Viver de quadrinhos, no Brasil, é o sonho de muitos autores: temos uma profusão de artistas de HQ surpreendente, mesmo considerando as dimensões continentais de nosso país. Contudo, é um mercado bastante restritivo, com regras próprias e, muitas vezes, capaz de canibalizar a si próprio com autores buscando espaço em eventos e editoras mas sendo preteridos pelo que vem de fora ou possui um lobby mais forte. A especialidade do brasileiro, no entanto, é ser criativo mesmo nos momentos de crise. Emerson Valera, autor da série UCS – Unidade de Controle Sobrenatural, trabalha incansavelmente não apenas para produzir as páginas de sua história (já são cinco capítulos), mas também para divulgá-las através do Smocci: uma plataforma digital para autores independentes.

O gibi

U.C.S é uma webcomic sobre uma dupla de agentes combatendo o sobrenatural no território brasileiro. Anna e Alex, juntos de seu fusca chamado Poe, combatem de lendas urbanas sobrenaturais a extra-terrestres. A ambientação permite que ele brinque com histórias típicas da nossa terra (ou, pelo menos, como as conhecemos), mas sem deixar de lado as histórias particulares de seus dois protagonistas. Alex tem habilidades mediúnicas, atrai espíritos e usa sua energia para alimentar uma espada espiritual. Carrega um grande trauma e está prestes a ter que enfrentar seus demônios. Já Anna é uma bruxa capaz de conjurar objetos para lutar e, apesar de jovem, tem uma longa história com a UCS. Seu passado e seu futuro ainda têm muito para revelar aos leitores, mas algumas pistas já são dadas nessas primeiras edições.

O visual das lendas brasileiras, como saci e loira do banheiro, é assustador e muito importante visualmente para a narrativa, arrancando o leitor da “monotonia” e o jogando direto no mundo imprevisível de UCS. A arte em preto-e-branco valoriza o traço, que é consistente ao longo dos cinco capítulos – ainda que, em alguns momentos, falte um pouco mais de movimento aos personagens (especialmente Alex parece “estático” com a espada em dois quadros). O capítulo 3, no entanto, já mostra muita evolução na transição das cenas, mais fluidas e agradáveis ao leitor. O traço é sólido e limpo, mesmo quando é mais detalhista (o motor do fusca Poe tem um nível de detalhes impressionante). O roteiro progride calmamente, sem jogar informações demais, ainda que os subplots vão aparecendo (e sendo desenvolvidos) aos poucos. Essa tranquilidade para apresentar os personagens é um dos pontos fortes, pois deixa o leitor sempre querendo mais.

O Autor

Tive a portunidade de conversar com Emerson via WhatsApp e, muito solícito, o autor esclareceu alguns pontos não apenas sobre UCS mas sobre os desafios que ele enfrenta na produção de sua obra.

HQ Café: Webcomic é a alternativa mais viável para quem produz quadrinhos no Brasil atualmente?
Emerson Valera: Em minha opinião sim, pela facilidade que o meio digital permite hoje. Mesmo vendo muito trabalho autoral impresso de maneira praticamente profissional hoje em dia ainda considero a internet uma maneira mais fácil e rápida de mostrar nosso trabalho.

HQC: Quais as limitações que esse formato impõe (se é que tem alguma)?
EV: A maior é a preferência do público consumidor de quadrinhos pela mídia física. Crescemos lendo assim e acostumar com o formato digital ainda é difícil pra muitos, mesmo o tablet facilitando muito isso hoje em dia. É questão de costume e temos que respeitar quem ainda prefere físico.

HQC: Você já tem planos (concretos) para publicação física das histórias da UCS?
EV: A longo prazo, sim. Quem sabe um volume com todos os capítulos lançados. Mas é coisa para mais pra frente. Hoje eu foco todo o pouco tempo livre para desenhar a maior quantidade de histórias que consigo e fico sem tempo para organizar um projeto assim.

HQC: Você tem alguma previsão para fechar o “primeiro volume” ou “primeira temporada” da série?
EV: Sim mais dois capítulos. Os próximos dois vou focar em fechar a história do passado do Alex, já pincelada nesses 5 capítulos lançados. Pretendo concluir a busca dele pelo causador das mortes de sua antiga equipe, acho que consegui preparar bem o terreno ao longo do que mostrei até aqui para poder partir direto pra essa direção. A partir daí fico livre para desenvolver mais a Anna, pois já tenho muita coisa rascunhada e programada pra ela também e que não mostrei ainda para não ficar muita coisa ao mesmo tempo, dificultando a leitura e o clima de “monstro da semana” que gosto de passar com os capítulos fechados.

HQC: Sobre os personagens, quais suas influências na composição do visual? Especialmente os monstros, de onde vieram as ideias? Como foi criar o visual da Anna e da Angel? Parece que tem uma salada de influências muito boa aí.
EV: Eu misturo muita coisa que gosto no visual, rs. Todos os monstros eu tenho como referência visual filmes de terror trash, sendo o principal Evil Dead, sou apaixonado pelos filmes e agora série do Sam Raimi. Angel e Anna tem fontes diferentes entre si, Anna é a minha agente Scully misturado com Buffy, enquanto a Angel é a típica vilã de mangá shounen. Alex eu sempre pensei é uma mistura de cowboys do Clint Eastwood com os irmãos Winchester de Supernatural.

HQC: E o George? Vai ficar fixo na equipe ou apenas um “personagem recorrente”?
EV: George eu gostei tanto de desenhar, e a personalidade despojada e largada dele, mesmo sendo um ser extra dimensional inimaginável por nós, humanos. Com certeza ele aparecerá novamente, até pela química entre ele e Alex que eu gostei muito da forma que saiu. Ele terá um papel nesse desfecho do Alex, sim.

HQC: Pra finalizar, a gente sabe que o mercado pode ser cruel às vezes e, num momento de crise econômica como o país vem passando, não é fácil correr atrás dos seus sonhos tendo que conciliar vida pessoal/profissional com um objetivo que exige tanto e requer muita paciência. Dentro de tudo isso aí, o que você gostaria de dizer da sua experiência pro pessoal que acompanha quadrinhos nacionais, seja como leitor ou autor?
EV: Fazer quadrinhos é difícil, muito. Autoral, então, onde você é responsável por todas as etapas do processo, torna tudo muito complicado pra conciliar com todo o restante de obrigações que a gente tem. Mas o que me faz persistir é o prazer de contar histórias e de desenhá-las, o prazer de ver um capítulo pronto após tanto esforço é muito gratificante, ver suas criações ali, interagindo e contando uma história com suas ações. Acho que a mensagem é que vale a pena correr atrás do que você gosta de fazer, buscando se profissionalizar ou apenas por hobby e prazer, vale a pena chegar até o final dos objetivos, mesmo que ele seja apenas finalizar o atual capítulo e que não será lido por milhares de pessoas. Pros leitores, continuem cobrando qualidade e dando feedback aos autores. No meio autoral, um feedback é difícil de conseguir e valioso na busca de melhoria.

Os capítulos de UCS são postados nesse endereço e você pode também acompanhar o trabalho de Emerson Valera no Facebook.

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