Ó Eterno, cria em mim um coração puro e renova a meu espírito para junto de ti.

Salmo 51:12

O versículo acima não está aqui por acaso. Porém, para sua correta interpretação no contexto que propomos, é necessário entender melhor o idioma em que foi originalmente escrito: o hebraico. É um trecho que contem, no final, uma palavra traduzida na maioria das versões da bíblia como “integridade”, algo correto, justo e inabalável. Preferi a tradução acima, onde o salmista anseia aproximar seu espírito dO Eterno.

A palavra em questão é “kirby”.

Ela vem da mesma raiz etimológica da palavra kerav (batalha) e keruv (trazer para perto), e também korban (sacrifício ou oferta), que é feito para aproximar o fiel de seu Criador.

Uma palavra de difícil tradução, mas que soa muito familiar – e tem significados bastante claros para quem se interessa pelos créditos nas histórias em quadrinhos.

As histórias que Jack Kirby escreveu ao longo de sua prolífica carreira refletem as de muitos judeus na América, e também diversas questões éticas do judaísmo. Se não agora, quando? Se você não o fizer por si mesmo, quem o fará por você? E o mais importante: por que fazer aos outros algo que você não gostaria que fizessem a você?

Filho de imigrantes ashkenazim austríacos, Kirby é lembrado como co-criador do Capitão América, Thor, Homem de Ferro, Vingadores, Hulk, X-Men, Quarteto Fantástico, Surfista Prateado, Homem-Formiga, os Inumanos, Darkseid, Senhor Milagre e muitos outros. Sua contribuição aos quadrinhos já foi imortalizada no apelido que o acompanhou durante boa parte de sua vida: o Rei. E não há um profissional da indústria que não reconheça o valor e os méritos de todos os conceitos que ele criou, haja visto quantos deles estão chegando aos cinemas atualmente.

Kirby serviu na Segunda Guerra Mundial e trouxe para os quadrinhos a grandiosidade aterrorizante dos campos de batalha, a claustrofobia em campo aberto. Mas também colocou a consciência da Liberdade num uniforme colorido, ao dar vida ao Capitão América. O indivíduo pacífico e solitário que aceita o fardo de ter que lutar pelo bem de outras pessoas, mesmo que isso custe sua própria vida e jamais venha ser reconhecido caso logre êxito. Ele mudou a aparência da ficção científica, ao desenhar mundos alienígenas que eram mais do que discos voadores e homenzinhos verdes, mas também expandiu os limites do que os quadrinhos poderiam ser. Grant Morrison chama Jack Kirby de “William Blake dos quadrinhos”, uma comparação que conota não apenas a força criativa do Rei, mas também enfatiza os aspectos míticos e místicos de sua obra.

Ao sair da Marvel, no começo dos anos 70, foi para a concorrente DC Comics e criou uma nova cosmologia para a editora e seu universo de heróis, cheia de metáforas religiosas e cabalísticas – a Cabalá, raiz do próprio judaísmo, desempenhou um papel vital na criação do Quarto Mundo e dos Novos Deuses. “Foi sua obra-prima”, declarou Morrison. “Uma batalha épica entre deuses bons e deuses maus… Foi a primeira vez que os quadrinhos alcançaram uma dimensão cósmica. Eles realmente começaram a parecer bíblicos em escala.”

Muitos dos dilmas éticos e morais do judaísmo transpareceram em seus trabalhos – méritos também dos roteiristas com quem ele trabalhou, mais notoriamente Stan Lee. Levar uma vida correta, exercendo a caridade aos que necessitam, benevolência, compaixão e humildade são traços comuns ao seu panteão de personagens. Há também a lealdade cívica, mesmo a um governante estrangeiro e a disposição a aprender a fazer o bem. Essas diretrizes ajudavam a mostrar valores nas entrelinhas, enquanto enfrentavam supervilões e salvavam o mundo. Não fazer aos outros o que não gostaria que fizessem a você, não ser cruel ou covarde com seus adversários. Não revelar os segredos de seus amigos, tratar suas honras e posses como se pertencessem a você.

Quantas vezes esses temas apareceram nas páginas dos gibis? Em uma época de super-heróis cínicos, gritantemente falhos e absurdamente desumanos, ter um pouco dessa “ingenuidade” de fazer a coisa certa a qualquer preço passa a ser condição sine qua non para entendermos a indústria de quadrinhos e os arquétipos do que são os super-heróis.

Um exemplo é a eterna batalha dos X-Men contra o preconceito e a intolerância. Ainda que o Professor Xavier e Magneto sejam associados a Martin Luther King e Malcolm X (uma analogia que só foi feita dez anos após a criação dos personagens), a verdadeira inspiração para a criação dos personagens estava nos imigrantes judeus que tentavam passar despercebidos na América – drama vivido pela família de Kirby. Os mutantes se vêem vítima de preconceito, por mais que tentem se integrar à sociedade. Suas habilidades, ou conhecimentos, são vistos com estranheza e suas associações são tratadas como conspirações maléficas – não importa quantas pessoas eles salvem. Por que continuam se importando, quando a opinião pública ainda está contra eles? Uma analogia melhor seria o Estado de Israel, sempre na mira da opinião pública, quer use a diplomacia de Xavier – a coexistência pacífica, quer use a severidade de Magneto – defender a si mesmo e os seus.

O mais famoso super-herói judeu de Kirby é o Coisa, do Quarteto Fantástico. Mesmo assim, era algo que nunca foi gratuitamente explorado, ou mesmo citado, pois os valores que ele defende ao lado do Sr Fantástico, Mulher Invisível e Tocha Humana são universais. Ele não se coloca como um pilar da moralidade ou juiz severo. Ainda que use – muito bem – sua força física, a alma de Benjamin Jacob Grimm é atormentada pela sua própria imagem: por mais que tente se integrar, ele não consegue deixar de ser quem é. Seu melhor amigo e maior cientista do mundo, Reed Richards, não consegue encontrar uma cura para sua “condição”. Quando perguntado se não cita sua religião por ter vergonha de suas raízes judaicas, Ben responde: “Não, não é nada disso. Eu apenas… Não falo sobre o assunto, só isso. Acho que já há problemas demais no mundo sem que as pessoas fiquem achando que todos os judeus são monstros como eu.”

No centenário de seu nascimento, Kirby permanece um dos nomes mais influentes dos quadrinhos de todos os tempos. Os valores, impregnados nas páginas dos super-heróis desde o Superman, ganham força graças a sua criatividade incansável, sua genialidade e sua visão de mundos distantes e maiores do que qualquer coisa concebida anteriormente. Não é pouco. Basta pensarmos no lucro que a Disney tem com cada novo filme da Marvel que utiliza seus personagens. E, no final das contas, o que restam não são os escudos, martelos, armaduras ou poderes mutantes, mas a intenção firme e sincera de fazer o que é certo, mesmo que todos estejam contra ele. Visualmente, jamais haverá outro como ele. “Kirby não criou os quadrinhos”, diz Mark Evanier. “Ele apenas faz parecer que foi ele”.

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