Em 2016, recebemos o ano novo judaico de 5777, entre os dias 2 e 4 de outubro. O nome da festa é Rosh HaShaná e, na verdade, não celebramos a criação do mundo, mas sim a criação do Homem. É uma ocasião festiva e, como todas as festas do calendário hebreu, é cheia de simbolismo e significados ocultos, que devem ser estudados e interpretados.

Um aspecto fascinante da indústria dos quadrinhos é como ela foi, por bastante tempo, um nicho menosprezado do mercado editorial. Os Estados Unidos, durante a Grande Depressão que se seguiu à quebra da Bolsa de Valores em 1929, não era exatamente uma “terra das oportunidades”. Para muitos jovens imigrantes judeus, uma das alternativas de emprego era justamente fazer quadrinhos. E, para Jerry Siegel e Joe Shuster, aquilo marcaria o começo de uma lenda.

Não é segredo que há diversos aspectos da Cabalá, o misticismo judaico, na criação do Superman. O nome kryptoniano do herói, Kal-El, lembra bastante uma expressão em hebraico que significa “tudo aquilo que D-us é”, ou “aquele que é como D-us”. A própria origem do Superman – pais amorosos que colocam seu filho em um cesto de vime e o lançam para uma terra estrangeira pensando não apenas em salvar sua vida, mas que ele se torne um líder daquele povo – é um claro reflexo da história de Moisés (onde está “cesto de vime”, leiam “nave espacial”, vai fazer total sentido.)

Mas é mais interessante pensarmos em Clark Joseph (ou Yossef) Kent como o imigrante que tenta manter suas raízes em segredo, tentando cumprir a mitzvah (preceito, ou mandamento) do tikkun olam (retificação do mundo) sem que, para isso, precise abrir mão de sua vida pacata, de trajes comuns e emprego regular. Ele apenas não deseja que as pessoas olhem pra ele no escritório e digam: “ei, olha o imigrante de Krypton!”

Esses pequenos traços de identidade judaica respigam em diversos personagens, até no próprio Batman, já que podemos entender o nome Bruce como uma corruptela de baruch – “santo”. Batman é judeu? Pouco provável. Bob Kane, Bill Finger e Jerry Robinson queriam nos dizer alguma coisa? É bem possível.

Com o tempo, os personagens começaram a apresentar traços que os identificavam como hebreus. Ou judeus, ou israelenses, ou qualquer termo que os associe ao Povo do Livro (expressão que denota o relacionamento dos judeus com a Torá, ou Pentateuco, seu livro sagrado. Não é incomum vermos citações ao “povo do gibi” – people of the comic book). Entre eles, temos Magneto, um sobrevivente de Auschwitz que acaba por se tornar aquilo que mais odeia; Esmaga-Átomo, da Corporação Infinito; Colossal, da Legião dos Super-Heróis; Justiça, que foi membro dos Vingadores no final dos anos 90; o segundo Coruja, de Watchmen; Kitty Pryde, dos X-Men; e um dos mais notórios, Benjamin Jacob (Yaakov) Grimm, o Coisa, do Quarteto Fantástico.

Há alguns casos em que essa “identidade judaica” não é muito clara, como o Cavaleiro da Lua (ou “o Batman branco da Marvel”), Vingador Fantasma, cuja origem é envolta em muito mistério e até mesmo o Homem-Aranha. O roteirista das histórias do Aracnídeo, Dan Slott, chegou a afirmar que Peter Parker é judeu, sem a necessidade de colocá-lo usando kipá ou celebrando Rosh HaShaná para isso.

Criado pelo judeu americano Stan Lee, o Aranha é considerado o mais próximo de um alter-ego de seu criador, dentre todos os heróis que ele escreveu (incluam-se, aí, X-Men, Hulk, Thor, Quarteto Fantástico, Homem de Ferro e tantos outros). Vítima de bullying na escola, morando na vizinhança majoritariamente judaica do Queens, o Aranha é parte de uma “segunda geração” dos quadrinhos, a Era de Prata. Seus pais desapareceram, como os pais de muitos jovens dessa geração que morreram durante a guerra, diferente do ícone da Era de Ouro Superman, que precisou deixar seu lar no período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial.

Talvez seja o seu senso de humor neurótico, como o de tantos outros comediantes (judeus), que reforce essa imagem. Talvez seja o fato de Peter Parker sentir que nunca fez o bastante. Stan Lee resume a essência do judaísmo em uma frase: “Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você”. Não há vilões na Marvel, há heróis que caíram em desgraça. Há bondade inata nas pessoas, mas sempre haverá o mal. E nós sempre devemos combater o mal. Isso ressoa diretamente com a frase que identifica o Homem-Aranha em sua essência para os fãs ao redor do mundo: “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”.

Talvez ele seja mais judeu do que parece, talvez os super-heróis sejam menos judeus do que eu penso. De qualquer forma, depois de tanto tempo lendo as histórias, não resta dúvida de que eles ainda vão me acompanhar por um bom tempo e eu pretendo celebrar Rosh HaShaná com um gibi debaixo do braço. Um ano bom e doce a todos!

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