Superman sempre foi tido como um personagem “difícil de lidar” por roteiristas de diversas mídias. Último filho do distante planeta Krypton, o pequeno Kal-El se adaptou à gravidade menor da Terra, e ao seu Sol amarelo, onde desenvolveu uma grande variedade de habilidades. Força, velocidade, resistência, visão de calor, microscópica, telescópica e raios X, sopro congelante, super-audição… O nível de seus poderes é tamanho que criar uma ameaça à altura sempre é uma tarefa árdua. Paul Dini e Bruce Timm, criadores dos clássicos desenhos dos anos 90, afirmaram que é fácil tornar o Batman interessante, “mas com o Superman é um desafio”.

Mais do que isso, seus valores de verdade e justiça, sua integridade e forte conduta moral o colocam em uma posição delicada. Seus oponentes devem ser ultra-poderosos e, via de regra, cruéis. Mas o Superman não mata. Ele não desce ao nível dos vilões que enfrenta, ele não aceita tomar a rota mais fácil para resolver conflitos. Ele realmente acredita que há formas melhores de resolver uma questão do que apelar pra violência, por mais violentos que sejam os seus inimigos. Foi assim no filme estrelado por Christopher Reeve, no final dos anos 70, foi assim em Superman Returns, nas séries animadas e em boa parte dos quase 80 anos de publicação.

Salvo raras exceções, isso faz do Homem de Aço um modelo, um exemplo ao qual devemos aspirar e seguir. Ele é capaz de exterminar a humanidade facilmente, ele pode derrotar qualquer exército da Terra, ele não precisa responder a nenhum governo, autoridade ou agência da lei. Mas ele só quer ter um emprego como jornalista, namorar com a Lois Lane e viver sua vida, na medida do possível, sem inconvenientes como Brainiac, Luthor ou o General Zod atrapalhando.

No final da década de 80, contudo, uma explosão de quadrinhos violentos minou a popularidade do personagem, que perdeu espaço para vigilantes e anti-heróis como Batman, Wolverine e Justiceiro. Seus valores passaram a ser vistos como ingênuos demais e, suas histórias, uma paródia retrô e saudosista do que os super-heróis eram.

No passado.

Chega o lançamento da edição #775 da revista Action Comics, justamente onde o Superman fez sua estréia em 1938, e a equipe criativa do roteirista Joe Kelly e dos desenhistas Doug Mahnke e Lee Bermejo preparou um questionamento de quais realmente deveriam ser os valores para pautar os heróis de quadrinhos. Não havia mais espaço para um Superman no mundo? Era chegada a hora de ele pendurar a capa em favor de personagens que matavam?

A história se chama “What’s so funny about truth, justice and the american way”, sendo batizada no Brasil “Olho por olho”.

Nessa edição, tivemos um “recado” mais direto apontado para o Authority (de Warren Ellis e Brian Hitch e, posteriormente, Mark Millar e Frank Quitely): uma equipe de “heróis” auto-denominada Elite começa a fazer o que considera ser a maior falha do Superman: matar os monstros e vilões que enfrenta. Nos gibis do Authority, uma espécie de “Liga da Justiça sem freios morais”, era comum que eles enfrentassem os vilões uma única vez, garantindo que o mundo ficaria “mais seguro com os caras maus mortos”.

É perceptível como a admiração do público por esse novo tipo de herói foi capaz de abalar as convicções de um Clark Kent já casado à época.

Em tempos de um filme da Liga da Justiça, que se esforça para mostrar o quanto os heróis se preocupam com pessoas inocentes pegas no fogo cruzado de suas batalhas, nós temos que nos lembrar que ele vem na sequência de Batman v Superman, um fracasso estrondoso de crítica onde um Superman sem a menor chama (ou sequer uma fagulha) de esperança ou inspiração passa o filme inteiro salvando vidas. Seu antagonista, o Batman, acredita que ele é poderoso demais e não é confiável, passando o filme inteiro matando pessoas para que possa destruir o estranho visitante de outro planeta.

Mortes demais para uma história de super-heróis. Todas essas questões já tinham aparecido antes em histórias como Reino do Amanhã, de Mark Waid e Alex Ross, mostrando um futuro onde a humanidade realmente preferiu vigilantes violentos e assassinos aos velhos mocinhos de roupas coloridas. Em determinada altura do gibi, o Superman diz ao Batman que, sem seus poderes ou armas, sem seus históricos de perdas, sem as cicatrizes que os definiam, tudo que sobrava era dois homens que não queriam mortes.

A inaptidão para perceber algo que está explícito no texto nos leva a perguntar como roteiristas de salário milionário conseguiram colocar na boca do Superman de Henry Cavill a frase “se eu quisesse, você já estaria morto”, direcionada ao Batman (que já havia dito que “se há um por cento de chance dele ser nosso inimigo, nós temos que destruí-lo”, sobre o Superman).

Voltando ao gibi… cansado de ver a Elite e seus métodos inconsequentes, o Superman não vê alternativa a não ser enfrentá-los, num combate que coloca em jogo tudo que acredita. Não é o Homem de Aço que entra na luta, mas seus valores e princípios, contra criminosos uniformizados que não têm nenhum. A Elite é formada por Fusão a Frio, que manipula o campo eletro-magnético; Zoológica, que tem uma armadura simbiótica extraterrestre; Chapéu, um mago capaz de controlar os elementos e transmutar matéria; e seu líder Manchester Black, um inglês (em referência aos britânicos que escreviam heróis homicidas) com poderes telepáticos e telecinéticos muito grandes.

Na batalha, levada à Lua para que não houvesse a perda de vidas inocentes, Superman é inclementemente surrado pelos poderes combinados da Elite, até desaparecer numa explosão e ser dado como morto. “A realidade é dor, bile e trevas”, comemora Manchester Black.

“Agora eu entendo”, a voz do Superman, calma e sussurrada se faz ouvir, sem que eles saibam de onde. “Eu cometi o erro de tratar vocês como pessoas”.

O que se segue é o Superman usando seus poderes em níveis poucas vezes vistos para massacrar a Elite. Manchester Black, arrogante e presunçoso, fica aterrorizado ao ver do que o Superman é capaz – e ao perceber que, até aquele momento, o Homem de Aço estava se contendo.

Claro, o Superman não mata. Ele não sacrifica as pessoas pelo que acredita, mas está disposto a se sacrificar. A derrota é uma pesada humilhação para Manchester Black – que, como qualquer vilão de gibi, promete se vingar e nunca dar descanso ao Superman enquanto estiver vivo.

Mas o Superman, enquanto estiver vivo, vai lutar. Do seu jeito, pelas suas regras. O erro de Manchester Black foi medir forças com o herói kryptoniano usando como parâmetro apenas força bruta, quando seu maior poder está entre bondade e firmeza de caráter – valores que nunca saem de moda, não importa o que o mundo, ou heróis cínicos e niilistas, digam.

Essa história foi adaptada para um longa animado em 2012, o que deu a oportunidade ao roteirista Joe Kelly de expandir a ideia e se aprofundar nos dramas e conflitos dos personagens. O resultado final é excelente, até superior ao gibi. Nota 9 para os quadrinhos, justamente por não ter tido espaço suficiente para detalhar melhor a trama em suas páginas, focando na mensagem – essa sim, brilhantemente entregue.

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