Em tempos de “menino do Acre”, Terra Plana e nazistas saindo de suas tocas, começam a proliferar não apenas as teorias pra tentar explicar como a humanidade chegou a esse ponto, mas também os videntes-do-que-já-aconteceu. Claro, qualquer pessoa com mais de meia hora de vivência no Facebook já encontrou diversos vídeos mostrando como Os Simpsons previram o futuro em mais de uma ocasião – inclua-se aí a Copa do Mundo no Brasil. Mas a verdade é que, com centenas de publicações despejadas nas bancas todos os meses, os quadrinhos também já deram uma ou outra bola dentro ao longo dos anos. E algumas são bem assustadoras.

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Mais assustador ainda é pensar que algumas delas vieram de apenas um homem: John Byrne, um dos grandes nomes da indústria e responsável por fases de sucesso em títulos como X-Men, Quarteto Fantástico e Superman. Byrne adquiriu uma sólida reputação ao longo de quatro décadas de roteiros brilhantes, arte espetacular e polêmicas estúpidas, onde mostrou um talento inigualável para dar tridimensionalidade a personagens para os quais ninguém dava bola e surpreender os leitores com soluções criativas e originais.

Este homem… este BYRNE!

Não cabe aqui uma biografia de Byrne – ainda que ele mereça ter sua obra analisada e discutida – mas sim um olhar cuidadoso sobre este seu talento pouco reconhecido: o de vidente. Sim, inadvertidamente, Byrne já conseguiu nos dar lampejos do futuro, geralmente para alguma tragédia. Mas oráculo nenhum fica famoso falando “ah, vai dar tudo certo, vai acabar tudo bem”. Com este americano naturalizado canadense não é diferente.

Por exemplo, em 1986 a DC Comics o contratou para revitalizar seu maior ícone, o Superman. Na brilhante minisserie O Homem de Aço, Byrne nos mostra um herói mais humanizado, com poderes reduzidos e emoções mais “pés-no-chão”. Na primeira edição, quando usa os poderes em público pela primeira vez, o herói tem que resgatar um ônibus espacial que sofreu uma explosão logo após seu lançamento. Enquanto finalizava as páginas (sim, Byrne escrevia, desenhava, arte-finalizava e, se bobear, até grampeava os gibis), aconteceu isso:

O ônibus espacial Challenger explodiu logo após o lançamento, matando todos os tripulantes na maior tragédia da história da Nasa até então. Byrne redesenhou as páginas, mudando o ônibus espacial para um “avião experimental” (seria grosseiro mostrar o Superman impedindo uma tragédia na ficção que vitimou sete pessoas no mundo real) e vida que segue. Apenas uma infeliz coincidência, certo? Não há provas de que Byrne tinha planejado a explosão de um ônibus espacial, exceto o design medonho que ele escolheu para o tal “avião experimental”.

Quem ia desenhar um negócio desses?

Mas a história fica mais estranha. O motivo para Superman salvar o jato, obviamente, não poderia ser outro senão LOIS LANE ESTÁ A BORDO. Ela era a única tripulante que não era astronauta, apenas uma jornalista cobrindo a história, e teria morrido se Superman não tivesse interferido.

Coincidentemente (para alguns céticos), a tripulação do Challenger incluía Christa McAuliffe, uma professora e primeira participante do programa da Nasa “Teacher in Space”. Isso mesmo, uma das tripulantes da Challenger também não era astronauta, ainda que Byrne não tenha mudado a profissão de Lois Lane (seria demais).

Já nos escritórios da Marvel Comics, sempre houve a noção de que os gibis de hominhos de capa ali produzidos eram mais realistas que os da concorrente DC Comics. Claro, ser picado por uma aranha radioativa e ganhar poderes ao invés de câncer é bem realista mesmo, mas o fato é que a Marvel costuma situar suas histórias em cidades reais, especialmente Nova York. Uma edição do Homem-Aranha, Marvel Team-Up #60 de 1977, contudo, apresentou uma surpresinha que ninguém ia considerar realista.

E não é o gosto da Vespa pra moda.

Nesse gibi, o Homem-Aranha e a vingadora Vespa enfrentam Equinox, um vilão que dispara fogo de seus braços. Enquanto toca o terror por Nova York, um de seus disparos atinge um edifício, causando um curto-circuito no seu transformador de energia e causando um apagão colossal na cidade.

“Essa é sua mão?”

Não parece haver nada particularmente impressionante sobre este gibi EXCETO o fato de que foi lançado em julho de 1977, na mesma semana que o grande blackout de Nova York. Não havia uma falha de energia dessa proporção na cidade desde 1965, e não haveria outro até 2003, então foi uma baita coincid… Ah, ok.

Diferente dos outros dois, o blackout de 77 resultou em tumultos, incêndios criminosos e mais de quinhentos policiais feridos. Exatamente como retratado nas páginas do gibi, desenhado por John Byrne.

Byrne melhorou bastante o design de seus vilões com o passar dos anos.

Ok, aqui você pode dizer que é coincidência, afinal ele apenas desenhou a história, escrita por Chris Claremont – seu parceiro na fase mais aclamada dos X-Men. Mas duas previsões certas, com essa riqueza de detalhes, não é nada mal, hein? Imagine se acontecesse uma terceira vez…

Em 2003, o roteirista Peter Milligan anunciou que a falecida princesa Diana se juntaria à equipe X-Statix, um spin-off dos X-Men. Ela voltaria do túmulo para aparecer nas páginas do gibi, porém, diante da repercussão negativa, a Marvel precisou rever os planos, o gibi foi refeito, atrasou meses e acabou sendo cancelado pouco mais tarde. É de bastante mau gosto retratar uma pessoa falecida dessa forma, mas anos antes a DC Comics faria algo ainda pior: eles a matariam.

Alguém detenha esse homem.

Todo super-herói que se preze precisa morrer e ressuscitar em algum ponto de suas carreiras (tenha ele poderes ou não, faça a história sentido ou não). Em 1997, chegou a vez da Mulher Maravilha, então a DC comics publicou uma saga em que ela entra em coma, morre e se torna uma deusa do Olimpo. A capa de Wonder Woman #126 era uma manchete de jornal (fictícia, obviamente) anunciando a morte da Princesa Diana de Themyscira (que viria a falecer na edição seguinte).

Mesmo que não acompanha quadrinhos sabe que o nome da Mulher Maravilha é Diana e que ela é uma princesa, exatamente como ela é chamada nessa capa. O que se mostrou bastante intrigante, se levarmos em consideração que três dias depois do gibi chegar às lojas, a Princesa Diana (de Gales) morreu em um acidente de carro.

A edição (finalizada meses antes, é bom lembrar), inclui a frase “a princesa Diana morreu”, mas ao menos termina com um pouco de otimismo, já que sabemos que morte nos quadrinhos equivale a soneca depois do almoço no mundo real (algumas são mais longas, outras são mais barulhentas). Já a edição seguinte termina com seus amigos se sentindo péssimos pela morte lenta e dolorosa que ela sofre. Então, em uma semana, todos os jornais do mundo se pareciam com isso:

“Esportes: Palmeiras não tem mundial”

…mas a DC bateu todos eles ao imprimir uma capa que se parecia com isso:

“Cinema: Leto confirmado como Coringa”

Mais um gibi escrito e desenhado por Byrne (o mesmo cara que citei no desastre da Challenger e no blackout de Nova York, lembram?). Ainda que os detratores do artista digam que tudo não passa de coincidência, eu prefiro acreditar que o fato de Byrne estar produzindo menos quadrinhos atualmente se deve a uma tentativa desesperada de controlar seus poderes – um plot que ele mesmo já deve ter explorado outras vezes. Recluso e miserável, imagino que hoje ele viva em uma cabana nas montanhas, isolado de um mundo que não o compreende e odeia, mas que ele jurou proteger.

Adaptado de Cracked.com, CraveOnLine.com e penciljack.com

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