Pois é galera aí está, presidente novo no poder, pronto para dizer “You’re Fired!” para os imigrantes em geral, fechar as fronteiras e chutar todo mundo pra fora no governo party pooper de Donald Trump. Textões de Internet pululando como se a banda larga mundial fosse se esgotar amanhã, chorume sendo ouvido até da lua, o que nos leva automaticamente à seguinte questão: o que será de Frank Miller agora?

 

Você compraria um carro usado deste homem?

Você compraria um carro usado deste homem?

Recapitulando rapidamente, Miller é uma das lendas do quadrinho moderno, assinou obras como Cavaleiro das Trevas, Batman Ano Um, Sin City, gradualmente guinou para, o que poderia ser definido em termos de Brasil, uma direita radical e se envolveu em uma série de presepadas na última década. Xingou muito no Twitter durante o Occupy Wall Street e foi imediatamente alçado ao símbolo de tudo que existe de mais retrógrado e radical na política americana. Segue trecho dos seus comentários quanto ao pessoal do occupy: “nada mais que uma gangue de vagabundos, ladrões e estupradores, uma horda estúpida alimentada por nostalgia da era de Woodstock e um pútrido e falso senso de missão”, “movimento, só se for dos intestinos”, “acordem seus lixos, a América está em guerra com um verdadeiro inimigo, talvez vocês tenham ouvido os termos islamismo e Al-Qaeda” e finalmente “vão se alistar no exército para deixar de serem bebês”.

Uau. Pausa para a pipoca.

 

Se você ocupou Wall Street, saiba: esse homem lhe odeia.

Se você ocupou Wall Street, saiba: esse homem lhe odeia.

No entanto, para quem imaginava que agora todo dia é 4 de julho para Miller, estes novos tempos de muros monolíticos prometem ser complicados para nosso velho Gollum, porque olhando com uma lupa, ele não apenas pegou carona nos estrangeiros ao longo de toda sua carreira. Ele praticamente a montou a partir deles.

Então, amigos, true believers, nessa nova América gerida pelo responsável por O Aprendiz, pegue seu passaporte e seu visto enquanto ainda pode, e vamos lá dar um rápido passeio pela obra de Frank Miller.

Seu run inicial em Demolidor? Praticamente uma evolução casca-grossa e aditivada do Spirit de Will Eisner. Um, veja só, filho de imigrantes austro-húngaros. E estamos falando apenas o começo da carreira do rapaz. Aliás, o próprio Spirit de Will Eisner vem de Central City, uma cidade que não existe. Se não existe não é americana! Outro imigrante! Comuna safado!

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Ronin? Barrou na imigração. A série bebe direto (até demais, inclusive) de Lobo Solitário de Kazuo Koike e Goseki Kojima, e da arte de dois comedores de baguete oriundos da francesa Métal Hurlante, o iugoslavo Enki Bilal – apenas um estrangeiro pode usar um nome desses sem dar uma risadinha – e o papa absoluto do traço, o francês com nome mais francês do mundo, Jean Giraud, vulgo Moebius.

 

Isto.

Isto.

Mais isto.

Mais isto.

Mais isto.

Mais isto.

Igual a.

Igual a.

Elektra Assassina e Amor e Guerra? Parceria com Bill Sienkiewicz. Eita! Com um nome desses só pode ser imigrante ilegal! Que ainda por cima teve a pachorra de abandonar a influência que tinha do americaníssimo Neal Adams para abraçar inspirações estrangeiras como o italiano Sergio Toppi e o pintor austríaco Gustav Klimt. Brexit nele!

 

Sergio Toppi.

Sergio Toppi.

Gustav Klimt.

Gustav Klimt.

Parceria com David Mazzuchelli em Queda de Murdock e Ano Um? Olha, apesar das influências evidentes de Alex Toth, outro bom americano, com um nome desses o pobre rapaz só pode ser estrangeiro safado, manda de volta praquele país onde todo mundo come massa e fala com as mãos.

E Hard Boiled e Big Guy and the Robot Kid? Benzadeus, o tal Geoff Darrow pode até ser um adepto cyberpunk da linha clara europeia, ou seja, companhia muy suspeita, mas Miller aquele pé fincado no Japão ali é seu, não, que escreveu a obra. E aí senhor Miller, como é que o senhor explica isso? Será possível que esteja mancomunado com a ameaça amarela? Logo o senhor que fez Holly Terror e parecia um bom cidadão da maior nação todos os tempos?

E essa? Explica essa, senhor Miller!

E essa? Explica essa, senhor Miller!

Sin City? Meu amigo, é puro Alberto Breccia. Argentino. Sim, país latino, fábrica de imigrantes e lavadores de prato. Inclusive com Miller declarando a influência de ‘alguns desenhistas latinos”. Céus! Um cucaracha! A vergonha!

Breccia.

Breccia.

Breccia.

Breccia.

 

Mais Breccia.

Mais Breccia.

Eu queria parar, mas tá difícil, a arte é muito foda.

Eu queria parar, mas tá difícil, a arte é muito foda.

Arrrrrreeeeeeeeee.

Arrrrrreeeeeeeeee.

Ok, encerrando por aqui.

Ok, encerrando por aqui.

Miller. E agora, Miller? Com tantas companhias suspeitas, com tantas parcerias e influências subversivas, com tanta abertura para o que poderia enriquecer a sua arte, você, sempre sem medo de dar sua opinião, sempre combativo, uma metralhadora giratória contra tudo e todos, de qual lado do muro você fica em nosso admirável mundo novo? O nosso lado ou o deles?

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Ah.

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