meio a esse grotesco “país das maravilhas” e deixando para trás a fantasia original para tornar-se uma sanguinária pistoleira, executando seus inimigos com tiros certeiros disparados a partir de seu quadril. William finalmente confronta seu “amigo” e deixa-o à própria sorte, saindo de Pariah como um homem mais resoluto e violento, talvez com o chapéu um pouco menos branco do que antes…

De certa forma, a busca de Dolores e William pelo misterioso Labirinto é tanto uma missão para desvendar os segredos de Westworld (possivelmente sobre a morte de Arnold e a natureza dos anfitriões), quanto uma jornada de autoconhecimento, em que ambos parecem se perder e se encontrar nas encruzilhadas de seus próprios subconscientes. E é possível que ambos encontrem um terrível monstro no centro desse labirinto existencial.

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Um série de Doces e Travessuras

Nos episódios anteriores tivemos a apresentação o rico cenário de Westworld e suas regras, a introdução e aprofundamento dos diferentes núcleos e a definição dos temas tratados e suas principais tramas. Tudo feito com bastante qualidade. Mas é em Contrapasso que as delicadas engrenagens montadas no arco inicial da série passam a se movimentar em plena velocidade. As tensões entre os diferentes personagens começam a explodir e as consequências de cada uma das ações anteriores começam a ser sentidas. É possível sentir que as apostas estão cada vez mais altas. Pegando carona no título de episódio, é como se até há pouco estivéssemos ouvindo a abertura de uma grande apresentação musical, mas só agora os dançarinos tivessem dado os primeiros passos de um furiosa e apaixonada dança.

Essa impressão de que veremos algo grandioso e impactante ocorrer nos próximos episódios é catalizada pela escolha fortuita do clima de terror e insanidade de Contrapasso. Mesmo a aparentemente inútil trama paralela do medíocre funcionário que tenta em vão ressuscitar um pássaro-robô (no que parece ser uma divertida referência à Frankestein) revela o fantástico plot twist de que a cafetina Maeve Millay não só está plenamente consciente de sua condição, como parece ter um plano para se libertar de seus criadores e algozes (o que deve ser uma parte importante do próximo episódio).

A despeito da ótima trama, muito da força de Westworld continua a vir das atuações fantásticas de atores como Ed Harris, Evan Rachel Wood e, é claro, Anthony Hopkins, que conseguem dar profundidade a seus personagem com o apoio de diálogos intensos e muito bem redigidos. Pessoalmente, me parece que isso deveria ser motivo suficiente para que a série não tivesse que apelar tanto nesse episódio para cenas explícitas de nudez e sexo (em especial a orgia em Pariah – imagine a bizarrice dos robôs que são programados para reencenar eternamente aquela festa!), embora mesmo isso possa ser justificado pelo estilo chulo dos roteiristas do parque, e pela necessidade de desestabilizar emocionalmente Dolores e William.

De qualquer forma, Contrapasso é um episódio instigante, tenso, que reserva ótimas reviravoltas, mais dúvidas e, é claro, um ou outro susto.

Nota: 9/10 defuntos cheios de nitroglicerina

 

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