Os anos 90 foram uma fase complicada para os leitores de gibis. Enquanto a DC Comics se arriscava com títulos como Preacher, Young Heroes in Love e a saga A Morte do Superman, a Marvel lambia as feridas após a saída de seus desenhistas-estrelas, que deixaram a editora com vendas de milhões de cópias por mês. Jim Lee, Todd Mc Farlane, Rob Liefeld, Marc Silvestri e Jim Valentino fundaram seu próprio selo, a Image Comics, um lugar de corpos impossíveis, armas desproporcionais e plots pouco criativos. Mas era o espírito da época. Vendia. E muito.

Sabe-se lá como...

Sabe-se lá como…

Bastava um gibi ter o selo da Image na capa pra vender. A DC, ficando pra trás, não tinha medo de experimentar coisas novas. Claro, houve momentos em que suas publicações flertaram com aquele “estilo Image”, nos dando coisas como um Batman de armadura, Superman ciborgue, Lanterna Verde ficando louco e assassino, Mulher Maravilha sendo substituída por uma loura cheia de sex-appeal e assim por diante. Mas ela tinha um trunfo, um nicho de boas histórias e liberdade criativa chamado Vertigo.

E palavrões também.

E palavrões também.

Além da citada Preacher, títulos como Hellblazer e Sandman eram um fôlego novo numa indústria de fórmulas desgastadas. Eram títulos mais maduros, séries de grande qualidade por autores consagrados. A Marvel não tinha nada sequer vagamente parecido, mas uma linha de “quadrinhos para o público adulto” poderia ser um chamariz. E assim, em 1995, surgiu o selo Marvel Edge. O único problema? Ainda investiam nos desenhistas estilo Image e histórias cheias de clichês. A Marvel já tinha dividido suas editorias: havia uma para os títulos do Homem-Aranha, uma para os relacionados aos X-Men, uma para personagens mais clássicos… A Marvel Edge era apenas mais do mesmo, com títulos como Justiceiro, Demolidor, Motoqueiro Fantasma, Hulk, Nick Fury e… Dr Estranho!

Estranho mesmo.

Estranho mesmo.

A linha Marvel Edge foi lançada com uma saga interligando os títulos, em que o Justiceiro ficava louco e convicto de que Nick Fury e a SHIELD tinham sido responsáveis pela morte de sua família, perseguindo-o por todos os títulos relacionados. Fizesse sentido ou não. Mas a ideia de um título do Dr Estranho era mostrar magia, misticismo, um pouco do bom e velho psicodelismo que fizera o título popular nos anos 60. Se a DC tinha Garth Ennis e Neil Gaiman, a Marvel buscou outro autor britânico para as aventuras do Mago Supremo: Warren Ellis.

Este homem.

Este homem.

Ainda era um Ellis em começo de carreira, bem distante da força criativa responsável por Planetary, Authority e Transmetropolitan, entre muitos outros. Mas toda a verborragia típica da Vertigo estava lá, com descrições cheias de metáforas e figuras de linguagem, uma ambientação que transportasse o leitor para algo realmente misterioso e supra-natural. Durante sua história editorial, o Dr Estranho nunca foi mais que um super-herói com background místico. Talvez Ellis pudesse ajudar a desenvolver um universo de magia dentro da Marvel, algo realmente aterrorizante e que não só explorasse, mas ampliasse a mitologia da Casa das Ideias.

E seus queixos proeminentes.

E seus queixos proeminentes.

Mas Ellis escreveu apenas uma edição, além do plot de mais duas. Ele foi contratado pela recém-promovida editora do gibi Marie Javins, que queria deixar pra trás os crossovers heroicos e lançar o título em outra direção. Porém, logo em seguida, Javins deixou a Marvel e Ellis passaria a trabalhar com Bobbie Chase – o que ele não queria. Afinal, era sob a batuta de Chase que a linha Marvel Edge ficava presa à velha fórmula dos crossovers de super-heróis, músculos e armas. Por lealdade, Ellis resolveu sair também – Javins o escolhera e ele preferia não trabalhar diretamente com Chase sem alguém intercedendo no meio-de-campo. O que tivemos, então, foi uma curta saga em que, após voltar de uma guerra interdimensional em que fora recrutado pelo Vishanti por milhares de anos, um Stephen Strange sem poderes substitui a Aura de Gaya, que vinha sendo a fonte de seus poderes, pelo Syzygi, uma espécie de “poder da coincidência” (ele chama de Magia da Catástrofe) que ele pode manipular misticamente após um alinhamento planetário.

Apenas fingindo que entendeu.

Apenas fingindo que entendeu.

O co-autor do restante da saga é Todd DeZago, o típico “pau pra toda obra”. Na segunda edição, Strange descobre uma espécie de “culto da poluição” na sua vizinhança que está prestes a infectar o planeta inteiro. No último capítulo, sem poderes, ele encontra o líder do culto e destrói o equilíbrio de seus poderes, salvando o mundo em poucas páginas e nenhuma emoção.

"Não toque nos móveis. São legítimos Vertigo."

“Não toque nos móveis. São legítimos Vertigo.”

Se ficasse mais tempo no título, talvez tivéssemos a chance de ver Ellis amadurecer até se tornar o autor que conhecemos hoje. Mas a verdade é que, naquela época, a única preocupação da Marvel era repetir fórmulas e colocar dentes rangendo em todos os seus personagens. A linha Marvel Edge foi cancelada à beira do mega-crossover Massacre, onde as “mudanças radicais” foram levadas às últimas consequências com a divisão do universo Marvel e a volta de dois desenhistas… que tinham ido pra Image. Mas isso é uma outra história. O Dr Estranho de Ellis ficou confinado ao plano das possibilidades que nunca foram, de onde, talvez, a magia da coincidência o tire quando mais precisarmos. Com um blockbuster vindo aí, talvez o momento esteja chegando.

No shit, Sherlock!

No shit, Sherlock!

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