Afinal, heróis podem matar ou não? Devem matar? Só em último caso? O que define o “último caso”? A Lei? E se as leis não forem justas?

Uma das discussões mais comuns hoje em dia é movida pelas reações dos fãs ao filme Batman vs Superman (sendo inclusive tema de uma coluna aqui no HQCafé). Na película de Zack Snyder, o Superman é responsabilizado pelas mortes de milhares de inocentes ao final de Homem de Aço. Batman, que não tolera mortes como efeito colateral, inicia sua cruzada contra o herói de Metrópolis – matando dezenas de pessoas no processo.

São balas de borracha. Juro.

São balas de borracha. Juro.

O grande dilema moral do filme trata das consequências dos atos de pessoas superpoderosas, ou que vivem à margem da Lei. Ainda que polêmico, o filme nos permite parar para pensar se não matar é um dos pilares da construção do arquétipo do super-herói. O próprio Batman costuma ser retratado nos quadrinhos como alguém que prefere a própria morte do que permitir que seus mais notórios adversários sejam assassinados.

O que nos leva à curta, porém brilhante fase do roteirista Jim Starlin à frente do Homem-Morcego. Responsável pelas histórias das edições #414 a #430 de Batman, além da minissérie “O Messias”, Starlin conseguiu presentear os leitores com bem mais do que “o vilão do mês”. Suas histórias tinham uma dimensão humana que mergulhava fundo nos métodos e motivações do herói, um storytelling surpreendentemente moderno e algumas das sagas mais importantes em mais de 75 anos de publicação do Cavaleiro das Trevas: “Morte em Família”, apresentando o assassinato do segundo Robin, Jason Todd; “As Dez Noites da Besta”; e a já citada “O Messias”.

James P. Starlin iniciou sua carreira como roteirista e desenhista no começo da década de 70, tornando-se conhecido por suas sagas cósmicas, como Dreadstar e Gilgamesh II. Para a Marvel, foi responsável pela criação do vilão Thanos e pela morte do Capitão Marvel. Na DC, além do Batman, foi o autor da minissérie Odisseia Cósmica (mais conhecida como “John Stewart faz nojeira”).

Ainda que não seja sempre um nome lembrado, sua contribuição é inegável, o que faz dele uma das lendas vivas das HQs. É difícil imaginar os filmes da Marvel sem sua contribuição e, mesmo em Batman vs Superman, temos referências à morte de Robin e à participação de Anatoly Knyazev, o KGBesta.

Não sei o que é pior, o uniforme ou o nome

Não sei o que é pior, o uniforme ou o nome

Mas foi apenas após um bate-papo entre os colegas do HQCafé que resolvi baixar toda a fase de Starlin à frente do Batman e, para minha surpresa, encontrei não apenas um gibi muito bem construído e planejado, como também um Batman retratado de maneira sólida, convincente, humana, interessante e, principalmente, cativante em suas fraquezas.

Da mesma forma que o Cavaleiro das Trevas de Frank Miller é muito mais do que um embate “herói vs vilões”, mas um retrato da América nos anos 80 sob Reagan e a Guerra Fria, Starlin mostra uma América que ama o Superman, mas precisa do Batman – contudo ele não é o bastante. Em As Dez Noites da Besta, Batman impede um terrorista soviético de iniciar um conflito; em Morte em Família, o Aiatolá Khomeini aponta o Coringa como embaixador do Irã nas Nações Unidas (!). Batman e Robin se veem de mãos atadas ao descobrir que um estuprador é filho de um diplomata sul-americano. O maniqueísmo de soluções simples foi substituído por um mundo de exceções, limitações e impotência. A CIA ama o Batman, mas odeia o Superman. O FBI ama o Superman, mas odeia o Batman. Não poderia ser mais claro.

Jason Todd, o segundo Robin, ainda estava em treinamento e era o indício mais claro de que os antigos métodos (e histórias) não funcionavam mais. Robin percebe que não dá mais pra jogar pelas regras se políticos corruptos protegem traficantes, ao passo que Batman parece estar alheio a essa mudança de status quo da classe criminosa. Nas mãos de Starlin, não apenas Jason Todd, mas o próprio Robin se torna um personagem interessante como raras vezes antes foi possível mostrar – ele pode até mesmo ter matado uma pessoa ao perceber que a Justiça, por meios legais, jamais seria suficiente. O desenvolvimento da relação entre Jason e o Batman (e o primeiro Robin, Dick Grayson) é feito de maneira madura e cuidadosa – o que é interessante se pensarmos que Starlin nunca gostou do personagem – bem como a discussão do estrago psicológico que Batman pode ter causado a ele.

MEME REVERSAL

MEME REVERSAL

Como consequência da brilhante minissérie O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, a DC começou a considerar seriamente matar o Robin. Talvez para se eximir de qualquer responsabilidade, a editora deixou nas mãos dos leitores o veredicto: usando uma linha telefônica, os fãs poderiam escolher se Jason Todd morreria ou viveria. A maioria dos leitores apontou os polegares para baixo, a história se tornou um dos grandes clássicos dos quadrinhos pela brutalidade e consequências (até pouco tempo atrás) duradouras e Starlin saiu do título criativamente em grande estilo – mas, profissionalmente, não muito feliz. Apenas após a morte de Robin, a DC Comics percebeu que todo o potencial de merchandising, como brinquedos, lancheiras, toalhas e figurinhas com o personagem, teriam que ir pro lixo. Não pegava bem dizer para os fãs “a culpa é de vocês”, então Starlin foi mandado embora por ter criado uma excelente história de acordo com o que lhe havia sido solicitado.

"Nunca mais me chame de Leto!"

“Nunca mais me chame de Leto! Eu sou o maldito Coringa!”

Antes disso, ele ainda tinha escrito a saga As Dez Noites da Besta, com um final surpreendente em que Batman se recusa a testar os limites de suas próprias habilidades e se vê diante do dilema: matar ou não o vilão. Adianta lutar contra um assassino que vai sair livre por alguma tecnicalidade legal? Por política? Ler essa história fora da ordem cronológica, como a última saga de Starlin à frente do Homem-Morcego, a torna ainda mais impactante, pois Batman finalmente encontra uma solução para o dilema. Cruel? Criminoso? Ou apenas um homem fazendo a coisa certa, de maneira errada?

Mas Starlin ainda tinha uma carta na manga. Uma despedida em grande estilo, na forma da minissérie O Messias. Quando pessoas começam a desaparecer e um líder religioso-comunista decide introduzir sua própria versão distorcida de igualdade social, Batman se vê numa trama violenta, claustrofóbica e transformadora. Os desenhos de Bernie Wrightson tornam O Messias belíssima, mas sua maior qualidade foi forçar os leitores a pensar, mostrando um Batman falível e quebrado perante uma ameaça psicológica e contexto social inovador.

Esse dia foi loko.

Esse dia foi loko.

Mas a grande contribuição de Starlin para o Batman é o arco de histórias do “assassino da lixeira”. Um assassino serial mata mulheres em Gotham, desmembrando-as e despejando seus restos em lixeiras. A questão se torna pessoal para Bruce Wayne quando o assassino mata uma bela jovem com quem ele estava se envolvendo. Surpreendentemente, Batman erra, falha, ignora metodologias de investigação, se deixa levar pela raiva e quase põe tudo a perder. Essa saga entra facilmente na galeria de grandes histórias do Batman, seja pelo seu contexto humano ou social.

Infelizmente, mesmo tendo contribuído tanto, Starlin não costuma ser listado como um dos grandes gênios da HQ, uma das maiores mentes criadoras dos quadrinhos ou mesmo como um dos melhores roteiristas que o Batman já teve. Uma injustiça que podemos corrigir ao reler suas histórias, comentar, discutir e, porque não, esperar que elas sejam cada vez mais relevantes em tempos de eventos vazios, mortes e ressurreições inexpressivas, megassagas estúpidas e filmes ricos em visual e referências aos quadrinhos – mas sem alma ou coração.

Fica mais engraçado se você imaginar o Adam West falando

Fica mais engraçado se você imaginar o Adam West falando

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