FINALMENTE, amigos do HQ Café. O dia que nunca chegaria, o dia que muita gente apostou que era uma ilusão, um delírio, um sonho distante…

O dia em que o filme da LIGA DA JUSTIÇA vai estrear, com toda a polêmica e circunstância que um evento dessa magnitude merece! Refilmagens! Muda diretor! Troca compositor da trilha! Exclui cenas! Faz refilmagem! Exclui MAIS cenas! Com tanta coisa rolando nos bastidores, impossível não nos lembrarmos da melhor, maior e mais famosa equipe dos quadrinhos justamente na fase em que ela foi uma bagunça completa.

Só que em câmera lenta e com muitos filtros escuros

A Liga da Justiça Internacional surgiu há 30 anos, quando os roteiristas Keith Giffen e J.M. DeMatteis ficaram encarregados de reformular a equipe na esteira da mega-saga Lendas. Tudo começa com a reformulação que todo o universo da DC Comics sofreu após Crise nas Infinitas Terras. A mega-saga, um divisor de águas não só para a editora, como para toda a indústria de quadrinhos, foi o fim do universo DC como o conhecíamos. Terras paralelas, viagens no tempo, personagens duplicados, laços demais com o passado… O que saiu daí foi uma Liga da Justiça da América com personagens mais novos, pouco conhecidos e com os dias contados. Somente ao final do crossover “Lendas” é que o editor Andy Helfer teria a chance de reformular a equipe de maneira adequada.

A maior equipe de todos os tempos – e a Liga da Justiça Internacional

Keith Giffen foi chamado para os roteiros. Como boa parte de sua carreira tinha sido como desenhista, J.M. DeMatteis foi chamado para ajudar com os diálogos. E o que Helfer, Giffen e DeMatteis queriam era restaurar a equipe a seus tempos de glória. Foi aí que os problemas começaram.

 

Superman, Mulher Maravilha e o Flash, completamente reformulados, já passavam por mudanças demais em seus títulos. Seus editores não os cederiam, pelo menos até que estivessem mais bem estabelecidos no novo Universo DC. Como ainda não sabiam qual direcionamento dar ao Aquaman, ele foi mais um que ficou de fora. Helfer, também editor do Lanterna Verde, sugeriu utilizar Guy Gardner ao invés de Hal Jordan, para dar mais visibilidade ao novo integrante da Tropa. Denny O’Neil, editor do Batman, teria ficado com dó de ver a equipe criativa sem poder usar os personagens principais e acabou cedendo o Homem-Morcego. E ninguém ia se opor à presença do Caçador de Marte, um integrante da formação original, mas sem título próprio ou apelo comercial.

Isso era um problema e tanto, já que a encarnação anterior da Liga, com personagens novos e pouco conhecidos, foi um fracasso. O que eles fizeram, então, foi tentar utilizar o maior número possível de personagens estabelecidos – ou, pelo menos, com nomes que pudessem ser facilmente reconhecidos. O Capitão Marvel (Shazam!), Canário Negro, Sr. Destino, Besouro Azul, Sr. Milagre e a Dra. Luz completaram o time.

Não era exatamente uma fórmula para o sucesso, mas foi Giffen quem propôs a mais corajosa abordagem, misturando os super-heróis de um dos principais títulos da editora com humor. Na época, era um passo bastante radical: estávamos na esteira de Watchmen, Cavaleiro das Trevas, Piada Mortal e V de Vingança, com a concorrente Marvel Comics atacando de Wolverine, Justiceiro e até mesmo um Homem-Aranha de uniforme negro. Os quadrinhos adotavam a abordagem mais adulta, cínica, madura e niilista possível como um chamariz para leitores de fora do círculo habitual de aventureiros de máscara e capa enfrentando o vilão do mês.

Isso exigiu uma revisão das personalidades dos heróis. Guy Gardner virou um macho caricato, fã de Stallone e principalmente de Rambo (a quem ele constantemente se comparava). Isso fez da Canário Negro a voz antagônica, feminista e engajada. Shazam passou a compartilhar da personagem mais ingênua de Billy Batson. Oberon era o companion ranzinza do Sr. Milagre – morando nos subúrbios com sua esposa super-forte, a Grande Barda – Sr. Destino sempre sisudo demais ao lado do Batman para tomar parte nas picuinhas do grupo, enquanto o Caçador de Marte ainda lambia as feridas pela perda da antiga equipe.

A primeira edição, com uma das capas mais icônicas da história da equipe, já mostrava que essa não era uma Liga da Justiça como as outras. Tentando salvar o prédio da ONU de terroristas, o time não funciona muito bem, com Batman dando ordens, Guy Gardner desafiando seu comando, o Besouro Azul questionando seus métodos e uma relutante Dra. Luz sendo manipulada por uma misteriosa figura – que se mostraria seminal não apenas neste capítulo da história da Liga como em todo o Universo DC: Maxwell Lord.

Contra todas as previsões, a Liga da Justiça Internacional foi um sucesso de público e crítica, permanecendo na memória de muitos fãs como um fôlego de novidade em meio a tantos gibis pesados e ultra-violentos. Claro que esse sucesso não veio sem uma série de tropeços, percalços… basicamente um “tentativa-e-erro” na busca de uma fórmula que pudesse estar à altura da tradição da Liga (mesmo rompendo totalmente com esse paradigma). Apesar – ou talvez por causa – de todos esses fatores, o que se seguiu foi um dos grandes sucessos da DC Comics e uma das fases mais amadas pelos fãs. Afinal, entretenimento e escapismo não são conseguidos apenas com densas camadas emocionais e plots pretensiosamente profundos, mas também com um pouco de leveza e bom humor.

BWAH-HA-HA-HA-HA!

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