Em um decreto não-oficial nos anos 60, Stan Lee vaticinou uma vez que os quadrinhos Marvel não poderiam mais ser alterados, para não entrarem em conflito com a maneira com que as outras mídias mostravam aqueles personagens. Contudo, como eles partilhavam de um suposto status constantemente mutável, eles deveriam sempre trabalhar com a “ilusão de mudança”, para chacoalhar eventualmente o status quo e alimentar as vendas. Mas jamais mudanças de fato. Ou seja, por mais que se modifique tudo, eventualmente em algum momento as coisas inevitavelmente voltarão para o mesmo lugar.

Isso porque mais que personagens, eles são marcas, propriedades que geram lucro com sua exposição. E você mata um personagem, mas jamais mata uma marca.

Assim sendo, mesmo que alguns personagens sejam construídos a partir de plots bem específicos e que teriam que chegar a uma conclusão um dia, como a busca de Bruce Banner por uma cura de sua condição (ou ele vai morrer sem se curar, ou vai conseguir a cura, de qualquer maneira, é um plot em aberto que pede um final) ou a luta dos mutantes contra o preconceito (ou a utopia de Xavier vai chegar, ou todos eles morrerão no processo), o fator mercadológico simplesmente impede isso. Suas aventuras sempre vão seguir adiante. Às marcas, só é concedido o descanso quando suas possibilidades de lucro se exaurem por completo.

O que não impede que, de maneira oficial ou não, seja em seus títulos mensais ou em especiais, algumas séries e personagens encontrem os seus finais.

A seguir, está listado alguns dos melhores finais de personagens estabelecidos. Prepare-se para tomar spoilers como se não existisse amanhã e boa leitura:

No final, só sobrarão Bruce Banner, as baratas, e Keith Richards.

Hulk

Nos primeiros anos do novo milênio a Marvel começou uma série de especiais chamados “O Fim”, onde autores consagrados imaginavam a última aventura de determinado personagem. De todas estas edições uma das mais tristes foi Hulk – o Fim, feito por Peter David e Dale Keown responsáveis por uma das fases mais consagradas do gigante esmeralda.

Na trama, após incontáveis guerras atômicas, restam apenas o Hulk e as baratas. A cada dia o gigante foge delas. Elas o alcançam, devoram seu corpo que sempre se regenera para no dia seguinte começar tudo outra vez, em um ciclo infinito. Ao fim da história, Banner está enfartando, seu corpo centenário está fraco e ele sorri, finalmente vai morrer e se juntar a todos que estão esperando por ele. Apenas para no último momento virar o Hulk novamente. Ele jamais irá voltar a ser Banner, sabe que morrerá se isso acontecer.

E Hulk é o mais forte que existe. Hulk sempre sobrevive.

Hulk sente frio.

Quarteto Fantástico + Mark Waid + Homenagem a Kirby = um combo de tantas coisas boas que não tem como dar errado.

Quarteto Fantástico

Forçar personagens a morrer é meio que a carne de vaca dos quadrinhos. As vendas vão mal? Mata aí o personagem que elas tornam a subir. Mas ninguém fez isso com tanto significado quanto Mark Waid em sua passagem pelo título da família fantástica. Durante a saga Ações Autoritárias, Doutor Destino havia possuído o personagem mais popular do título, o Coisa, no fim, tentando parar a ameaça, o grupo não teve outra alternativa senão matar o colega de equipe. E é aí que as coisas realmente começam.

A culpa desfaz o grupo, e nesse meio tempo, o Coisa chega aos portões do paraíso, sentado ali está o falecido irmão dele, que diz que ele não pode atravessar para o outro lado ainda. Enquanto isso, Reed chama o resto da equipe, ele simplesmente não pode deixar as coisas assim, e eles partem para o limiar do paraíso e ver o colega uma última vez. Ao final da saga, após passarem por N provações, os portões se abrem. Deus em pessoa quer falar com eles.

Ao entrar lá, eles descobrem que o salão celestial parece um apartamento do Brooklyn dos anos 60 e Deus é um homem baixinho e atarracado, de cabelos brancos e roupas comuns, fumando um charuto enquanto desenha. Deus é… Jack Kirby.

Após uma conversa sobre os mistérios da criação, Deus diz que os quatro tem que voltar, mas antes, rabisca algo em um papel e entrega para Reed. O que é isso, ele pergunta, um presente, Deus responde. Ao final, de volta à Terra, Johnny pede para ver o papel e pergunta o que afinal ele lhes deu.

É um desenho, mostrando os quatro, velhos, juntos ainda, com a legenda escrita embaixo “continua!”.

– Um final feliz. – responde Reed.

Aiiiii mimimi o título segue adiante. Fo-da-se.

Monstro do Pântano

Durante seu run no Monstro do Pântano, Alan Moore não mudou radicalmente apenas a vida do musgoso personagem, mudou também os quadrinhos norte-americanos para sempre. Ao término dos seus três anos no título, após fazer a criatura que então conhecíamos como Alec Holland vagar pelos confins do universo DC, Alec elimina seus últimos algozes para enfim viver nos pântanos junto de sua amada Abby.

O que torna a história tão especial é justamente o seu tom: após ir do -literalmente- inferno, até o além e os rincões mais distantes da galáxia, como um Ulisses atrás de sua Penélope, ambos finalmente se reencontram ao final, indo desfrutar do merecido descanso juntos. Monstro do Pântano é como um épico grego, grandioso, trágico, uma parábola maior que a vida, no fim das contas, uma obra sobre perda e redescoberta da humanidade, sobre ir até o ponto mais distante e ainda assim, voltar para os braços de quem ama.

Tudo bem que teve gibi no mês seguinte, mas para mim, a história acaba aqui. Esse é o fim oficial do personagem. Com um senso de encerramento e a despedida do seu autor mais marcante. Tudo que veio depois é fanfic.

Um Superman que acaba a história sorrindo? Pode isso, Snyder?

Superman

O Que Aconteceu ao Homem de Aço é o encerramento definitivo de uma narrativa em aberto que durava 48 anos. Em 1986 a DC Comics iria reiniciar seu universo com novas origens mais adequadas aos novos tempos. Ao saber disso, Alan Moore praticamente coagiu o lendário editor Julius Schwartz (chegando ao ponto de ameaçá-lo de acordo com a versão da história que você ouve) para fazer a “aventura final” do Superman, aquela que encerraria tudo que vinha sendo construído com o personagem desde 1938.

O resultado é talvez a melhor história dele, com o acréscimo de ter sido desenhada pelo roteirista que foi a cara do personagem durante quase 30 anos, Curt Swan. A história, quase uma carta aberta de amor ao personagem examina cada pequeno aspecto de sua mitologia, juntando e amarrando tudo mostrando o que um homem bom faz, quando sabe que seus dias estão chegando ao final. Moore é um dos maiores autores de quadrinhos de todos os tempos, e por baixo do seu eterno racionalismo e sua desesperança, poucas vezes se permitiu escrever de coração tão aberto e de maneira tão singela.

As aventuras do Superman pré-Crise acabavam oficialmente ali. Que venha agora o novo de John Byrne e boa sorte a ele.

Neil Gaiman trazendo uma grande inovação ao título: uma história que dá para ler até o fim.

Batman

Durante a – vá lá – polêmica passagem de Grant Morrison pelo título Batman, em uma das mortes mais bizarras e confusas das HQs, Bruce Wayne pendurou a capa para ir dessa pra melhor. O lado bom disso? Gerou O Que Aconteceu com o Cruzado de Capa, uma das histórias mais singelas do personagem, escrita por Neil Gaiman, onde em vez de querer causar com hermetismo sem fim e ideias sem pé nem cabeça, como fez seu colega escocês, Gaiman realizou uma bela elegia a todas a versões do homem-morcego, em uma história onde diferentes elementos de sua vida se juntam para dar um último adeus.

A história se passa em um funeral, onde descobrimos que na verdade é o funeral do próprio Batman. Os convidados e as versões do personagem vão mudando, enquanto convidados contam como foi “a última aventura” do morcego. De Dick Sprang a Neal Adams, de Adam West a Frank Miller, cada representação do personagem na cultura pop encontra o seu espaço na história. Se Moore encerrou com chave de ouro uma mitologia quase cinquentenária com seu O Que Aconteceu com o Homem de Aço, Gaiman faz o caminho oposto, não “encerra” uma história, mas sim celebra a relevância e pertinência do personagem ao longo de toda sua história na cultura popular.

Se quiser saber um pouco mais, leia o edificante post escrito pelo Juliano, o maior fã de quadrinhos do Cavaleiro das Trevas, sobre a história.

Oficialmente uma das coisas mais tristes que você vai ler na vida.

Capitão Marvel

Jim Starlin fez muita coisa ótima nos anos 70 e 80, duas delas, seu período à frente dos títulos Capitão Marvel e Warlock servem de base para o futuro do universo Marvel no cinema, contudo, em uma graphic novel de 1982, ele encerrou a vida do personagem que lhe deu fama. A Morte do Capitão Marvel, nunca republicado no Brasil, é uma história tristíssima, a lenta agonia de um herói, sucumbindo pouco a pouco ao câncer, sem grandes feitos, apenas a aceitação gradual do fim iminente.

Starlin disse que a história é um psicodrama. Tudo que ele passou com o pai dele, também falecido de câncer, está ali. Essa foi a maneira que ele encontrou para poder lidar com esse trauma e externar todos estes sentimentos.

 

Monaghan e seu melhor amigo morrem ao chão, enquanto aparecem seus velhos amigos, todos que morreram ao longo da série, esperando ambos em um bar, com um copo na mão. Não se iludam pela escrotice, Ennis é um cara sentimental pra caramba.

Hitman

Um dos títulos mais subestimados de todos os tempos, Tommy Monaghan morre em um tiroteio à lá Butch Cassidy na última edição de seu título mensal, salvando uma mulher grávida que ele mal conhecia. Durante todo o arco final, a história pergunta em diversos momentos o quanto vale afinal uma boa ação. Apenas em seus últimos momentos, com seu corpo estendido, baleado, o recordatório começa a narrar tudo que aconteceria a partir dali. A criança, o filho dessa desconhecida vai nascer, ela vai crescer sempre ouvindo a história de Tommy Monaghan e como ele deu a própria vida pela mãe dele porque “é isso que as pessoas boas fazem, o que é certo, não importa o custo”. A criança jamais vai esquecer isso e se tornar um dos melhores presidentes que aquele país já teve.

Se Tommy foi questionado diversas vezes de que vale afinal uma boa ação em um mundo tão ruim, esse final responde.

Hitman foi um dos títulos que lançou o nome de Garth Ennis, autor europeu que veio de carona com a invasão britânica. Ao contrário da seriedade e pedantismo crônico desses autores, o irlandês se destacava por uma linguagem descomplicada, sacana, irônica e muito bem-humorada, escondendo, por baixo de toda essa superficialidade uma visão profundamente clara de certo e errado, humana e romântica de mundo.

Momento-chave da série, Jack Knight fala sobre suas dúvidas com Superman, que diz “se acha que não deve continuar, não continue, é apenas isso”.

Starman

Acima de tudo, um título sobre tradições, legados e pais e filhos. Jack Knight se torna um Starman involuntário, quando seu irmão morre e alguém tem que assumir seu manto. As 80 edições da revista cobrem justamente os sete anos que ele atuou em Opal City e termina com o final mais adequado possível dado o tema que permeia toda a série: Jack, que recém se tornou pai, achando melhor se dedicar à criança e não mais a arriscar a vida toda noite, passa o bastão adiante, entrando com o filho dentro do carro e dando adeus a Opal City que praticamente se tornou um personagem da série, começando uma nova vida em outra cidade.

A obra-prima suprema de James Robinson, ele nunca escreveu tão bem antes. E nem depois.

Apenas coloque A Cavalgada das Valquírias e veja essa imagem depois.

Reino do Amanhã

Tem alguma coisa a ser dita sobre Reino do Amanhã que ainda não tenha sido dita? O futuro distópico do universo DC. Repleto de ecos bíblicos, mais do que a história definitiva sobre o ideal que os heróis da DC representam, é também um comentário ácido sobre o momento que os quadrinhos viviam naquele momento.

 

Onde encontrar:

Batman: o arco Whatever Happened to The Caped Crusader? foi publicado originalmente nos EUA nas revistas Batman v.1 #686 e Detective Comics v.1 #583 (2009). No Brasil, saiu pela primeira vez em Batman v.1 #88-89 (2010), da Panini. Foi republicado como o encadernado Batman – O Que Aconteceu ao Cruzado de Capa? (2013), da Panini.

Capitão Marvel: The Death of Captain Marvel (1982) foi publicado originalmente nos EUA, como edição única. No Brasil, saiu em Graphic Novel #3 – A Morte do Capitão Marvel (1988), pela Abril.

Hitman: o arco Closing Time foi publicado originalmente nos EUA na revista Hitman v.1 #53-60 (2000-2001). Ele não foi publicado no Brasil.

Hulk:  Hulk: The End (2002) foi publicado originalmente nos EUA, como edição única. No Brasil, saiu em Marvel Apresenta #6 – Hulk: o Último Titã (2003), pela Panini.

Monstro do Pântano: a história Return of The Good Gumpo foi publicada originalmente nos EUA em Swamp Thing v.2 #64 (1987). No Brasil, saiu em Monstro do Pântano #19 (1991), pela Abril Jovem. Ela faz parte também do encadernado A Saga do Monstro do Pântano #6 (2015), da Panini.

Quarteto Fantástico: o arco Hereafter foi publicado originalmente nos EUA nas revistas Fantastic Four v.1 #509-511 (2004). No Brasil, ele saiu em Universo Marvel v.1 #1-3 (2005), pela Panini. Ele faz parte também do encadernado Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel v.1 #31 – Quarteto Fantástico: Ações Autoritárias (2015), da Salvat.

Reino do Amanhã: Kingdom Come foi originalmente publicada nos EUA como uma minissérie em quatro edições (1996). No Brasil, foi saiu pela primeira vez com o título Reino do Amanhã, também como uma minissérie em quatro edições, pela Abril (1997). Foi republicada em diversos encadernados, o último deles sendo Reino do Amanhã – Edição Definitiva (2013), pela Panini.

Starman: a história Arrivederci, Bon Voyage, Goodbye foi publicada originalmente nos EUA em Starman vol.2 #80 (2001). Não foi publicada no Brasil.

Superman: o arco Whatever Happened to The Man of Tomorrow? foi publicado originalmente nos EUA nas revistas Superman v.1 #423 Action Comics v.1 #583 (1986). No Brasil, saiu pela primeira vez como parte de Super Powers #21 (1991), da Abril Jovem. Foi republicado em diversos encadernados, o último deles sendo Superman – O Que Aconteceu ao Homem de Aço? (2013), da Panini. 

 

 

 

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