Geralmente nós associamos filmes, músicas ou personagens a seus criadores, às pessoas que trabalharam duro para tornar um sonho realidade. Mas há entrelinhas em muitas das histórias que conhecemos, sobre como pessoas trabalharam e jamais tiveram seu talento, ou sua parcela de contribuição, devidamente reconhecidos. Questões legais, ou mesmo pura má fé, às vezes varrem nomes importantes para debaixo do tapete. Todo mundo já ouviu falar em Walt Disney, por exemplo, mas ninguém se lembra de Ub Iwerks – que “apenas” criou o design do Mickey. Pra não falar nas brigas, muitas vezes públicas entre Jack Kirby e Steve Ditko para terem seus nomes nos créditos dos personagens da Marvel, e não apenas o de Stan Lee.

Imagine quando falamos no Batman, um dos personagens de ficção mais bem-sucedidos de todos os tempos. Um nome que sempre aparece associado ao do Homem-Morcego é o de Bob Kane, seja nos gibis, filmes, desenhos animados, vídeo games. Qualquer mídia. Kane sempre vai ter o crédito de criador do Batman. Isso até Marc Tyler Nobleman lançar seu livro Bill the Boy Wonder: the Secret Co-Creator of Batman. Nos bastidores, a história da origem do Batman é devastadoramente decepcionante, devido ao grande jogo de interesses e mentiras perpetradas ao longo de décadas de publicação.

2955901-9837117692-david

O ano era 1938 e um jovem artista de quadrinhos, Bob Kane, estava tentando desenvolver um personagem que pudesse rivalizar com o extremamente popular Superman. O máximo que conseguiu foi esboçar um combatente do crime com temática de morcego, muito diferente do personagem que conhecemos hoje.

Vamos considerar que não havia muita referência para super-heróis na época. Além do Superman, tudo se resumia a pulps, como o Sombra e o Aranha. Assim, Kane decidiu contar com a ajuda de um roteirista freelancer amigo seu, Bill Finger, para ajudar a desenvolver o conceito. Basicamente, alguém que fizesse praticamente tudo por ele.

“A visão original de Bob não incluía história nenhuma”, explica Marc. “Ele desenhou os primeiros esboços, que foram completamente reformulados por Bill. Ele praticamente teve que mostrar para Kane o que era um morcego para sugerir que o capuz do Batman parecesse com um”. Finger também escreveu a história de origem em que os pais de Batman eram assassinados, bem como as primeiras histórias a apresentar Robin, Mulher Gato, Pinguim, Charada, Espantalho, Comissário Gordon, Gotham City, o batmóvel, a identidade secreta Bruce Wayne e o apelido “Cavaleiro das Trevas”. Essencialmente, Bill Finger deu vida ao Batman no sentido mais amplo da palavra. Ele fez todo o trabalho baseado em um desenho de Bob Kane que se parecia com isso:

_finger

No que entendemos como parte do “processo criativo”, a isso se resume a contribuição de Bob Kane. Bill Finger refez tudo porque, claramente, o conceito do desenho era bem estúpido.

“Não podemos negar o crédito de Bob por ter começado a criação do personagem”, diz Marc. “E é isso. Naquele tempo, não havia plataforma na qual Bob pudesse contatar pessoas regulamente (não havia eventos em lojas ou aparições na TV). O Batman se tornou popular por causa das histórias.” E Bill Finger escreveu todas elas. Sendo assim, por que tão pouca gente ouve falar nele?

Ainda Segundo Marc, “Bob Kane nunca escreveu uma história sequer do Batman em sua vida”. E não há nada de errado nisso, uma vez que Kane só deveria cuidar da arte. Mas até isso ele mal fez. Nas primeiras edições, ele produziu muitas páginas copiando material de outras publicações. E, quando até copiar começou a ser trabalho demais para ele, Kane simplesmente contratou ghost-artists. A situação chegou ao ponto de ele ser a única pessoa a receber os créditos em todas as histórias do Batman, a despeito de não escrever ou desenhar um quadrinho sequer.  Então por que todo gibi do Batman ainda tem o “criado por Bob Kane”? Nos anos 40, o roteirista Jerry Siegel e o artista Joe Shuster, criadores do Superman, estavam tentando readquirir os direitos de seu personagem junto à DC Comics, e esperavam recrutar Kane para uma ação conjunta contra a companhia. Mais rápido do que você pode dizer “Holy dick move, Batman!” ¹, Kane falou sobre os planos de Siegel e Shuster para a DC, dando à companhia tempo de sobra para preparar uma defesa – e, assim, garantindo para si muitos pontos dentro dos escritórios da editora.

"Arte" de Bob Kane

“Arte” de Bob Kane

Assim, Kane conseguiu um bom acordo para si, e seu novo contrato incluía uma cláusula de que ele seria sempre creditado como o único criador do Batman. Uma cláusula que, em outras palavras, lhe dava o direito de cagar na cabeça de Bill Finger sempre que tivesse vontade. Por mais improvável que pareça, as coisas ainda ficaram piores para Finger: em 1965, depois de descobrir que Finger tinha finalmente começado a dizer pra todo mundo que havia criado a maior parte do mito do Batman, Kane surtou. “Bob escreveu uma carta de seis páginas para um fanzine em que ele basicamente chamou Bill de mentiroso com delírios de grandeza”, diz Marc. A explicação de Kane? Finger não podia ter sido o criador do Batman, uma vez que ele jamais fora creditado como tal.

Ignorado pela imprensa, sozinho e pobre, Bill Finger morreu em 1974, sem obituário, sem funeral e sem lápide que marcasse seu local de descanso.

Diferente de Kane, claro.

Diferente de Kane, claro.

Na segunda metade da década de 60, a DC já tinha parado de passar trabalho para Finger, por ele ter cometido o erro de solicitar algum tipo de seguro-saúde de seus empregadores. Ainda que ele tivesse voltado a escrever para a DC pouco antes de sua morte, não era Batman, mas algumas histórias de mistério. “Ele não recebia royalties e morava sozinho em Nova York”, explica Marc. “Tinha um boato na época de que ele fora enterrado num túmulo para indigentes. Fiquei aliviado ao descobrir que não era verdade. Mesmo assim, sua morte não foi mencionada na mídia”.

Daí podemos concluir que o maior responsável pelo sucesso do Batman, uma das marcas mais amadas e populares na história da nossa cultura, morreu com tão pouco que a própria ideia de ele ter sido enterrado como indigente era plausível. De fato, há tão pouco sobre Finger disponível que, quando Marc começou a pesquisa para seu livro, por volta de 2006, só haviam duas fotos dele em circulação regular. É mais fácil achar uma fotografia do Pé-Grande.

_414944_v1

“Ao sugerir um parceiro para o Batman, Bill Finger inadvertidamente criou o jovem ajudante de super-herói”, Marc define. Não importa como você se sinta a respeito desses jovens parceiros, a introdução de Robin culminou na criação de grandes histórias do Batman e centenas de cópias. Como se isso não bastasse, Bill Finger também ajudou a criar o Lanterna Verde original, enquanto contribuía para os títulos do Superman, Superboy, Mulher Maravilha e Flash. Simplificando: se você gosta de quadrinhos, se você gosta de super-heróis, Bill Finger teve alguma influência nisso, mesmo que essa seja a primeira vez que você lê a respeito dele.

Tudo isso começou a mudar, felizmente, em 2014, numa convenção de quadrinhos em Anaheim, após um membro da plateia perguntar a representantes da DC Comics por que Bob Kane ainda recebia sozinho os créditos pela criação do Batman. Um executivo respondeu que a companhia tinha “chegado a um acordo com a família de Finger”. A neta de Finger, Athena, emitiu um comunicado (a primeira vez que ela ou qualquer membro da família de Finger falou publicamente sobre o assunto), anunciando suas intenções de fazer tudo que estivesse a seu alcance para que o avô finalmente obtivesse o reconhecimento que merecia.

Esse foi um passo na direção certa. Dois meses depois, a DC lançou o primeiro gibi do Batman com o nome de Finger na capa.

Tec02

Assim as coisas estão lentamente melhorando para Bill Finger, 40 anos após sua morte. Ao menos podemos dizer que seu legado será respeitado, não apenas financeiramente, mas da maneira mais importante para um artista: com seu nome associado à sua criação.

Mesmo que a importância de Finger ainda precise ser melhor explicada e debatida, é inegável que foi um dos grandes nomes dos quadrinhos, numa época em que os artistas eram mal-pagos, pessimamente tratados pelas editoras e subvalorizados como categoria. A marca Batman movimenta milhões de dólares todos os anos e nada mais justo que os herdeiros de seus criadores possam desfrutar de uma parcela de todo esse sucesso. O melhor exemplo foi nos créditos iniciais do recente Batman vs Superman: a Origem da Justiça. A despeito de todas as críticas negativas, não deixa de ser emocionante ver o nome de Bill Finger listado. Kane teve uma aposentadoria tranquila, sempre participando de eventos até sua morte, em 1998. Mas, como o Batman, talvez o verdadeiro herói tenha permanecido oculto todo esse tempo.

O que me leva a perguntar se foi por isso que na excelente história de Neil Gaiman “Whatever Happened to the Caped Crusader”, o artista Andy Kubert desenhou o assassino dos pais de Bruce Wayne, Joe Chill, com as feições de Kane. Seria uma forma de dizer que o homem que “criou” o Batman era, na verdade, um vilão? De qualquer forma, o legado do personagem continua, suas histórias vão encantar gerações de leitores por muitos anos e, daqui pra frente, podemos dizer que, nos campos legais de direitos autorais, a justiça foi feita.

bobkaneisjoechill

 

Para saber mais sobre o livro: http://www.jewishbookcouncil.org/book/bill-the-boy-wonder

¹ – algo como “santa calhordice, Batman”.

Autor: