Aviso: essa resenha contém informações da sinopse e de previews da revista (e se você está REALMENTE preocupado com spoilers, você está lendo essa HQ pelos motivos errados).

Chove em Gotham City.

As ruas sujas e molhadas dessa megalópole amaldiçoada já viram passar toda sorte de predadores ávidos por aterrorizar seus infelizes cidadãos. Só que um novo caçador chegou na cidade. Algumas vezes ele caça coelhos, outras, patos. Mas nessa noite, ele tem sua mira apontada para um Morcego… e seu nome é…

Hortelino Troca-Letras.

“Uma carcaxa de coelho na sarxeta hoxe de manhã…”

´O Que que há, Morceguinho?´

Se alguém me dissesse que o melhor gibi que eu leria em 2017 seria um encontro entre o Homem-Morcego e Hortelino Troca-Letras – o inepto caçador de língua presa fadado a ser eternamente enganado por sua presa, o Pernalonga (ok, ocasionalmente também pelo Patolino) – eu daria uma sonora risada.

De fato, quando a DC Comics anunciou no início desse ano que promoveria quatro encontros entre seus heróis e os personagens clássicos do Looney Tunes, eu prontamente resolvi passar longe do material. Na verdade, me pareceu mais uma da iniciativa do co-editor Dan Didio para alavancar – com sucesso, diga-se de passagem – as vendas da editora com crossovers com outras franquias menos famosas, como Power Rangers e Tartarugas Ninjas. Um verdadeiro caça-níquel de pouca qualidade.

Mas alguma coisa na divulgação da equipe criativa e dos previews me deixou com a pulga atrás da orelha… e como é bom estar errado!

Os primeiros encontros de Batman e seu nêmesis, Hortelino

Batman/Elmer Fudd Special #1 é na verdade um revista com duas histórias, ambas escritas pelo novato Tom King, atual escritor do Batman e uma estrela em ascensão no mundo das HQs. Pway for Me, é desenhada pelo veterano Lee Weeks (Demolidor), enquanto a segunda fica por conta do animador Byron Vaughns (Animaniacs) no estilo cartunesco do Looney Tunes. Embora a história extra seja bem divertida, a joia está no conto principal.

Pway for Me é uma sátira noir, com Tom King usando e abusando de todos os clichês do gênero: um protagonista com culhões, mas moralmente falido que narra sua história de vingança em voice off; um mistério;  uma femme fatale; frases de efeito por todos os lados; e até mesmo um bar sujo onde pessoas de péssima índole se encontram. Uma angustiada versão do Hortelino (com direito a onomatopeias nos balões e recordatórios para imitar sua fala enrolada) é inserida nesse cenário soturno de Gotham, que sempre funcionou bem também para o Cavaleiro das Trevas. É insano como uma  premissa aparentemente estúpida consegue encaixar bem, se desenvolvida da forma correta.

Alguém poderia pensar que é uma proposta que se leva à sério demais. Muito pelo contrário, King, que já vem demonstrando sua veia cômica na série principal do Batman, aqui age como um comediante que tem que contar uma história muito engraçada com toda a seriedade possível para arrancar sucessivas gargalhadas da plateia (ou dos leitores). Aliás, Pway for Me fica ainda mais engraçada para os leitores, que como eu, se divertiam assistindo a turma do Pernalonga na TV antes de ir para a escola. A curta história é recheada de personagens, gags e dicas visuais dos desenhos animados, incluindo uma homenagem aos criadores da franquia Chuck Jones Tex Avery. Foi um dos poucos gibis que assim que acabei resolvi reler animado para caçar alguns easter eggs perdidos.

Lee Weeks faz um ótimo trabalho na composição das páginas e sua arte contribui muito para o falso clima sombrio da trama. As cenas de ação são dinâmicas e eletrizantes, dignas da narrativa de quadrinhos. O inevitável e divertido confronto entre Hortelino e Batman (e eu ainda não acredito que estou escrevendo isso) coloca imediatamente o caçador careca de língua presa como um dos adversários mais legais do Batman. Aliás, a representação gráfica de Weeks para o Hortelino e seus amigos quase (QUASE) me dá vontade que a DC achasse uma maneira de inseri-los na cronologia oficial do Homem-Morcego. Bom, se não isso, certamente me dá vontade que Weeks fosse o desenhista da linha principal do Cavaleiro das Trevas, ele e King parecem formar uma ótima dupla.

O roteirista Brian Azzarello disse uma vez que um bom roteirista de quadrinhos tem que ser capaz de contar uma ótima história, com começo, meio e fim, em apenas uma única edição, sem precisar elaborar uma grande saga ou algo parecido. Pegar uma roubada como Batman/Elmer Fudd Special #1 e transformar numa pérola dessas é um testemunho da qualidade dessa equipe criativa.

Nota: 10/10 Bátemas Fantasiados de Mulherzinha (só faltou isso na revista!)

Batman, sempre com Preparo! (arte de Caio Oliveira)

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