Superman – Entre a Foice e o Martelo – Mark Millar/Dave Johnson (2003)

Bastante alardeada na época do seu lançamento, essa mini-série de Mark Millar (assumidamente apaixonado pelo personagem) e Dave Johnson parte da ideia do que aconteceria se o foguete de Superman chegasse algumas horas adiantado ou atrasado à Terra. A resposta? Com a rotação do planeta, ele cairia em plena Rússia stalinista e isso alteraria radicalmente o mundo como o conhecemos.
Criado em uma fazenda coletiva, sob a bandeira do ideal socialista, mesmo relutantemente o “herói do povo” assume a missão de guiar a nação após a morte de Stalin, expandindo com isso as fronteiras soviéticas e ganhando poder mundial. Com isso, ele torna o mundo uma utopia ao mesmo tempo bem-intencionada e despótica, onde a vontade do indivíduo é irrelevante, no melhor espírito 1984 de George Orwell.
O único ponto de desafio à sua hegemonia mundial, é um país distante e isolado, a América, cujo principal herói é o cientista e presidente Lex Luthor, o único homem empenhado em enfrentar a onipresente ameaça(?) soviética.

Com esse ponto de partida interessante dentro da vasta mitologia do personagem principal, se nem sempre Entre a Foice e o Martelo funciona bem, – graças a alguns cacoetes de Mark Miller, onde cada personagem tem uma frase cool, cínica e blasé para qualquer ocasião, e algumas ideias que simplesmente não se sustentam, olhando pela luz da lógica – o texto é ao mesmo tempo repleto de insights interessantes, ainda que nem sempre devidamente aproveitados, e suas diversas passagens marcantes mantém o interesse da leitura até o fim. E aliás, que final.

No fim das contas, a questão que permeia as entrelinhas da história, se vale a pena ter um paraíso se o preço dele é a liberdade individual permanece sem resposta, ou, como o próprio personagem principal diz a um determinado momento, perplexo, “eu lhes ofereci a utopia, mas eles lutaram pelo direito de viver no inferno”.

Se por um lado, a história – criada quando Mark Millar tinha 15 anos – não se tornou O Cavaleiro das Trevas de Superman, como o autor declaradamente pretendia, por outro, ela virou um clássico moderno e uma interpretação bastante interessante do cânone do personagem, com um conceito instigante e entretenimento garantido.
E isso é sim, mais do que suficiente para garantir uma boa leitura.

Onde saiu? No Brasil foi publicado três vezes pela editora Panini, como uma mini-série em 3 edições em 2004, um encadernado em 2006 e finalmente uma edição de luxo em 2017.

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