Vamos lá fazer um desserviço. Como todos sabem, estes são tempos polarizados. Tudo é A ou B, é preto ou branco, coxinha ou petralha, o fla-flu ideológico tomou conta de tudo, não importa qual seja o tema. Tudo é uma coisa OU outra. Sem meio-termo.

 

Com os filmes de heróis não é diferente. Basta a Warner lançar algum filme do cineverso DC que a réplica às críticas vem automáticas: “ah, não gostou porque é marvete”. Claro. Vamos jogar aqui nossos dois centavos sobre a celeuma Marvel vs DC então.

 

Para início de conversa, uma ala nerd fala que é injusto comparar. Olha, preferências à parte, eu discordo. Ambos os cineversos pertencem ao mesmo gênero, seguindo as mesmas bases teóricas, as mesmas convenções e lógicas internas, injusto é comparar 2001 com Pequena Miss Sunshine, ou Laranja Mecânica com American Pie, uma vez que aí sim uma coisa não tem nada a ver com a outra. Não existem nem parâmetros para comparar. Com o subgênero super-heróis, estamos na mesma prateleira.

 

DC 02

Sim, a Marvel conseguiu construir um universo a partir do Homem de Ferro. Meu Deus, quem se importava com o Homem de Ferro?

 

Provavelmente, mais até do que os filmes em si, o problema é a postura da Warner quanto a tudo isso. Vejamos, eles tinham todos os personagens em casa, desde… bem, desde o Superman de 1978, poderiam ter estabelecido o cineverso DC a qualquer momento. Não quiseram. Veio Homem de Ferro, em 2008, seguido por Hulk, Capitão América, Thor… até desembocar no megasucesso Vingadores em 2012. E então, somente então, alguém da Warner teve que dar uma boa desculpa na reunião de final de ano, de porque tendo todo esse potencial em casa, eles não pularam na frente, mesmo vendo o cenário a se desenhar na sua frente ano após ano.

E aí reside todo o problema.

 

O tristonho Batman no tristonho universo tristonho e realista da DC, porque como todos sabem, a vida é tristonha pra dedéu.

O tristonho Batman no tristonho universo tristonho e realista da DC, porque como todos sabem, a vida é tristonha pra dedéu.

 

Em vez de focar em fazer bons filmes, o cineverso da Warner é essencialmente reativo: em vez de cuidar da própria produção, adaptando cada personagem dentro de seu próprio tom e potencial, tudo é uma resposta direta aos filmes da rival. Batman de Nolan fez merecido sucesso? Toca aí um tom tristonho e pseudo-realista para tudo da casa (até porque todo mundo sabe que super-heróis são coisas tristonhas e realistas pra caralho) e vamos sair por aí bradando que “nossos filmes são coisas sérias, não são aqueles filme bobinhos, engraçaralhos, xixicacácocô da bobona Marvel”. Ok, em termos puramente mercadológicos entendo plenamente a necessidade de destacar o diferencial do seu produto, mas entenda, em vez de fortalecer sua marca, você está sendo meramente reativo, você é uma reação, uma resposta, eternamente condicionado o que o outro vai fazer.

E, meu Deus, ainda tem que declarar, dar a indiretinha. Não é o tipo de coisa que você vê a Fox fazendo, por exemplo. O problema da indiretinha – além do nível escola primária da coisa- é que você está colocando seu cu na reta. Está assumindo claramente o compromisso de ser melhor que a rival.

E como os resultados de bilheteria e crítica estão provando, esse compromisso está longe de ser cumprido.

 

38 anos depois e esse ainda é o Superman que vale...

38 anos depois e esse ainda é o Superman que vale…

Ainda na questão reativa: além da comparação com a Marvel, o estúdio tem que lidar com a comparação com seu próprio – e gigantesco – legado, passando pelo filme que inaugurou o gênero super-heróis em 1978, por um dos filmes de heróis mais bem-sucedidos financeiramente em 1989 e pela melhor trilogia do gênero, sucesso absoluto de público e crítica no novo milênio.

O que a casa faz? Renega tudo isso. Novamente berrando aos quatro ventos que é injusto comparar Man of Steel com o Superman original (???). Dude, na boa, se você vai fazer um filme do Superman, é ÓBVIO que vai ser comparado com o original. Ainda mais com uma visão tão definitiva. Não seja ingênuo, no primeiro dia de filmagem você tem que estar sabendo disso. Ou falando melhor: não quer brincar, não desce pro play.

Esse tipo de declaração mostra apenas uma extrema insegurança na qualidade do seu produto, não vi Chris Nolan pedindo desculpas ou dizendo para não comparar seu filme com o de Tim Burton e Jack Nicholson, por exemplo, ou Richard Donner bradando “esqueçam George Reeves”. Todos estes marcos foram filmes que se impuseram por suas próprias qualidades, em vez de tudo que veio depois, que erra feio e fica pedindo perdão pelo vacilo. O que aliás só evidencia o desgoverno com que esses filmes foram feitos.

 

 

Até o terrível Homem-Aranha de Marc Webb embarcou nessa de "vamos ser sombrios pacas e realistas".

Até o terrível Homem-Aranha de Marc Webb embarcou nessa de “vamos ser sombrios pacas e realistas”.

 

O sucesso da trilogia de Nolan foi o auge e a perdição da Warner, após ela, todo filme tentou se espelhar em seu tom. O problema é que atribuir o sucesso ao “tom sombrio e realista” do filme é uma leitura rasa pra caramba, os filmes se tornaram icônicos justamente pelos bons personagens, grandes dilemas morais e pelas amplas questões que eles abordam, e não, não são sombrios (a menos claro, que você considere sombrio o filme ter uma fotografia escura e não ter uma visão sombria de mundo), nos filmes, Batman é um herói, alguém que aceita carregar uma culpa que ele sabe que não tem apenas para salvar sua cidade, e também não é realista, é um filme onde essencialmente um herói fantasiado enfrenta outros vilões fantasiados. E tudo isso cai muito bem para o Batman. Já quando você quer ser “sombrio e realista” com o Superman, meu caro amigo, isso é um grande problema. Além de só mostrar que em vez de ler você só olhou as figurinhas…

 

Uma parte imensa da culpa dessa abordagem vem do fracasso retumbante de Lanterna Verde, uma tentativa de pegar carona na fórmula engraçaralha de Homem de Ferro e que morreu na praia. A culpa não era das piadinhas, é que o filme simplesmente era ruim de doer mesmo (além de: Robert Downey Jr. > Ryan Reynolds).

Bom, você tem uma noção do grau de descompasso quando em um filme do Superman Jonathan Kent sugere ao filho que TALVEZ ele devesse ter deixado seus colegas de escola, filhos dos amigos de seu pai, provavelmente crianças que ele viu crescer, terem uma morte horrível afogados. Olha, cara, em um filme normal isso já é ruim. Em um filme de super-heróis, é pior ainda e em um filme do Super-Homem, meu Deus, é errado em tantos níveis que não sei nem por onde começar. Mas tudo bem, agora estão assumindo a bandeira engraçaralha, conforme “planejado desde o começo”. Arrã. Santa esquizofrenia, homem-morcego.

 

Chegamos a um ponto onde o Capitão América, um personagem tido por todos como chato, certinho e datado, na minha infância, é uma das marcas de maior sucesso do mundo. E a Warner nem assim consegue acertar o passo com o Superman.

Chegamos a um ponto onde o Capitão América, um personagem tido por todos como chato, certinho e datado, na minha infância, é uma das marcas de maior sucesso do mundo. E a Warner nem assim consegue acertar o passo com o Superman.

 

O que nos leva à Marvel.

Gosto é gosto, mas uma coisa é inegável: cada filme do estúdio é facilmente reconhecível. Ou seja, eles conhecem o público que querem atingir, eles tem um direcionamento e foco bem claro: a Marvel hoje É a nova Disney. Diversão para toda a família, superfeitos para a petizada e humor para os adultos. E dentro dessa lógica de produção, o tom é correto e direcionado. Somado a isso, investem em produtos diferenciados pero no mucho, para não descaracterizar a marca.

Então, no tocante à questão Marvel vs DC, sim, a Marvel é melhor. Ou melhor dizendo: a Marvel sabe o que quer, conhece o que está vendendo e para onde está indo. Por quanto tempo? Sabe Deus. Mas os números comprovam. Em termos de negócio é o estúdio para o qual todos os outros estúdios correm atrás, que é o que vale no fim das contas.

O resto, é gosto do freguês.

Não sei o que mais vocês querem para dar fim à discussão, uma carta de Julius Schwartz, talvez?

 

 

Autor: