E depois de um longo inverno voltamos a acompanhar o drama de uma terra devastada por sangrentas intrigas políticas e traições palacianas. Não, não estou falando de Brasília, mas do continente fantástico de Westeros.

“Game of Thrones” retorna em sua sexta temporada com a árdua missão de manter seu status como uma das melhores séries da TV americana no ar, agora sem a “muleta” dos livros das “Crônicas de Gelo e Fogo”: tendo esgotado praticamente todo o material já publicado por George R.R.Martin, os roteiristas da HBO tem que se fiar apenas em algumas ideias esboçadas reservadamente pelo autor para dar seguimento ao intricado épico literário.

Nesse sentido, erraram os fãs dos livros que esperavam que a série iria desacelerar e talvez se dedicar a desenvolver outras tramas laterais. “The Red Woman”, o primeiro episódio da temporada, é inteiramente composto por material inédito, recheado de mortes inesperadas e revelações envolvendo os principais personagens da história. Somada à declaração do próprio Martin de que não há data prevista para o lançamento de “Winds of Winter”, é quase certo que teremos a inusitada situação em que a série de TV revelará o final da saga original.

No mais, “The Red Woman” segue o modelo dos primeiros episódios de temporada: revisitamos os sobreviventes da season anterior enquanto estes lambem suas (muitas) feridas, e somos apresentados à algumas das tramas que serão desenvolvidas ao longo do ano: as consequências da morte de Jon Snow para a Muralha e para a Patrulha da Noite; as disputas de poder no Norte, King´s Landing, Mereen e Dorne; o treinamento de Arya; e o resgate de Daenerys.

Para amarrar todos esses plots em pouco menos de uma hora, a série normalmente escolhe temas comuns para abordar no episódio. Em “The Red Woman”, dois me chamaram a atenção:

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Sobre Identidade

“Quem sou eu?” Essa parece ser a pergunta feita por todos ao longo do episódio. Feridos emocional e fisicamente e com sua convicções postas à prova pelo caos ao seu redor, acompanhamos os personagens enquanto estes questionam, reafirmam ou redefinem suas próprias identidades. Esse processo se apresente com diferentes mecanismos.

Em Westeros, quem você é muitas vezes depende de sua família, sua Casa. No Norte, Ramsay vê sua estrondosa vitória militar contra Stannis se transformar em cinzas em face da fuga de Sansa Stark, em parte por causa de seus jogos sádicos. Sua recém-adquirida identidade como herdeiro legítimo é ameaçada quando seu pai Roose lhe informa que, sem Sansa para unificar o Norte sob os Bolton, Ramsay pode ter de ser substituído por um filho mais obediente… é simbólico que seu momento de fragilidade seja acompanhado do fortalecimento de Sansa: em sequência ao providencial resgate por Lady Brienne, a jovem aceita o juramento de fidelidade da Dama de Tarth, deixando de ser uma mera fugitiva e assumindo o manto da Senhora de Winterfell.

Mas o ritual de obediência é um ponto de virada também para Brienne. No mesmo momento, a quixotesca guerreira finalmente realiza sua fantasia de ser um cavaleiro sob o comando de um senhor justo e leal. A assunção de um papel de protetor parece ser também o caminho escolhido por Theon para criar uma nova identidade, diversa do mutilado Reek ou do covarde Príncipe das Iron Islands.

Por vezes, nossa identidade está ligada à noção de pertencimento a um grupo. Na Muralha, vemos uma crise se instalar na Night Watch com o assassinato de Jon Snow. Dissensões logo se formam enquanto Ser Allister Thorne, o comandante de facto da patrulha, assume a identidade de traidor e revela seus colegas conspiradores, alegando que buscava prevenir a destruição do grupo. Sob o sábio conselho de Ser Davos, a pequena facção ainda fiel a Jon recorre aos Selvagens para manter sua palavra com o líder morto. Do mesmo modo, vemos ainda uma Arya cega e incapaz, aparentemente traída pela Casa de Branco e Preto a quem havia entregue sua fidelidade.

A principal crise de identidade, no entanto, é reservada para Melisandre. Durante às últimas temporadas acompanhamos a sedutora feiticeira agir com a arrogância dos convictos, alimentada pelas profecias do Senhor da Luz. Com sua fé estraçalhada pelas mortes de Stannis e Jon, Melisandre vaga como um fantasma pela Muralha, para finalmente despir-se de seus sortilégios (na grande revelação do episódio). A “Mulher Vermelha” revela para si mesma sua verdadeira identidade: uma frágil e exausta anciã.

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Sobre Feminismo

Qual o papel de uma mulher num continente engolido pela desordem e pela violência? Todos, é claro! O episódio aponta que nessa temporada as protagonistas serão as mulheres, de mendigas pedintes a rainhas depostas, passando por cavaleiras errantes, usurpadoras de tronos, bruxas e assassinas. Apesar da ótima participação de Ser Davos e Tyrion no episódio, pode-se perceber que o desenvolvimento das tramas dependerá da agência das personagens femininas. O episódio passa até mesmo no famoso “Teste de Bechdel“, tanto na cena entre Sansa e Brienne como no treinamento de Arya.

A verdade é que a relação entre “A Song of Ice and Fire” e o feminismo sempre foi polêmica. Por um lado, Martin é celebrado por criar personagens femininas fortes como Catelyn Stark e Daenerys Targaryen. Elas fogem do cliché típico dos livros de fantasia da “donzela em perigo”: as personagens femininas muitas vezes são relegadas a objeto de desejo/vingança/proteção dos protagonistas masculinos, que são os verdadeiros condutores da história. Por outro lado, Martin já declarou em mais de uma oportunidade que não é seu objetivo apresentar uma visão romanceada das guerras, especialmente em uma sociedade desigual que imita a idade média europeia. Dessa maneira, o uso da violência física e psicológica contra personagens femininas é um elemento recorrente na saga.

Já a adaptação da TV aproveitou o material original para fazer um uso extensivo de cenas de nudez e sexo ao longo das temporadas anteriores, rendendo até mesmo um esquete bastante engraçado no Saturdat Night Live. Apesar do público da HBO estar acostumado com a proposta mais “adulta” das produções do canal (uma boa sátira sobre isso pode ser encontrada aqui), as cenas recorrentes de abuso sexual na adaptação da TV geraram bastantes críticas tanto entre fãs como entre telespectadores ocasionais. A polêmica culminou com o estupro de Sansa na temporada passada, e uma subsequente queda nos níveis de audiência (não está claro se os dois fatos estão relacionados).

Aparentemente os produtores entenderam o recado e resolveram maneirar um pouco na exposição feminina, talvez para tentar reconquistar essa parcela insatisfeita do público. Além do protagonismo feminino, a única cena de nudez do episódio tem o intuito de chocar e está bastante condizente com a narrativa da história. Seguindo essa proposta, acredito que perto do final da temporada tenhamos alguma espécie de “confronto final” entre Sansa Stark e seu marido-torturador, como forma de “redimir” a temporada anterior.

E é bom?

Infelizmente, o episódio é um pouco fraco para os padrões de “Game of Thrones”, mesmo sendo uma introdução. A qualidade técnica da produção continua lá, apesar de vermos basicamente as mesmas locações do ano passado, sem grandes novidades e com bem menos figurantes (a cidade de Mereen, por exemplo, parece ter sido abandonada).

Para mim, o problema realmente parece ser no roteiro: receio que os escritores vão sofrer para manter o padrão de qualidade da série sem o material original para ser adaptado. Os diálogos em geral foram bastante protocolares e aquém das temporadas anteriores, faltando muito das tiradas mordazes e frases impactantes próprias de Martin. As tramas se desenvolveram com coincidências demais, alguns furos e com soluções rasteiras e sem qualquer impacto emocional (estou olhando especialmente para você, Dorne!).

Nota: 6/10 Cavaleiros Errantes Sortudos.

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