O nosso amigo Raul Queiroz, doravante denominado Raul 2, ou Raul Colorado, escreveu um belo texto sobre a Lista dos 101 melhores roteiros de todos os tempo da Writer’s Guild of America. Sempre soubemos que ele gostava de cinema, porém que ele entendia profundamente sobre o assunto foi uma grata surpresa.

Com vocês, Raul 2, ou Raul Colorado!

A lista dos 101 melhores roteiros de todos os tempos da Writer’s Guild of America

Você gosta de Cinema? Pois bem, eu gosto, e muito. Quando tinha oito anos de idade, um cinema da minha cidade estava reprisando “Guerra nas Estrelas” e minha mãe me levou para assistir. Saí da sessão como meu mundo tivesse sido virado do avesso. Nascia ali um vício, uma obsessão que até hoje dura e faz com que eu seja um daqueles chatos que assiste os filmes e, não satisfeito, tenta saber mais sobre os atores, diretores e roteiristas. Critica a fotografia (como se fosse um grande entendido…) e ainda dá pitacos. Pois bem, foi nesse contexto que um dos “donos” do HQ Café me falou “já que você acha que entende de Cinema, por que não escreve algo a respeito?”. Até então, nunca tinha pensado em compartilhar minhas ideias para mais pessoas do que os poucos amigos que tem paciência para ouvir a respeito. Mas a ideia ficou na minha cabeça e pensei “por que não?”.

Corta para a Dezoito. Além de gostar de cinema, também faço parte daquela parcela da humanidade que ocasionalmente acompanha listas. Digitar “top ten” no Google traz retornos que incluem os “mais ricos”, “as mais belas modelos”, “os melhores atletas” e um monte de listas feitas pelos mais diversos candidatos a especialistas (muitas vezes sem qualquer parâmetro aceitável para que esta ou aquela lista mereça algum crédito ou tenha verdadeira representatividade).

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Pois bem, uma lista que me interessou foi a 101 Greatest Screenplays of all time da Writer’s Guild of America (WGA). A WGA, para quem não conhece, é o Sindicato dos Roteiristas dos Estados Unidos, que concede anualmente os prêmios do WGA Awards, talvez o melhor indicativo de quem deverá ganhar os prêmios de melhor roteiro da Academia de Artes de Hollywood, o popular Oscar. Pois bem, a WGA resolveu, em 2005, consultar seus associados sobre quais seriam os melhores roteiros de cinema de todos os tempos.

Embora pudessem ser escolhidos filmes de quaisquer países e em qualquer idioma, obviamente a lista é majoritariamente composta por filmes de Hollywood (é o sindicato dos roteiristas “da América”, lembrem). Outro indicativo de que a lista tem um lado tendencioso é que 75 dos 101 filmes receberam indicações para o Oscar em sua época de distribuição. Isso não impediu que os filmes citados realmente sejam bastante representativos. Fiquei orgulhoso comigo mesmo em descobrir que havia assistido 93 dos filmes ali presentes. Fiquei ainda mais feliz em ver que não só filmes famosos ou tidos como clássicos estão ali presentes. Mas vamos voltar à lista antes que você que está lendo abandone o texto sem eu sequer chegar onde interessa…

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Os dez primeiros títulos são um quase lugar comum (ou seja, estão em quase toda a lista de “50 mais” de filmes), talvez com a surpresa de Casablanca na primeira posição. Mas vamos lá, é um excelente roteiro e sua pegada noir dá uma outra roupagem à fórmula “drama romântico”, fugindo do lugar comum, especialmente no final (não, não teremos spoilers, fique calmo). Chinatown é outro lugar comum, pois o roteiro de Robert Towne é frequentemente citado como uma “aula” de roteirização, como, por exemplo, no clássico livro de Syd Field “Como escrever um roteiro“. Minha opinião: é um ótimo roteiro sim, mas porque a história é bem filmada pelo Diretor Roman Polanskie e tem boas interpretações, não porque a métrica do script é bem feita. Se você precisa de um livro ou um crítico para te convencer que a história é boa, então ela não é tão boa assim. É como ter que explicar a piada, ao final: se isso acontece é porque alguma coisa não funciona.

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Seguindo adiante, veremos um “quem é quem” dos queridinhos da América. Woody Allen aparece quatro vezes na lista, Francis Ford Coppola e Billy Wilder também e o excêntrico Charlie Kaufman, o mais contemporâneo dos “laureados”, aparece três vezes. As gratas supresas ficam por conta de títulos como Feitiço do Tempo (27ª Posição), comédia dirigida pelo eterno Dr. Egon de Caça-Fantasmas, Harold Ramis com roteiro dele e de Danny Rubin em que um cético e cínico Bill Murray (outro Ghostbuster) fica preso no mesmo dia em uma pacata cidade do interior da Pensilvania/EUA.

Outro filme que evidencia que os votantes não se prenderam apenas a títulos densos como Crepúsculo dos Deuses (7ª posição e um filme imperdível), foi a presença de Harry e Sally – feitos um para o outro (40ª posição), roteiro de Nora Ephron que se tornou clássico pela célebre interpretação de um orgasmo em uma lanchonete feita por Meg Ryan. Aliás, outro roteiro de Ephron teria entrado em minha lista (listas tem isso, só existem para serem questionadas) que é Sintonia de Amor, uma história aparentemente simples, mas que tem o grande mérito de convencer o espectador em acreditar que um casal que não se conhece e só conversa na última cena do filme, pode se apaixonar (e sim, você “compra” a ideia do filme, o que é mérito da autora/diretora e dos atores, é claro).

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Continuando, O Sexto Sentido (50ª posição) é outra merecida presença. é verdade que M. Night Shyamalan (diretor e roteirista do filme) fez muita coisa ruim nos últimos tempos (lembra do Último Mestre do Ar?). Mas o filme tem uma história bem elaborada que até o final consegue prender o espectador sem cenas de ação ou efeitos especiais mirabolantes (cada vez mais lugares comum para evitar o básico, que é contar a história, efeitos e coreografias devem apoiar a história, não sobrepujá-la).

Claro que tem, em minha opinião, alguns excessos. Quatro filmes de John Huston é forçar a barra, mas, de novo, a escolha reflete convicções próprias dos votantes (todos norte-americanos). Eu estou de acordo com O Falcão Maltês (47ª posição), mas não colocaria O Tesouro de Sierra Madre (46ª posição). Rastros de Ódio (97ª posição) igualmente me parece estar ali como uma homenagem aos westerns (clássicos de Hollywood), mas se é para pegar um clássico do gênero, eu ficaria com O Homem que Matou o Fascínora, roteiro a partir de uma história de Dorothy M. Johnson que desconstrói mitos com maestria, antecipando a reinvenção dos “filmes de faroeste ” que viria com Os Imperdoáveis (30ª posição), décadas depois.

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Estrangeiros: temos Felini com 8 e 1/2 (87ª Posição) e Jean Renoir com A Grande Ilusão (85ª posição). E só. Mais uma prova de que Hollywood acima de tudo foi um norte da lista. Também estão lá os filmes que criaram o cinema pipoca, Guerra nas Estrelas (68ª posição) e Tubarão (63ª posição); além de “clássicos da sessão da tarde” como De volta para o Futuro (56ª posição) e ET – o Extraterrestre (67ª posição). A presença de Rocky, o Lutador (78ª posição), provoca reações, afinal, é um roteiro de Sylvester Stallone! Tudo bem, mas se seguir a linha da “jornada do herói” consagrada por Joseph Campbell em “O homem de mil faces”, este é um bom exemplo de como cativar a platéia em cima de sua narrativa. Eu, que sou muito fã de Christopher Nolan, fiquei feliz em ver Amnésia (100ª posição) na lista, ainda antes da consagração do diretor e roteirista com a trilogia do “Batman” ou do instigante A Origem.

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Enfim, a lista é de 2005. O cinema não parou desde então. Contudo, como estamos com a previsão ou lançamento de remakes de Jumanji, Tartarugas Ninja, Mary Poppins e versões live action dos desenhos clássicos da Disney (ok, são legais, mas não são originais), você começa a pensar: onde estão as idéias originais de hoje em dia? Será que todas as boas idéias acabaram?

Mas aí você assiste só em 2015 filmes como Spotlight, Divertidamente, Sicário, O Regresso, A Grande Aposta e você pensa: acabou nada! Os estúdios é que querem fazer dinheiro fácil! Ainda assim, sempre podemos recorrer aos clássicos de hoje e ontem… Santa Netflix! Até!

 

Autor Raul 2, ou Raul Colorado.

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