Um operário da indústria.

Poucas vezes um clichê serviu tão bem para descrever um artista que, com seu estilo marcante, talento e longevidade no título, foi capaz não apenas de imprimir um estilo que seria muito copiado depois, mas também ficar na lembrança de milhões de fãs ao redor do mundo.

Essa semana nos despedimos de Norm Breyfogle, de apenas 58 anos. Seu talento transcendia o fato de que desenhou um dos personagens mais populares do mundo, o Batman. Eu o conheci nas páginas da revista mensal em formato americano do Homem Morcego, lançada aqui pela Editora Abril na esteira do sucesso da “batmania” do filme de Tim Burton, de 1989. As primeiras edições de Batman – A Revista, tinham o traço já conhecido de Jim Aparo (e roteiros de John Byrne), mas é só quando as histórias de Detective Comics escritas por Alan Grant chegaram aqui é que pudemos conferir o estilo dinâmico, moderno – às vezes assustador, outras cartunesco – de Breyfogle.

Sua contribuição para o lore do Cavaleiro das Trevas inclui o crédito de co-criador de alguns vilões, como o serial killer Senhor Zsazs, a versão definitiva do Cara de Barro e o bizarro Ventríloquo – pra não falar na saga “Cavaleiro das Trevas, Cidade das Trevas”, um conto assustador que levou o Charada a um novo patamar (para o qual ele jamais retornou, infelizmente).

É curioso como sua trajetória com o Batman começa, na verdade, quando ele enviou sua fan-art de um novo uniforme do Robin para a revista Batman Family. Anos mais tarde, ele seria um dos primeiros a desenhar Tim Drake como o terceiro Robin, já apresentando o uniforme com botas, calça comprida e capa mais escura.

Breyfogle não criou o visual do Robin III mas, baseado no desenho acima, talvez tenha sido melhor assim. 🙂

Quando eu era criança, muito antes de perceber que a pena é mais forte que os punhos, eu estava tão fascinado pelo Cavaleiro das Trevas que considerei seriamente desenvolver um traje parecido e ir pro centro da cidade à noite procurando injustiças para combater. Ao invés disso, coloquei tudo no papel. Como fã, eu o via como um mestre da razão, o exemplo definitivo de um corpo são em mente sã, uma visão aperfeiçoada do que eu poderia me tornar com bastante treino, como o homem mais capaz para forçar justiça e sentido em um mundo rebelde, e como o cara com visual mais legal a pular de um telhado. Como artista, eu o conheço intimamente como uma subversão irônica do fascismo, uma metáfora simbólica para o realismo pés no chão, minha mais duradoura fonte até então do pão de cada dia, minha maior paixão profissional, meu alter ego astral, um antigo arquétipo de herói sombrio e puro escapismo. Ele só existe em nossa imaginação, mas a imaginação é a alavanca pela qual podemos mover o mundo, e ele ainda é o cara com visual mais legal a pular de um telhado.

O universo do Batman fica um pouco menos emocionante sem a arte de Breyfogle, um pouco menos divertido e assustador. Resta torcer para que os muitos fãs que ele formou ao longo dos anos mantenham viva a lembrança de seu traço e dos ideais em que ele acreditava transmitir nas histórias do Detetive Encapuzado.

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