Doom Patrol #1O Universo em um Shawarma!

Essa resenha só contém spoilers da sinopse oficial e previews de Doom Patrol #1.

Convenções de quadrinhos são um lugar interessante para se ter uma ideia da notoriedade de um quadrinista. A leitura de HQs é um hobby solitário, e é comum termos dúvidas se a qualidade de um gibi coincide com a popularidade de seu autor. É claro que com a internet hoje em dia é mais fácil encontrar parâmetros variados de medição, desde dados atualizados de vendas, comentários em fóruns especializados e, é claro, “curtidas” em mídias sociais. Mas é somente quando você vira uma sardinha em lata em meio a milhares de pessoas se espremendo para chegar perto de um artista é que você realmente sente a sua fama.

Um exemplo disso: Gerard Way. Conheci o Sr.Way nas páginas de Umbrella Academy, minissérie ganhadora do Eisner em 2008, de sua autoria e arte de Gabriel Bá. Como achei o roteiro bacana e inovador, fiquei contente em saber que ele era um dos convidados da CCXP 2015. Quem sabe eu não tirasse um tempinho para ver alguma atração grande “de verdade” para arrumar um autógrafo dele? Em tempo, uma das minhas (muitas) falhas de caráter é meu analfabetismo musical: confundo constantemente nomes de músicas, bandas, datas de lançamentos, discos, etc. Sabia que Way já teve uma banda (My Chemical Shampoo? My Chemical Distance?), mas quem nunca?

Foi com espanto que me deparei com a legião de milhares de pré-adolescentes e jovens adultas se acotovelando na entrada do auditório da CCXP para ter um vislumbre não do lendário Frank Miller, mas Gerard Way, rock star da famosa banda de rock/emo/punk My Chemical Romance. Mal sabia eu ainda que nos bastidores desse evento ele, Jim Lee e Dan DiDio discutiam os primeiros passos de Young Animal, novo selo “adulto” da DC Comics sob a curatela de Way. Nesses mesmos dias, o músico redigiu seus primeiros rascunhos do roteiro de Doom Patrol, série de abertura da nova iniciativa.

Casey Brinke, o primeiro "tijolo" do novo Doom Patrol de Way.

A “esquisitinha” Casey Brinke, o primeiro “tijolo” do nova Patrulha de Way.

Patrulha do Destino: os Párias do Universo DC

Criada em 1963 por Arnold Drake e Bob Haney, a Patrulha do Destino é um grupo de desajustados – mais monstros que heróis – que por muitos anos ficou mais conhecido pela polêmica em torno de serem uma cópia distorcida do Quarteto Fantástico e/ou “inspiração” para a versão original dos X-Men. Quer dizer, isso ao menos até o run de Grant Morrison na década de 80. O careca levou as aventuras da equipe ao limite do bizarro, com os heróis enfrentando desafios como pinturas dadaístas vivas e caçadores raivosos de barbas. Com um estilo gráfico inovador, a série foi uma das precursoras do selo Vertigo.

Gerard Way é, para todos os efeitos, um discípulo de Morrison. Os dois já são velhos conhecidos, tendo Morrison já até figurado como um caricato supervilão em um dos clipes do My Chemical Romance. Folheando as páginas de Doom Patrol #1, é perceptível a tentativa de Way de emular o clima escatológico de seu mentor intelectual. Começamos esse novo run sendo apresentados à Casey Brinke, uma jovem motorista de ambulância, mas bem intencionada, uma verdadeira “luz” na escuridão que enfrenta os desafios da vida com otimismo. Apesar de esquisitinha, Casey nem de longe lembra os párias da Patrulha do Destino, ao menos até um encontro inusitado com Cliff Steele, o Homem-Robô, o mais icônico dos personagens da equipe. Quanto aos demais integrantes, temos apenas pequenas aparições e referências, aparentando que o primeiro arco deve abordar o destino da antiga Patrulha e a reunião de seus novos membros.

A nova formação da Patrulha checando sua primeira edição.

A nova formação da Patrulha checando sua primeira edição.

Apesar do intuito de dialogar com uma nova geração, a revista é surpreendentemente familiar para leitores mais antigos, com referências a filmes dos anos 80 como Encontros Imediatos do 3º Grau e O Último Guerreiro das Estrelas, e antagonistas galhofeiros que poderiam facilmente ter saído de uma aventura da Sessão da Tarde um episódio de Doctor Who. A própria mitologia que Morrison desenvolveu para a DC em Multiversidade é bastante utilizada (incluindo um universo que pode ou não estar dentro de um shawarma) e deve ser um dos principais elementos da trama. Ao contrário de Morrison, no entanto, Way não procura ser propositalmente hermético, e as diversas dúvidas que surgem na cabeça do leitor são claramente mistérios a serem desenvolvidos nos primeiros arcos.

Way demonstra ainda ser realmente um fã da nona arte, e não só por seu fetiche por máscaras do Spirit, de Will Eisner. Ele tem um bom domínio da mídia, fazendo uso inteligente de onomatopeias e imagens em balões, além de cortes rápidos e trocas de estilo para marcar mudança de humores e passagens de cena. O resultado é uma narrativa ágil e cativante. O desenhista Nick Derington possui um traço indie bastante semelhante à Cliff Chiang (Mulher-Maravilha; Paper Girls) e Jamie McKelvie (Wicked + Divine), limpo e com personagens “menos musculosos”, bastante em voga atualmente, e que combina bem com o roteiro.

Sobre Monstros e Filhotes

Então tudo ok, certo? Bom… Doom Patrol #1 é, em si, um ótima leitura, assim como a ideia por trás de Young Animal: enquanto a DC Comics apela para o saudosismo de seus leitores mais antigos em sua linha principal com a iniciativa do Rebirth, coloca seu novo selo nas mãos de um talentoso rock star para revitalizar algumas de suas franquias mais obscuras e atrair um novo (e muito necessário) público jovem para os quadrinhos. Essa não é exatamente uma estratégia inédita para a DC. Foi mais ou menos assim que a Vertigo nasceu na década de 90.

"Young Animal": a nova "Vertigo"?

Uma iniciativa com “Alan Moores em cativeiro”, conforme descrito pelo bruxo dr Northampton, a Vertigo revolucionou os quadrinhos americanos com autores criativos trazidos principalmente do cenário underground britânico. Ela gerou obras instigantes como Sandman, de Neil Gaiman e Hellblazer, de Garth Ennis, que trouxeram para os quadrinhos mainstream temas mais adultos, uma estética nova e mais sombria, e elementos mais presentes em movimentos de contracultura. O resultado foi um novo frescor (e novos leitores) para o mercado de HQs.

Se Doom Patrol #1 é um indicativo do que será Young Animal, não teremos uma nova Vertigo. A revista de Way é interessante, mas nem de longe inovadora. Muito do que você verá lá tanto no roteiro quanto na estética hipster já podem ser encontrados há algum tempo em títulos de outras editoras americanas como a Image ou a Dark Horse, ou mesmo em alguns títulos recentes da Marvel (como Young Avengers ou Silver Surfer). Assim, a DC parece mais “correr atrás” para acompanhar uma tendência do mercado do que tentar revoluciona-lo. Tampouco a nova Patrulha é aquela “suja” e transgressora de Morrison, ele certamente parece exótica, mas de certa forma comportada.

Nesse sentido, se a Vertigo foi um “monstro” dos quadrinhos, Doom Patrol e a Young Animal seriam mais equivalente a filhotes: muito divertidos e um ótimo passatempo, mas certamente inofensivos. Elas não vão te fazer refletir, incomodar ou surpreender.

Nota: 7,5 filhotinhos hipsters

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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