Máscaras. Todos as usam. O tempo todo. Não digo máscaras no sentido literal, mas metafóricas, padrões de comportamento bastante distintos que adotamos em diferentes situações durante nosso cotidiano. Em um mesmo dia, um homem pode ser um funcionário circunspecto e esforçado,um cliente arisco e exigente, um marido distante, e um pai carinhoso e brincalhão. “Fulano é outra pessoa ao seu lado”, quem já não ouviu alguma variação dessa mesma frase? Conhecemos apenas retratos daqueles com quem nos relacionamos, e podemos levar uma vida inteira tentando conhecer todas as facetas daquelas pessoas mais próximas de nós.

E isso talvez seja algo bom. Essas máscaras servem justamente para “azeitar” nossas relações sociais, torna-las previsíveis, seguras. Acabamos agindo como atores nessa comédia de erros que chamamos de vida em sociedade. Não raras vezes, usamos disfarces até para nós mesmos, tentando esconder nossos verdadeiros pensamentos de nosso próprio julgamento. Mas retiradas todas essas coberturas, resta algo “genuíno”, único, ou somos nada mais do que um cabide onde repousam todas essas máscaras? Não sei, mas algo que me parece fazer parte do amadurecimento humano é a capacidade de adaptar, revisitar ou simplesmente deixar para trás com o tempo essas facetas de nossa personalidade.

Os Anfitriões de Westworld, é claro, não podem se dar a esse luxo. A máscara que vestem é tudo o que são. Não somente suas ações e memórias são previamente definidas em grande detalhe, mas também suas visões de mundo são pré-programadas, imutáveis. Sempre que abordados por alguma questão existencial pelos visitantes do parque, é comum que o anfitrião repita mecanicamente um mote pessoal como justificativa para todos os seus atos. “É um novo mundo, e você pode ser quem você quiser”, afirma a cafetina Maeve Millay. “Tudo terminará mal, e ninguém será salvo”, profetiza o bandido Hector. Qualquer desvio nessa programação é classificado como um “comportamento dissonante” e levará à aposentadoria precoce do robô defeiuoso.

Em “Dissonance Behavior”,a série dá um pequeno respiro para mergulhar mais a fundo nos diversos mistérios que circundam o parque, bem como para apresentar algumas facetas surpreendentes – e assustadoras – de seus administradores e visitantes.

screen-shot-2016-10-24-at-1-14-43-pm-650x362O Enigma do Labirinto

“Há algo de errado com esse mundo”. Oh, Dolores, como você evoluiu desde aquele autômato que a qualquer sinal de problema repetia apenas que “algumas pessoas preferem enxergar apenas o lado ruim do mundo”. É claro, é relativamente “fácil” abandonar essa visão Pollyanesca da vida quando você começa a ser capaz de lembrar que presenciou o massacre da sua família – repetidas vezes. As conversas entre Dolores o programador Bernard parece ganhar contornos cada vez mais angustiantes, enquanto acompanhamos a jovem esquizofrênica tentando dar algum sentido às suas memórias contraditórias, como um cego que tateia a esmo nas paredes de uma caverna escura, alheia à saída bem a sua frente.

Dolores está presa no labirinto de sua própria mente, e é curioso que o caminho para sua própria identidade esteja, segundo indica Bernard, em vencer uma das “fases secretas” do jogo do parque, o misterioso Labirinto. Trata-se de uma metáfora para os conflitos existenciais da jovem ou de fato um labirinto físico, com paredes tão sólidas quantos as travas mentais que impedem a autômato de se libertar? As visões de Dolores parecem indicar que estamos falando de algo material, talvez ligado à capela soterrada onde Dr.Ford está construindo sua nova atração.

Isso Dolores, use sua Raiva!

Isso Dolores, use sua Raiva!

Por enquanto, é interessante ver as notas da nova Dolores que emerge da programação original: sua visão de mundo ainda é “contaminada” pelo arcabouço de novelas românticas em sua memória, aproveitando as noções amor para compreender como o sofrimento pode abrir espaço para o amadurecimento pessoal. Por outro lado, presenciamos lampejos de uma feroz determinação quando um dos autômatos tenta “resgata-la” de William. Curiosamente, Dolores no momento se encontra em um dilema: para se descobrir, ela tem que continuar a bancar seu tradicional papel da “donzela em perigo” ao lado do solícito visitante, evitando assim a intervenção dos administradores (afinal, o cliente vem em primeiro lugar). Isso cabe bem a William, que parece satisfeito em bancar o papel do herói que protege a jovem. A despeito dos protestos de Logan, seu cunhado babaca, William ainda não está pronto para colocar o chapéu preto.

Falando de chapéus pretos, outra grande surpresa é o Pistoleiro. Se em episódios passados ele foi pintado como um verdadeiro demônio hedonista, agora vemos uma outra faceta de sua personalidade. Não que ele tenha deixado de matar anfitriões a torto e a direito, mas ele comporta-se mais como o típico anti-herói que costumamos torcer nos filmes de faroeste. Ele mostra certa condescendência (e talvez simpatia) pela condição dos robôs, em especial pelo seu “parceiro” Lawrence, condenado a ser um eterno prisioneiro, tanto no mundo real quanto no roteiro do parque. O Pistoleiro parece também conhecer bem mais a fundo a história do parque, não sendo o seu visitante típico, dando até a entender que sua busca obcecada pelo Labirinto pode ter a ver também com a “liberação” dos anfitriões.

O Homem de Preto: bilionário, filantropo e... vilão da série?

O Homem de Preto: bilionário, filantropo e… vilão da série?

Mas talvez a surpresa maior esteja numa rápida conversa com um dos outros recém-chegados do parque. Aparentemente, fora de Westworld, o Pistoleiro é alguma espécie de filantropo, possivelmente um bilionário famoso, dono de alguma fundação que ajuda pessoas em necessidades. Dificilmente alguém que você imaginaria usando suas férias para violentar donzelas e executar policiais. Máscaras, certo? Qual delas a verdadeira? Talvez as duas?

god-02A Verdadeira Face de Deus

Inicialmente, vimos que a série procurou construir a figura de Dr. Ford como a de um velho sábio, um fazedor de desejos com uma visão romanceada de Westworld. Nos primeiros capítulos, o velho programador surgia para dar alguma lição final para seus colegas mais jovens, como um episódio do antigo A Ilha da Fantasia. Desde o episódio passado, no entanto, temos visto um lado mais sombrio de Ford.  Ele já demonstrou não ter um qualquer apreço pelo bem-estar dos anfitriões (eles não são humanos, lembre-se disso), um passado obscuro com seu finado sócio, Arnold, e certamente tem uma agenda própria que diverge dos interesses dos administradores e da Diretoria do parque.

Mas a máscara do bom doutor caiu de fato nesse episódio. E o que vemos do outro lado não é nada agradável. Confrontado por Theresa sobre seu grandioso projeto secreto, Ford deixa claro que criou Westworld não como um mero parque de diversões, mas um lugar em que ele pudesse ser um verdadeiro deus. Mas é um deus do Velho Testamento, maquiavélico, vingativo, e que não admite ser contrariado. E onisciente: Ford deixa claro que sabe tudo sobre os envolvidos no parque, desde uma visita de Theresa ainda criança até seus momentos íntimos com Bernard, quando os dois deixam suas máscaras profissionais de lado por alguns instantes. Não são somente os Anfitriões que são meros peões no esquema do fundador…

Ford, como um Deus, é também onipotente. Com o levantar de um dedo, ele é capaz de comandar centenas de anfitriões, parar o tempo, destruir sessões inteiras do parque. O nível de controle demonstrado pelo programador deixa claro que ele seria capaz de eliminar qualquer um – incluindo um administrador, como Arnold – de Westworld, sem deixar qualquer vestígio de sua intervenção.

Nós ainda temos ideia de qual é o Magnus Opus de Dr.Ford, mas pelo que vimos nesse episódio, não deve ser nada bonito.

god-06Um Labirinto com encruzilhadas demais?

“Dissonance Theory” é o episódio mais próximo de um filler até agora. Capítulos assim são inevitáveis em uma série comercial americana, e em geral é o momento de “respiro” da história, em que paramos um pouco para conhecer melhor o cenário e seus personagens. No caso de uma série como Westworld, episódios dessa espécie ainda valem muito à pena, devido a alguns de seus pontos fortes. No caso, os personagens cativantes interpretados por ótimos atores, que garantem cenas intensas como o confronto entre Dolores e Ford, e as entrevistas de Bernard com Dolores.

Esse é o primeiro episódio escrito por Ed Brubaker, que também supervisiona a produção. Brubaker é um dos melhores escritores de quadrinhos da atualidade, responsável pelo run do Capitão América que foi adaptado em Soldado Invernal. Suas obras lidam bastante com histórias de espionagem, crime e intriga, o que se reflete bem em “Dissonance Theory”, ao aprofundar os personagens e torna-los mais ambíguos e cinzentos. O episódio também se beneficia dos ótimos diálogos, em alguns momentos bem poéticos.

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“Pistas… demais… não vou aguentaaaaaAAAAARGHHH!”

Por outro lado, para a parcela dos espectadores que está um pouco cansada de séries no estilo Lost, cheias de mistérios que não se revelam logo, “Dissonance Theory” irá decepcionar. Na verdade, o que esse episódio faz é mais espalhar novas peças no cada vez mais complexo quebra-cabeça proposto pelos roteiristas. Temos agora indícios que tanto o Pistoleiro quanto Logan e William não são apenas clientes de Westworld, mas possivelmente participam dos negócios do parque. Há também indicações que o grande MacGuffin da temporada, o tal labirinto, está conectado à morte de Arnold e à nova storyline projetada por Ford. As visões desconexas de Dolores e suas conversas com Bernard adicionam mais complexidade à trama, dando até espaço para interpretarmos que a história se passa em linhas temporais diferentes, com cenas no passado e outras no presente.

Dessa forma, “Dissonance Theory” continua carregando os pontos fortes da séries: ótima produção, diálogos interessantes, e boas cenas de ação bem ao estilo dos filmes de faroeste. No tocante ao desenvolvimento da trama, só os próximos capítulos revelarão se o roteiro desse episódio é genial ou apenas bastante confuso.

Nota: 8,5 tiroteios ocorridos offscreen (poxa HBO, usando o mesmo truque duas vezes para economizar grana?)

 

 

 

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