Uma das tradições do HQ Café, mesmo com seu pouco tempo de vida, é convidar pessoas de linhas diferentes para escrever em suas páginas. Aliás, foi assim que vim parar aqui através do convite de Juliano Ribeiro.

Seguindo adiante com esta tradição, convidei Larissa Mancia para escrever sobre o assunto que achasse melhor. Lari, designer atuante em Porto Alegre pertence a uma geração diferente da nossa, com outras referências culturais e criada em outra atmosfera pop, longe do deserto radioativo e inóspito conhecido como anos 80, onde nosso staff começou a ler quadrinhos.

Para abrir a participação, ela escolheu falar sobre um tema polêmico e em voga, a (segundo muitos) mal-fadada adaptação de A Piada Mortal para o universo das animações. Com vocês, Lari Mancia:

Piada Mortal 02

“Queria começar o texto já dizendo que eu não vi a animação da Piada Mortal, não por ser contra ou a favor, não tive a oportunidade mesmo, perdi a data no cinema, enfim. Mas eu li o quadrinho e a enxurrada de criticas sobre a animação que brotou na internet nos últimos 2 dias. Tem uma coisa me incomodando muito em toda essa história: o fato de parecer que  todo mundo esqueceu que a HQ A Piada Mortal não é sobre a Barbara Gordon.  A HQ  é sobre o Coringa, o Coringa e o Batman, a origem do Coringa e a sua loucura. Pra mim pessoalmente ela também é sobre como a sanidade é uma coisa frágil e dependo da situação qualquer um pode perder a sua.

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Para algumas feministas de plantão, A Piada Mortal é um quadrinho controverso, que minimiza Barbara Gordon, é sobre o abuso que ela sofreu – apenas ela -,  sobre o estupro subentendido e, segundo elas por que fazer uma animação de uma obra tão vil como essa?

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Dai fizeram a animação e ficou pior ainda, pois,a julgar por todos os comentários contra ou a favor tentaram empoderar a Barbara de um jeito totalmente esquisito onde ela era meio protagonista meio mulher louca descontrolada. Por que então tentar mudar um dos clássicos dos quadrinhos, devido a UMA cena que desagradou alguns fãs? A Piada Mortal é sobre abuso psicológico em todos os sentidos da palavra abuso, sem distinção de sexo, cor, vilão ou mocinho.

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Não acho que a indústria dos quadrinhos está correta em vitimizar a mulher para motivar outro personagem a determinados atos, e concordo que tem muitas coisas pela frente que precisamos mudar, a indústria precisa olhar mais para seu público feminino, negro, LGBT etc. Mas a forma que alguns grupos buscam representação é totalmente errada e gera Frankensteins como essa animação da Piada Mortal. Vamos trocar o sexo do personagem x por uma mulher, pronto agora estamos representadas! Não é assim que as coisas funcionam, e não é assim que se ganha representação. Pra mim a Barbara Gordon já era um belo exemplo de empoderamento, pois apesar de ter ficado paraplégica ela deu a volta por cima e se tornou a Oráculo, uma personagem de uma importância brutal. A mudança do Thor para Jane Foster por exemplo, para mim é uma piada de mau gosto, do nada ela se torna digna para empunhar o martelo do Deus do trovão, mas por que? Apenas porque ela esta lutando contra um câncer? Ah! Agora ela é digna, por que está morrendo. Ou seja ela não podia ser digna com saúde, deve ser por que é mulher e mulheres não são dignas a não ser que estejam morrendo certo? Entendem o problema ai? Mas beleza estamos super bem representadas.

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A verdade é que precisamos urgentemente sim, focar nos grupos de minorias (que sempre leram os quadrinhos porque gostam, mesmo sem ter nenhuma representatividade) e ao mesmo tempo aprender a conviver com as criações antigas por que se começarmos a queimar todas as obras que não concordamos pois não são politicamente corretas, vamos praticamente banir grandes autores da humanidade que viveram em suas épocas com os costumes de suas épocas. Vamos lutar pela representatividade sim! Mas com personagens novos, evolução de personagens existentes como Mulher-Maravilha, Viúva Negra, Jessica Jones, Mulher-Hulk e não simplesmente impor goela a baixo. Para finalizar acho que vale lembrar sempre que quadrinhos são obras de ficção para diversão, entretenimento e não necessariamente cartilhas obrigatórias para transmitir todos os valores corretos da vida o universo e tudo o mais.”

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