Ontem fiz meu desabafo sobre a animação da história A Piada Mortal, link aqui. Eu espero que entendam esse meu ponto de vista de “não vi e não gostei”.

Hoje vou falar da minha experiência quando li A Piada Mortal pela primeira vez. Eu tinha catorze anos, não fazia um ano que estava lendo histórias em quadrinhos de super-heróis e menos tempo ainda que lia as revistas da DC.

Comecei pela Marvel porque encontrei uma Grandes Aventuras Marvel (GHM) mais barata do que as  outras. GHM era trimestral, e em 1988, com a inflação galopante, a edição #16 com o Surfista Prateado vs Thor estava bem mais barata, porque estava para sair na época a #18.

Gostei tanto da história que em dois meses já estava comprando todas as publicações da Marvel e caçando as antigas em sebos.

Pouco tempo depois comecei a comprar as revistas da DC. Primeiro Superamigos, Super-Homem (isso, na época era Super-Homem), Novos Titãs e por último Batman.

Lembro que escrevi uma carta para a Editora Abril, nunca publicada, perguntando o porquê do Robin não aparecer nas histórias do Batman. No mesmo período li algumas edições do Cavaleiro das Trevas porque não encontrei todas as edições, li a terceira por último.

Foi nesse contexto que li A Piada Mortal, não sabia que o Coringa era branco leite de verdade e nem que o cabelo dele era “naturalmente” verde. Quando o Batman tira a peruca do Coringa no interrogatório, levei um tempo para entender que aquele Palhaço era um impostor.

A história me impressionou, pelo roteiro, pela simetria dos quadros, pela arte realista (com exceção do queixo do Coringa) pela violência visual do sangue saindo do ventre da Bárbara após tomar o tiro, ela caindo sobre uma mesa de vidro, a tortura sofrida pelo Comissário Gordon, o enredo contando a origem do Coringa com a morte de sua esposa grávida e sendo obrigado a participar de um roubo… tudo isso era novo e diferente para mim, até que cheguei ao final, e temos a Piada que o Coringa conta ao Batman.

“Haviam  dois caras em um hospício, uma noite eles decidirem que não queriam mais viver no asilo. Decidem que vão escapar! Então, vão ao telhado, e ali, do telhado, veem o vão entre os prédios, os telhados da cidade estendendo-se ao luar. O primeiro cara pula sem nenhum problema. Mas seu amigo não, ele recua. Fica com medo de cair. O outro cara tem uma ideia. Ele diz, “Eu trouxe a minha lanterna comigo! Vou apontar o facho de luz no vão do prédio e você poderá caminhar ao longo do facho de luz!” Mas ele balança a cabeça negativamente, e diz, “você acha que eu sou louco? E se você desligar a lanterna quando eu estiver no caminho?”

Eu refleti sobre a piada – um garoto de catorze anos refletir é um feito! – entendi que não havia mais escapatória para o Palhaço, tentar recuperá-lo era pedir que ele andasse sobre um facho de luz para fugir de um prédio a outro. Os dois começam a rir e logo em seguida o Batman mata o Coringa.

Aquilo não fazia sentido, li de novo, e o Batman continuava matando o Coringa. Li de novo e de novo.

Eu comecei a achar que a história era um Elseword – tinha acabado de aprender esse termo! – assim como o Cavaleiro das Trevas. Mas a Bárbara Gordon ficava paraplégica na cronologia, então não era, e se não era Elseword, o Batman não matava o Coringa.

Naquela época não havia internet, muita gente que lia quadrinhos não falava nada porque tinha vergonha e eu não tinha com quem conversar sobre isso.

O tempo passou, vinte e cinco anos…, e um dia o podcast do Kevin Smith repercutiu no mundo nerd com a declaração Grant Morrison que no final de A Piada Mortal o Batman matava o Coringa.

Eu lembro que pensei comigo, “verdade, finalmente alguém teve a mesma impressão, mas mata sem matar porque o Coringa continuou”.

Aqui devo dizer, como muito bem me lembrou o meu colega Hobbit, a maioria dos leitores não interpretou que o Batman matava o Coringa, e sim que os dois ficaram rindo juntos.

Primeira parte do Podcast, Fatman, com Grant Morrison

Segunda parte do Podcast, Fatman, com Grant Morrison

O mais engraçado da repercussão para mim foi que se criou uma polêmica no meio nerd que tentava desqualificar o Morrison, tendo como base que ele era um invejoso e fuçava o lixo do Moore atrás de histórias.

Olhem, se ele fuça o lixo ou não, eu não sei, sei que Moore é um mago e o Morrison também, de ramos diferentes e vivem em atritos, tem um artigo ótimo do Ochôa no Pastel Nerd comentando a treta, link aqui.

O que eu sei, é que Moore admira William Blake e escreveu o capítulo cinco de Watchmen como homenagem ao filósofo – isso filósofo, não concorda comigo? Você é jovem e cheira a leite. Naquele capítulo, intitulado “Terrível Simetria”, a diagramação dos grids é simétrica não porque o Moore queria fazer algo inovador, ele emula o poema “The Tyger“, de Blake. Para ser conciso, e simplificando, o grid das quatro primeiras páginas espelham o grid das quatro últimas. Agora reparem nos três primeiros versos do poema.

Tyger Tyger, burning bright, 
In the forests of the night; 
What immortal hand or eye, 
Could frame thy fearful symmetry?

 

Há uma simetria nos três primeiros versos, e esta é quebrada no quarto verso que fecha com a palavra simetria em inglês.

A primeira e a última página do capítulo 05, de Watchmen

A primeira e a última página do capítulo 05, de Watchmen

A segunda e a penúltima página do capítulo 05, de Watchmen

A segunda e a penúltima página do capítulo 05, de Watchmen

A terceira e a antepenúltima página do capítulo 05, de Watchmen

A terceira e a antepenúltima página do capítulo 05, de Watchmen

A quarta e a vigésima sexta página do capítulo 05, de Watchmen

A quarta e a vigésima sexta página do capítulo 05, de Watchmen

Fica claro as simetrias dos grids, e há muito mais a observar-se nos desenhos e na ação, que confio na percepção de vocês, quero destacar a última montagem das páginas, que mostra a simetria do grid sendo quebrada, e, em particular a página quatro, na qual, além de quebra-se, a palavra simetria é usada, como no poema.

Voltando ao poema, a simetria dos versos é quebrada no quarto verso que contém a palavra simetria. Repararam que no último quadro do capítulo ele cita essa primeira estrofe do poema de Blake?

Por que estou falando de tudo isso? Para evidenciar que Moore não quer esclarecer, ele quer nos confundir. O final ele mata o Coringa. Mas o Coringa não morre. Moore dá um olé, usando futebol como metáfora para ficar mais fácil a compreensão, no mundo todo matando o Coringa sem que ele morra.

William Blake não acreditava em um mundo dicotômico, com a separação entre bem e mal. Para ele há beleza e importância até naquilo que o senso comum considera mal. E o que o Batman faz nessa história? Ele tenta trazer o Coringa à razão, ele acredita que mesmo sendo a personificação do mal, ele pode se regenerar antes que os dois terminem matando um ao outro. Batman não vê o mundo dicotômico, como Blake.

Como eu disse ontem, A Piada Mortal está entre as melhores histórias que li. Quanto mais leio e entendo a história mais eu gosto. E preciso agradecer ao Mago Moore por me confundir.