Marvel Boy – Grant Morrison/J.G. Jones (2000)

Dentro dos quadrinhos mainstream Grant Morrison com certeza é um dos autores mais interessantes para se acompanhar. Sua escrita sempre dividiu os leitores, tem quem ame, tem quem odeie. Para quem não conhece seu trabalho, Marvel Boy é uma das melhores portas de entrada, é um trabalho mais palatável e acessível, onde os princípais vícios do autor (ideias radicais sobre a estrutura da arte, dos quadrinhos e da realidade, superlotação de conceitos e referências e ideias, texto truncado e uma vontade de não facilitar em nada para o leitor) estão sob controle, priorizando o dinamismo e a adrenalina acima de qualquer coisa.

Depois de mais de 10 anos bem assentado na DC, Morrison surpreendeu boa parte do seu público ao trocar de editora sem nenhum tipo de aviso, indo para a arquirrival Marvel, que após uma década amargando baixas vendas e falta de credibilidade no mercado começava a experimentar uma renascença criativa e financeira nas mãos – igualmente polêmicas – de Joe Quesada.

Marvel Boy foi o primeiro título dessa nova parceria (que duraria ainda 4 anos repletos de altos e baixos) focada em mudar a imagem e a reputação da empresa. É visível a vontade de ser pop e agradar novos leitores com uma narrativa veloz, frenética, recheada de ação e claramente cinematográfica (uma diretriz assumida pela editora como uma maneira de vender seus personagens para o cinema, tática que comprovadamente deu certo), Marvel Boy é uma mini-série assumidamente esperta, subversiva, ligeira, repleta de vitalidade e divertida.

Em 6 edições acompanhamos a saga de Noh-Varr, um diplomata do planeta Kree e único sobrevivente da queda de uma nave na Terra, é capturado por colecionadores, escapa, enfrenta uma corporação viva e consciente e ao constatar a impossibilidade de fuga para seu mundo natal, resolve impor sua própria ordem à Terra, então.

Morrison atribui como base para a criação do personagem o primeiro herói da Marvel, o príncipe Namor, surgindo em 1939, um personagem belicoso, no limite entre o heroísmo e a vilania, constantemente invadindo o mundo da superfície para acertar suas querelas. Um legado bastante adequado para o novo personagem, dado o nome da série.

É notável em todas as edições a influência, tanto no ritmo quanto no visual, do então recente sucesso do filme Matrix e da série The Authority, fato que ganha destaque com o auxílio da excepcional arte de J.G. Jones. Mais do que um mero modismo, isto não deixa de ser uma espécie de fechamento de ciclo completo, uma vez que o próprio Matrix se apropriou de diversos elementos da série Os Invisíveis também de autoria de Morrison, e Authority, por sua vez, da eletricidade e ação da passagem de Morrison pela JLA. Dentro desse mesmo viés, a metade final da obra aborda outra das bases do trabalho do autor: em vez de preservar, os personagens estão empenhados em alterar radicalmente o status quo de acordo com o que acreditam ser certo.

Marvel Boy é uma sci-fi ao mesmo tempo rápida e ambiciosa, assumidamente sexy, divertida e desaforada, resgatando a energia juvenil ligeiramente subversiva que tornavam os primeiros quadrinhos de heróis tão especiais.
E de quebra, apresenta mais um bom personagem para a extensa galeria da autoproclamada Casa das Ideias, o primeiro a surgir, em muito, muito tempo.

Onde saiu? Marvel Boy foi publicado no Brasil apenas uma vez, em 3 edições pela editora Mythos em 2001.

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