Raras vezes eu vi uma carta de intenções tão claras quanto a abertura de Batman – the Brave and the Bold. Uma trilha cool jazzística tocando, algo que não faria feio em nenhum filme do Rat Pack, cenários coloridos, um Batman sorridente, claramente calcado nos desenhos de Dick Sprang, enfrenta o Rei Relógio ao lado do Arqueiro Verde, mas não o Arqueiro Verde que nos acostumamos a ver, o comunistinha de faculdade, mas sim o desencanado Arqueiro dos anos 50, sem cavanhaque e com ajudante chamado Ricardito. E aí está, é a Era de Prata atualizada e tornada cool para a nova geração em uma série despretensiosa e deliciosa de ver, que sobreviveu três temporadas.

É difícil discordar da visão icônica de Batman de Bruce Timm e Paul Dini, tudo que importa está ali, mas ainda assim, The Brave and the Bold faz bonito. O aspecto realmente interessante é que ao mesmo tempo que a série mostrava seu Batman sorridente, aventureiro e iluminado na TV, os cinemas eram ocupados pela abordagem sóbria e protorrealista de Chistopher Nolan. E ambas, apesar de diferentes como a luz e a sombra, funcionam maravilhosamente bem à sua maneira, dentro de suas respectivas propostas.

 

Essa é talvez a maior diferença da DC para Marvel, é incrível a habilidade dos personagens da Distinta Concorrência de se virarem bem em diferentes contextos, eles são completamente maleáveis e adaptáveis conforme a época. Duvida? Vamos lá, ao mesmo tempo que tivemos o Batman de The Brave and The Bold e o de Nolan, tivemos também o Batman de Miller, o Batman 66, o Batman sci-fi anos 50, o Batman detetivesco de Adams e O’Neil. Super-Homem? O de Donner, o de Siegel e Shuster, o Super-Homem psicodélico de Elliot S. Maggin, o de Smallville, o de Lois & Clark, o Superman hard sci-fi de Byrne. Mulher-Maravilha? De Perez, de Azzarello e Chiang, de Moulton Marston, de Lynda Carter. Bom, deu para entender, não?

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Os personagens DC parecem ser, digamos, maiores que a vida. Arquétipos. E como arquétipos eles têm abertura o suficiente para incorporar o que for necessário para se moldar ao espírito do seu tempo, sem perder sua essência, sem se descaracterizar, sendo ainda facilmente reconhecíveis.

Eles são antes de qualquer coisa, veículos para fazer uma determinada história andar, ao contrário da Marvel, onde frequentemente as histórias aconteciam A PARTIR dos personagens (a preocupação de Peter Parker com a tia, a tentativa de Reed Richards curar o Coisa, a dificuldade do Capitão América se reconectar com os novos tempos, a luta dos X-men por igualdade, assim por diante, todos com um conceito muito específico, não tão universal). Aliás, essa característica larger-than-the-life não é típica apenas da DC, mas sim compartilhada por todos os personagens do mesmo período, Fantasma, Mandrake, o Sombra, Tarzan, Dick Tracy, etc.

São personagens onde o que importa não são seus dramas interiores. Não é a sua psicologia o que faz com que eles se movimentem. Ninguém vai fazer uma história sobre o que Flash Gordon pensa do programa espacial americano. O que importa é seu contexto básico. Eram veículos para o leitor se projetar. Daí sua facilidade de adaptação.

Até porque um milionário que resolve vingar os pais se fantasiando de morcego ou o homem mais poderoso da Terra, que se fantasia de repórter normal no dia a dia, tendo uma paixonite por uma colega que só tem olhos para sua outra identidade, vamos ser honestos, não é exatamente um manancial de complexidade. E é justamente essa a genialidade da coisa e que garante a sua perenidade.

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A inovação Marvel foi introduzir conflitos (um pouco mais) humanos a seus personagens. Assim, complexos de culpa são comuns, preocupações com questões mais mundanas, dramas amorosos dignos de soap operas, amigos que deixam de ser apenas figurantes, tendo personalidade e relações mais bem definidas, etc, etc, etc. Evidentemente, isso ressoou na época, até por seu ineditismo (ineditismo dentro da mídia e do gênero, que fique bem claro) e mudou bastante as regras do jogo. Ou seja, os personagens assumem o primeiro plano. As histórias giram ao seu redor, se passam em seus universos pessoais, eles não estão ali para servir à história, mas sim o contrário.

 

Ao mesmo tempo que o personagem está restrito às limitações do seu cotidiano, seu elenco coadjuvante e da sua própria personalidade, tudo isso também torna o personagem mais preso, mais difícil de adaptar a qualquer novo contexto que surja. Mais passível de descaracterização. Quarteto Fantástico de Josh Trank que o diga.

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Ambas abordagens têm suas vantagens e desvantagens. Se por um lado a abordagem Marvel aumenta a ilusão (e apenas a ilusão) de realidade com sua caracterização, ela também dificulta o vínculo com o leitor por suas especificidades, além de ser mais engessado.

Curiosamente, este approach, onde o que vale é a personalidade e o contexto, forçou a DC a também se adaptar. Assim, seus personagens, que até então eram todos variações de Superman ou Batman, apenas com outros nomes, poderes e roupas, começaram a ganhar personalidades mais definidas, Arqueiro Verde virou o contestador do sistema, Gavião Negro, o fascista, Flash, o simpático eternamente atrasado, Hal Jordan, o audaz que beira a irresponsabilidade etc, etc, etc.

 

Qual abordagem certa? Ora, qualquer uma, desde que funcione.

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