E mais uma vez a Marvel Studios nos presenteia com outro filme de seu diverso e expansivo Universo Cinematográfico (MCU): Doutor Estranho. Cientes de nosso dever para com a legião de fãs de nosso blog, nossa equipe de colaboradores se reuniu na iminência da estreia da película para uma sequência especial de posts, apresentando aos nossos leitores um pouco mais sobre os grandes momentos desse exótico personagem, que promete escancarar as portas para a magia no MCU: Dr. Stephen Strange. O Mestre das Artes Negras. Portador do Olho de Agamotto. Protetor da Realidade. O Mago Supremo.

A verdade é que Doutor Estranho é um personagem bem esquecível.

Não que o longevo herói não tenha boas histórias. Mas você não encontrará entre elas pérolas dos quadrinhos como Cavaleiro das Trevas ou mesmo a A Última Caçada de Kraven. Tampouco ele costuma figurar nas listas de personagens icônicos da Marvel, embora faça parte da primeira geração de heróis da editora. Pessoalmente, acho que seu pouco sucesso se deve mais à falhas da editora do que ao potencial do seu conceito, mas acho que estou me adiantando um pouco…

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Conheça o Doutor Stephen Strange, o Babaca.

O que é que está te perturbando, Stephen?

Após um trágico acidente de carro que afetou suas mãos, o renomado neurocirurgião Stephen Strange perde a capacidade de operar. Em sua peregrinação pelo mundo em busca de uma cura para sua condição, Dr.Strange torna-se pupilo do Ancião, o Mago Supremo, um misterioso sábio que reside em um monastério nas montanhas da Índia (posteriormente definido como o Tibete). Stephen torna-se então o Doutor Estranho, um mestre das artes místicas que jura defender a humanidade de forças sobrenaturais. Nesse sentido, Estranho faz parte de uma longa safra de heróis criados a partir do clichê do “Ocidental Poderoso”, com direito até mesmo a um assistente oriental, o mordomo e artista marcial Wong (uma clara referência ao Kato, ajudante do Besouro Verde).

Michael Cane. Foto: Joe Pugliese (Hollywood Reporter)Michael Cane Explica
O "Ocidental Poderoso" é um clichê originário da literatura europeia dos séc. XVIII e XIX. O protagonista, geralmente um homem branco ocidental, descobre uma civilização desconhecida em lugar distante, normalmente na África ou Ásia. O Ocidental Poderoso não só consegue se integrar à comunidade local, como se torna rapidamente o herói e líder desse povo, ou o mestre em algum poder secreto ou arte local, superando nativos que treinaram desde a infância.
Exemplos clássicos desse clichê são os livros "Tarzan", "John Carter de Marte" e "As Minas do Rei Salomão". Mais recentemente, pode-se citar os filmes "O Grande Dragão Branco", "Batman Begins" e "Avatar" e personagens de quadrinhos como "Punho de Ferro" e "Doutor Estranho".

Doutor Estranho nasce em 1963 como uma atração secundária na edição 110 da antologia Strange Tales, pelas mãos de Stan Lee e Steve Ditko. Como bem apontou o Ochoa em um artigo anterior, Estranho compartilha com os demais heróis da Marvel uma origem bastante trágica e humana. Inicialmente, “o bom doutor” era na verdade um médico arrogante que desprezava seus colegas e se recusava atender pacientes que não lhe pagassem uma fortuna. “É meio que um cretino”, sentenciou o escritor Brian K.Vaughan décadas depois. Sua devoção monástica em proteger a Terra parece uma forma de se penitenciar por uma vida inconsequente que o levou a perder o seu talento (embora uma certa empáfia acompanhe até hoje o personagem). Um homem da ciência que encontra nas artes místicas uma forma de continuar a cumprir seu juramento de cuidar dos outros.

Assim como os demais integrantes do panteão da Era de Prata da Marvel, o Doutor Estranho pode ser chamado de um super-herói apenas no sentido mais amplo. Na época, a editora não publicava super-heróis para não atrapalhar um acordo de distribuição com a DC. Longe dos másculos Super-Homem e Capitão América, Estranho é um senhor de meia idade de cabelos grisalhos com um fino bigode, magro e longilíneo como outra criação famosa de Ditko, o Homem-Aranha. Em suas primeiras histórias, o traço de Ditko até dava a entender que Strange era oriental, antes que sua origem fosse revelada. Nos desenhistas seguintes, o Doutor ganhou uma aparência mais próxima do galã de cinema Clark Gable e sua icônica capa vermelha de levitação, mas mantendo as características essenciais do personagem.

Doutor Estranho, O Super-Herói com cara de Tio do Churrasco

Doutor Estranho, O Super-Herói com cara de Tio do Churrasco

Estranho também se desviava do mocinho americano tradicional ao não resolver seus problemas com os punhos. Ele era mais um excêntrico investigador do oculto, uma espécie de Mandrake com elementos orientais (menos mágico de circo, mais monge tibetano). Recebia em seu Sanctum Sanctorum, seu lugar de poder, vítimas incautas que se metiam com ameaças sobrenaturais ou extraplanares. Normalmente, Strange resolvia seus mistérios com o uso de dois poderes: a habilidade de sair de seu corpo numa “forma astral” invisível e intangível, e por meio de um olho místico usado para descobrir seus inimigos, uma espécie de Deus Ex Machina que solucionava “magicamente” (óbvio) o impasse de cada edição.

Embora não tenha alcançado a fama de outros heróis da editora, Doutor Estranho conquistou uma pequena base de fãs entre estudantes universitários e os jovens da nascente cultura hippie, que se sentiu atraída pelos elementos de orientalismo nas artes de Ditko. Ele brincava bastante com paisagens surreais e asbtratas, enquanto Stan Lee gostava de inserir alguns elementos esotéricos – como o Olho de Agamotto, o poderoso artefato do Doutor – segundo ele sem nenhuma grande pretensão ou mensagem oculta. Foi no obscuro título que surgiram alguns dos elementos mais exóticos e significativos da mitologia do universo Marvel, como a Eternidade (a encarnação de toda a existência) e o Tribunal Vivo (entidade responsável por manter o equilíbrio da realidade).

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As viagens no ácido do careta Steve Ditko

É até engraçado que muitos leitores enxergassem nas histórias do Doutor Estranho referências a experiências com alucinógenos, já que Ditko sempre pareceu ser um cara bastante instrospectivo e careta. O mesmo não se pode dizer de Steve Englehart, que assumiu o personagem entre 1973 e 1976. Juntamente com o desenhista Frank Brunner, Englehart saía andando pelas ruas de Nova Iorque sobre efeito de LSD e outras drogas em busca de inspiração para seus roteiros. As histórias tornaram-se cada vez mais lisérgicas e flertando com o horror cósmico. Ao lado de Wong e de sua pupila/amante Clea, o Doutor passou a enfrentar criaturas lovercraftianas, presenciar o Big Bang, conhecer os pais fundadores dos EUA (todos ocultistas, nessa versão) e filosofar sobre o significado da vida, do Universo, e tudo mais.

Nesse período, o Doutor Estranho teve sua principal mudança de status quo, quando seu tutor Ancião morre e torna-se uno com o Universo. Stephen passa a ser então o verdadeiro Mago Supremo do Universo Marvel e portanto o responsável por proteger nossa realidade de entidades cósmicas quase onipotentes, como Dormammu e Pesadelo. Seu título de Mago Supremo será ainda recorrentemente disputado por outros feiticeiros nas décadas seguintes (incluindo por seu arquinimigo, o Barão Mordo), e ele o perderia em algumas ocasiões.

As estranhas (e constrangedoras) vidas do Doutor Estranho

As estranhas (e constrangedoras) vidas do Doutor Estranho

O Mago na Cabana

Infelizmente com a saída de Englehart, as histórias do Doutor Estranho passariam por um longo período de declínio, incluindo ai uma desastrosa adaptação para a TV em 1978 (sério, não assistam). Diversos autores tentaram revitalizar e “modernizar” o personagem ao longo das décadas, com o pobre Strange tendo sua mansão destruída, perdendo seus poderes, ganhando um tapa olho, rejuvenescendo e até virando uma constrangedora cópia do Spawn nas mãos de David Quinn (ah, os anos 90…). Algumas equipes até conseguiram produzir boas graphic novels do personagem, como a onírica Dr.Estranho: Chamballa (Dan Green & DeMatteis) e Juramento (Vaughan & Martin), mas o bom doutor nunca alcançou o sucesso dos demais heróis da editora. Talvez na melhor delas, Triunfo e Tormento (Stern & Mignola), Strange serve mais como “escada” para um história do Doutor Destino (mas o Ochoa vai falar mais sobre isso outro dia…).

Dessa forma, restou ao Doutor Estranho a sina de “coadjuvante de luxo” do Universo Marvel, meditando em seu Sanctum Sanctorum até que algum colega mais famoso, como o Homem-Aranha ou o Demolidor, batesse em sua porta em busca de conselho ou socorro contra forças sobrenaturais. Strange também faria parte de diversas equipes, como os Defensores, os Illuminatti e, mais recentemente, os Novos Vingadores. Mas sempre me pareceu que o Doutor era “o penetra” da festa dos heróis fantasiados, com os autores tendo que apelar para diversos truques de roteiros para evitar que o Mago Supremo resolvesse os dilemas de cada história com um simples passe de mágica (a mais comum delas era apresentar Strange como um babaca “que não se metia em assuntos mundanos”).

"Por que eu não tô na Vertigo?!"

“Por que eu não tô na Vertigo?!”

Voltando à minha reclamação do início do texto, me parece que o principal problema do Doutor Estranho é que ele é claramente um personagem ótimo para contar histórias adultas, mas criado por uma editora que produz material para o público infanto-juvenil. Assim, a fraqueza de Estranho é a mesma de todo o universo metafísico da Marvel: enquanto o universo místico da DC Comics passou por um processo de reforma com a criação do selo Vertigo e gerou obras-primas mais experimentais como Sandman, Monstro do Pântano e Homem-Animal, a “Casa das Ideias” nunca conseguiu se desvencilhar de sua gênese heroica e aproveitar todo o potencial de sua principal criação mágica.

Olhando pelo lado positivo, esse talento desperdiçado torna bem possível que aqueles que se aventurarem nas salas de cinema nos próximos dias acompanhem uma das melhores aventuras do Mago Supremo, e o primeiro passo para um Universo de novas possibilidades nas telonas! Espero que ao menos dessa vez a Marvel seja um pouco mais corajosa…

 

 

 

 

 

 

 

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