A Nova Fronteira – Darwyn Cooke (2004)

Existem três momentos ao mesmo tempo marcantes e definidores no subgênero super-heróis. O primeiro se localiza no período que cobre dos anos 30 até meados dos anos 50, com seus personagens maiores que a vida, simplificados, de sorriso radiante a combater o mal em qualquer forma. Eram histórias mais simples e primárias, que estabeleceram as regras básicas do gênero e é a imagem que vem à cabeça da maioria das pessoas quando pensam em super-heróis.
O segundo momento, engloba dos anos 50 ao começo dos 80, com uma ênfase maior na ciência e uma caracterização um pouco mais humanizada, menos icônica, com personagens um pouco mais próximos do leitor médio.
O terceiro, ocorreu nos anos 80, com a completa subversão e desconstrução do gênero, inspirada em obras como Watchmen e Miracleman, do inglês Alan Moore e Cavaleiro das Trevas, do norte-americano Frank Miller, onde as narrativas heróicas se aproximaram do mundo real, ganhando contornos psicológicos densos, vagamente nilistas e as histórias ficaram mais complexas, introduzindo política, sexo, religião e outros elementos até então alheios ao gênero, com alguns resultados louváveis e uma boa parte bastante questionável.

Nesse sentido, A Nova Fronteira é uma espécie de síntese absoluta do gênero, pegando elementos de cada um destes momentos e encapsulando tudo que ele tem de melhor.
Estão ali os superfeitos divinos, os heróis cristalinos de bom coração, e as grandes ameaças que durante muito tempo foram a espinha dorsal do gênero, está ali a ênfase na ciência e na tecnologia, as questões existenciais e cotidianas que pessoas com super-poderes tem que enfrentrar, e está ali também a grande caracterização política, o aprofundamento de personalidade que marcaram as últimas décadas, contudo, sem se render ao pessimismo fácil que tomou conta do gênero, sendo uma história brilhante e inspiradora, fiel à tradição mais essencial dos heróis.

Mais do que um trabalho de gênero, a obra-prima de Darwyn Cooke é uma tour-de-force gigantesca, que se estende por mais de 300 páginas, escritas, ilustradas e arte-finalizadas pelo autor, conseguindo com isso, capturar mais do que apenas a essência de um gênero, mas sim um estado de espírito, no caso o dos anos 50 onde a história se passa. Época onde a aparente calma e prosperidade da nação norte-americana convivia lado a lado com o medo e a paranoia generalizada.

Na história, temos um mosaico sobre o que aconteceu com os heróis da DC – a mais icônica das editoras, lar de baluartes como Superman, Batman e Mulher-Maravilha – nos anos 50, inserindo personagens de primeiro, segundo e até terceiro escalão da empresa no contexto político daquela década tão conturbada, atravessando por tensões raciais, a obrigatoriedade de ficar na ilegalidade devido ao macarthismo, perseguições políticas no congresso e a guerra nuclear sempre iminente com a Rússia.
Diversos heróis como a Sociedade da Justiça abandonam as máscaras, alguns, como Superman e Mulher-Maravilha se submetem aos desmandos do governo e sua agenda política externa, outros, como Batman e Homem-Hora caem na mais completa ilegalidade e paralelo a tudo isso, surgem novos heróis no horizonte, como Flash, Lanterna Verde, Ajax, o Marciano, enquanto o mundo tem que lidar com uma ameaça lovecraftiana a surgir neste conturbado cenário.

Tudo isso passando por uma gama de referências finamente sintetizadas, como o cinema noir, a literatura de H.P. Lovecraft, filmes de monstros, thrillers políticos como Sob o Domínio do Mal, a música de Frank Sinatra entre diversos outros. Se por um lado A Nova Fronteira não tem o mesmo grau de inovação de Cavaleiro das Trevas e Watchmen (frequentemente apontados como as grandes obras do gênero), nem mesmo o seu zeitgeist, por outro lado não fica a nada a dever em termos de alcance de ideias, pretensão artística, técnica afiada e sucesso na sua realização.

É uma história que mesmo inserida em um contexto de paranoia, perigo e grandes injustiças sociais, nunca perde seu brilho, sendo inspiradora e acima de tudo esperançosa.
Talvez nada sintetize mais a figura do herói e seu gênero do que isso.

Onde saiu? A Nova Fronteira foi publicado duas vezes no Brasil. Primeiro, em 2006 pela Panini em 2 volumes e depois em 2014, novamente em dois volumes como parte da coleção DC Graphic Novels da Eaglemoss.

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