Quando eu era criança, o Hulk era um personagem extremamente popular. Em grande parte, por causa da série de TV estrelada por Lou Ferrigno e Bill Bixby (não necessariamente nessa mesma ordem), que inseriu o gigante verde nos lares de milhões de pessoas no mundo inteiro.

Como dizer não pra esse carinha?

Como dizer não pra esse carinha?

Como todos os outros personagens televisivos, o Hulk se tornou um dos meus personagens favoritos e ainda me lembro com carinho de uma edição do gibi que, provavelmente, ganhei dos meus pais no longínquo ano de 1984. Na capa, o Hulk saía na porrada com um personagem que, até então, eu achava que tinha uma aparência bem diferente.

Shazam!

Shazam!

O Capitão Marvel (que, na Casa das Ideias, é um guerreiro da raça alienígena Kree chamado Mar-Vell) galgou posições no meu ranking de poderes legais (como a tal “consciência cósmica”, sei lá que diabo é isso, mas é sensacional) e um dos MELHORES uniformes criados para um personagem de gibi em todos os tempos.

Mas não tão bom quanto esse.

Mas não tão bom quanto esse.

A história foi escrita por um cara com excelente senso de ação, drama, romance, humor… Não que essa história em particular tenha tudo isso, ele nem era o criador desses personagens, mas trabalhou bastante tempo na Marvel e criou muitos, muitos outros. Com o tempo, fui conhecendo melhor o trabalho do roteirista Bill Mantlo (William Thimoty Mantlo), que me fez virar fã daquele herói de poderes criativos e uniforme bacana. Nova-iorquino, nascido em 1951, foi responsável por algumas das séries de maior sucesso da Marvel.

Ou não.

Ou não.

Durante sua juventude, Mantlo foi vizinho de ninguém menos que Jack Kirby, e ia com frequência à casa do Rei, que já era um quadrinista lendário, para discutir arte, personagens, storytelling e muito mais. Esse relacionamento se tornaria essencial em sua formação como autor de quadrinhos. Seu primeiro emprego foi como colorista da Marvel, o que, se não era muito glamoroso, pelo menos lhe garantia estar dentro do escritório onde queria trabalhar.

Até o Batman queria trabalhar lá.

Até o Batman queria trabalhar lá.

Nos anos 70, a Marvel tinha um problema sério com escritores que perdiam os prazos. Tinha se tornado comum os gibis atrasarem um mês ou mais e, justamente quando os gibis saíram das bancas de jornais para as vendas diretas das comic shops, uma solicitação atrasada significava prejuízo. A editora começou a sentir na pele.

Em 1974, o escritor de Deadly Hands of Kung Fu perdeu o prazo e Mantlo se ofereceu para terminar a edição. Com isso, ele conseguiu emprego como roteirista regular do título – que estava à beira do cancelamento e apresentava um personagem pra lá de secundário. Mas ele não se importou. Agarrou a oportunidade e levou o trabalho muito a sério. E não parou mais, chegando a escrever oito séries mensais simultaneamente, totalizando mais de quinhentas edições.

Aí é normal a qualidade dar uma oscilada.

Aí é normal a qualidade dar uma oscilada.

Por não trabalhar com quadrinhos há mais de vinte anos, muita gente não tem a noção exata de sua contribuição de Mantlo para a indústria. Além do Hulk, ele escreveu Amazing Spider-Man, Avengers, Captain America, Daredevil, Fantastic Four, Howard the Duck, Iron Man, Thor, Transformers e X-Men. Isso só para a Marvel. Para a DC Comics, ele escreveu a saga Invasão! (sobre a qual eu falei aqui), um dos melhores crosssovers da editora.

Mantlo também era muito bom em pegar um brinquedo e transformar em gibi. Diz a lenda que ele viu seu filho brincando com bonecos de uma linha chamada Micronautas e convenceu o editor-chefe da Marvel, o tirânico Jim Shooter, a comprar os direitos de uma adaptação para as HQs. Sua série durou mais que a franquia de brinquedos.

Dá pra imaginar o motivo.

Dá pra imaginar o motivo.

Ele também convenceu Shooter a comprar os direitos de Rom: SpaceKnight, criando uma série que se tornou cult. Foram 75 edições baseadas em um brinquedo pra quem ninguém dava a mínima, mas que tem fãs pelo mundo até hoje.

Ah, os fãs...

“Baseadas”, hehe.

O que pouca gente sabe, mesmo os que acompanham quadrinhos, é que, em 1992 Mantlo foi atropelado por um motorista que fugiu sem prestar socorro, ficando com dano cerebral irreparável, necessitando de cuidados médicos em tempo integral. À medida que piorava, sua seguradora indicou um tratamento (que não cobriam), enquanto seu irmão vendia tudo que podia para ajudar a custear a atenção que ele precisava. Pelo uso contínuo de seus personagens, a Marvel lhe deu tanto dinheiro quanto estipulado nos contratos que ele assinou: uma merreca.

Vale lembrar que estamos falando do homem que criou um dos personagens mais populares da atualidade: não satisfeito em transformar brinquedos feios em gibis bem-sucedidos, Mantlo um dia pensou em escrever um gibi com um guaxinim falante que usa armas maiores que ele e vive no espaço. Junto com o desenhista Keith Giffen, deu vida ao Rocket Raccoon, um dos protagonistas da franquia multi-milionária Guardiões da Galáxia.

"O QUE? BRADLEY COOPER!?"

“O QUE? BRADLEY COOPER!?”

Para ser justo, cabe aqui dizer que a Marvel passou a lhe pagar mais generosamente pelo uso de seus personagens, talvez motivada pela publicidade negativa que a Warner Bros conseguiu nos anos 70 quando, ao lançar o primeiro filme do Superman, descobriu-se que os criadores do personagem estavam na miséria.

É irônico pensar que, se tivesse esperado mais alguns anos, Mantlo teria direito a uma “fatia” maior dos direitos dos personagens que criou e estaria sendo melhor remunerado hoje em dia. O próprio Jim Shooter chegou a incentivar os autores a não criar personagens novos enquanto ele trabalhava numa forma de pagamento de royalties mais justa (ainda ia demorar um pouco até Shooter conseguir concretizar seu plano mas, neste meio tempo, Mantlo já tinha saído da editora). Ver seu personagem transformado em um brinquedo poderia render até 30 mil dólares, e todo mundo resolveu abraçar a ideia.

“Mas não o Bill”, conta Shooter. “Ele criava personagens como se não houvesse amanhã, era uma fonte inesgotável de ideias. Não havia limites para sua criatividade. Pelo lado da Marvel, eu adorava isso, mas me sentia mal por saber que Bill não seria dono de nada daquilo apenas por não ter esperado um pouco mais. Sabe o que ele me dizia? ‘Não tem problema, depois eu crio outros’.”

Na verdade, acho que ele só queria ver os cosplays.

Na verdade, acho que ele só queria ver os cosplays.

É irônico também que, após dedicar tanto de sua vida a criar histórias e personagens que queriam ajudar o próximo e fazer do mundo um lugar melhor, Bill Mantlo precise tanto de ajuda agora. Pelos últimos vinte anos, ele não tem sido capaz de sair da cama ou de sua cadeira de rodas sem ajuda, se alimentar, se limpar ou qualquer outra atividade física. Ele pode mover os braços, mas não tem coordenação motora suficiente para colocar os próprios óculos. Hoje, ele é um dos grandes “por onde anda?” da indústria. Para Chris Claremont, Mantlo eventualmente entraria para a política. Seu verdadeiro objetivo era ajudar as pessoas e tornar o mundo um lugar melhor. “Ele mal estava começando”, diz Claremont, a voz embargada com emoção. “Que maldito desperdício”.

A editora atual de Rom, a IDW, também colocou um anúncio nas páginas da revista solicitando contribuições. Mantlo ainda precisa de toda ajuda possível então, se estiver ao seu alcance, ou se você conhece alguém que pode, aqui está um link onde você pode ajudar a tornar a vida de um dos maiores autores de quadrinhos um pouco mais confortável. Em algum lugar da galáxia, um guaxinim falante vai ficar muito orgulhoso de você.

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Meu amigo e truta do HQCafé Fabio Ochôa escreveu dois textos sobre Bill Mantlo em sua página no Facebook. Você pode conferir mais alguns detalhes da história deste controverso autor aqui e aqui.

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