Hoje começa mais uma Bienal de Quadrinhos de Curitiba 2018, antiga GibiCON, que nos dias 6 a 9 deste mês levará o melhor do quadrinho nacional e internacional a capital paranaense. Pensando nisso vamos apresentar um dos melhores lançamentos desta edição e o mais novo quadrinho do curitibano Yoshi Itice.

 

Eventos Semiapocalípticos Gilmar é um quadrinho produzido pelo designer gráfico e ilustrador curitibano Yoshi Itice que tem no currículo os trabalhos: Batsuman, Last RPG Fantasy, Eventos Semiapocalípticos – Eduardo & Afonso, MAKI, PAF PAF, A Samurai e Minecomics. A publicação conta as desventuras de Robertinho e Gordo que vivem num mundo semiapocaliptico andando de cidade em cidade sem rumo, até encontrarem o caixa de supermercado com cabeça de peixe Gilmar, que vive concentrado em sua função. A dupla então percebe que talvez esteja faltando “um pouco de emoção” na vida do pobre peixe e mesmo que aparentemente contra a vontade do mesmo o levam para uma grande aventura num road trip.

 

“Road Trip” semiapocalíptico

Road trip é um estilo de narrativa que os personagens, seja lá por qual motivo, viajam em busca de aventuras, normalmente de carro ou moto. O objetivo dessas histórias e tirar a pessoa comum de sua zona de conforto e levá-lo a lugares insólitos. Quem fundou esse gênero nos tempos modernos foi o  livro estadunidense On The Road de Jack Kerouac publicado em 1957 contando a história de Sal Paradise e Dean Moriarty, que ao cruzar os EUA, empreenderam a viagem que todos os jovens um dia sonharam em fazer, repleta de sexo, drogas, álcool e, acima de tudo, liberdade. Diversos outras histórias apresentaram uma narrativa parecida, mas os melhores que me vem a mente nesse momento são os excelentes e recomendados: A Vida Secreta de Walter Walter Mitty e Pequena Miss Sunshine.

Em Eventos Semiapocalípticos-Gilmar o que temos novamente esse tema, mas sendo tratado com muito bom humor e energia. Robertinho sempre está super empolgado com a ideia de fazer Gilmar feliz e encontrar para o peixe uma companhia. Eles visitam diversos pontos turísticos desse mundo, graças ao calendário comprado na loja de Gilmar, resultando em eventos hilariantes onde o pobre Gilmar se mete em várias enrascadas.

Nossas emoções são colocadas a prova em momentos tensos como o da visita ao Aquário, basta lembrar que a condição de Gilmar como alguém que tem a cabeça de peixe e o mundo semiapocalíptico pra entender que apesar de colorido, ainda é o fim do mundo. É justamente nesse momento que a história me conquistou de vez. Ao mostrar como premissa simples, mas sendo bem contada pode gerar em nós variados sentimentos. As linhas de dialogo apenas acrescentam, não roubam a cena.

 

Cenários e cores semiapocalípticas

Os cenários de Yoshi são um show a parte na obra. A narrativa bastante cinematográfica e o cuidado com a ambientação saltam os olhos. Acompanhando seu trabalho desde o inicio em Last RPG Fantasy vemos a clara evolução na capacidade narrativa do autor. O tempo que as cenas levam pra acontecer e variedade dos pequenos detalhes mostrados são bônus que tornam o cenário mais um dos personagens. Impossível não pensar no Studio Glibi como uma influência.

A própria paleta de cores de Eventos Semiapocalípticos-Gilmar se adapta aos momentos apresentados. Seja, elas uma manhã ensolarada, dentro da loja de departamentos de Gilmar, no aquário ou mesmo numa noite estrelada. As cores ajudam a contar a história sobre cada momento. Os tons de azul e verde estão presentes em todos os momentos o que ajudam a climatizar e até mesmo gerar um contraste com os personagens.

Personagens semiapocalípticos

O verdadeiro personagem principal da história é Gilmar que não tem uma linha de fala e é apático 90% da história, pelo menos numa primeira leitura. E uma segunda percebemos o quanto ele é expressivo, para alguém com a cabeça de peixe, e consegue passar sentimentos somente com seu olhos grande de peixe. Ele poderia ser qualquer um de nós na verdade. Seu desfecho na aventura é lindo e emocionante.

Robertinho e Gordo formam um ótima dupla. Em poucas paginas você já entende a personalidade de cada um, o jeitão otimista e tagarela de um se completa com a racionalidade de Gordo que é mais contemplativo. Em nenhum momento existe algum tipo de discordância entre os dois, pelo contrário, temos companheirismo.

No último arco surgem dois grupos que viajam os sete mares. Não pretendo entrar em spoilers aqui, mas são o ponto mais fora da curva da narrativa onde o exagero deles meio que destoa de todo o resto apresentado até aqui. Eles fazem referencia a uma clássica rivalidade da fantasia e nos presenteiam com a única cena ação da história, que não faz diferença nenhuma a não ser para contrastar com tudo que Robertinho e Gordo pregam e ajuda a dupla a perceberem até onde levaram Gilmar.

Concluindo

Eventos Semiapocalípticos-Gilmar é um dos melhores quadrinhos que li esse ano. Seja pela sua narrativa bem trabalhada, seja pelas cores que trabalham junto com a história ou mesmo a vontade imensa que senti de ver mais aventuras de Robertinho, Gordo e Gilmar em seu carro. A trilha sonora ao som de uma versão de “amigo” de Roberto e Erasmo Carlos cantada por Itsuki Hiroshi conta muito sobre, mas como disse antes ai já é outra história.

 

 

Você pode encontrar o trabalho da Yoshi Itice