Domínions! Khúndios! Durlanianos! Thanagarianos! Gil’Dishpans! Okaaranos! Cidadelianos! Daxamitas! Psíons!

Uma saga com ponto de exclamação no título só pode ser muito boa.

Uma saga com ponto de exclamação no título só pode ser muito boa.

De tempos em tempos, as grandes editoras preparam um crossover, uma megassaga que se espalha por todos (ou, pelo menos, a maioria) de seus títulos (os chamados tie-ins) e serve como um ótimo pretexto para encerrar fases de alguns personagens ou lançar novos. Depois do sucesso de Crise nas Infinitas Terras, que remodelou o Multiverso, a DC Comics lançaria Lendas, onde surgiram o Esquadrão Suicida e a Liga da Justiça Internacional, em 1986, e Milênio, em 1988.

Li, mas não faço ideia do que aconteceu aqui.

Li Milênio, mas não faço ideia do que aconteceu aqui.

Em 1989, foi a vez de Invasão!, a primeira megassaga que acompanhei nas bancas (no Brasil ela chegou em novembro de 1990). Eu já comprava as revistas da Liga, além de DC 2000, Super-Homem e Novos Titãs, então foi fácil ficar em dia com a cronologia dos eventos. A editora Abril caprichou no lançamento, trazendo para o Brasil até mesmo uma edição do jornal Planeta Diário, muito bem adaptada para o mercado tupiniquim.

Ainda tentando entender qual o critério na escolha da “gente famosa”.

Ainda tentando entender qual o critério na escolha da “gente famosa”.

Invasão! foi idealizada por Keith Giffen, o grande arquiteto do Universo DC na época, escrita por Bill Mantlo, em seu primeiro trabalho para a editora depois de anos na Marvel e desenhada por Todd McFarlane e Bart Sears. A história era bastante simples: uma coalizão de nove raças alienígenas começa a ver a Terra como uma ameaça ao equilíbrio cósmico, por conta de seu crescente número de “meta-humanos” (os super-heróis). Ainda que houvessem sérias divergências e animosidades entre as raças envolvidas, os Domínions¹ conseguiram elaborar uma estratégia e liderar os esforços de guerra, que começa com a Austrália sendo obliterada.

Em sua segunda fase, a história focou na resistência da Terra e de seus heróis enfrentando os invasores na União Soviética, Cuba, Oceania, Ilha Paraíso e, claro, nos Estados Unidos. Ver os grandes heróis da DC desenhados por Todd McFarlane era espetacular: seu traço dava um fôlego novo para medalhões como Superman e Lanterna Verde, as cenas de batalha eram frenéticas e as páginas transbordavam de ação². Nas outras revistas, vimos os heróis elaborando planos, histórias de sacrifício e coragem e muita, muita porrada.

Capas de oito metros!

Capas de oito metros!

Os heróis vencem e conseguem expulsar os alienígenas da Terra. Mas a terceira fase ainda guardava uma última cartada dos invasores: a Bomba Genética, um artefato destinado a desestabilizar o DNA de todos os humanos que tivessem super-poderes. Com isso, boa parte da população meta-humana da Terra fica entre a vida e a morte, enquanto diversas pessoas que jamais manifestaram poderes passam a descobrir que têm o metagene. Entre eles estão o diretor da Liga da Justiça Internacional, Maxwell Lord, que desenvolve limitadas habilidades telepáticas, e a brasileira Flama Verde, também integrante da Liga, cujos poderes aumentam a níveis que ela jamais imaginara. Numa corrida contra o tempo, um pequeno grupo de heróis consegue criar um antídoto que salva a população meta-humana da Terra.

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Dentes rangendo!

Grant Morrison acabou sendo o autor mais beneficiado pelo crossover. Num dos mais fascinantes contos da saga, o Homem-Animal enfrenta um artista performático thanagariano. Sim, isso mesmo. Artista performático.

Daqueles bem...

Daqueles bem…

Rejeitado pelo pai por ter escolhido ser um artista (e não um guerreiro), o invasor cria uma bomba que causa uma sinapse de emoções na mente do Homem-Animal, fazendo-o rever todos os momentos da vida de seu adversário. Prestes a enlouquecer pelo efeito da bomba, o herói é salvo pelo Gavião Negro, que desliga a bomba simplesmente pressionando um botão.

"Gosto mais de você no desenho animado."

“Gosto mais de você no desenho animado.”

O ato final da saga, a explosão da Bomba Genética, foi o pretexto que Morrison precisava para começar a escrever a nova Patrulha do Destino, matando a maioria dos integrantes da formação anterior da equipe. Homem-Animal e Patrulha do Destino seguem sendo dois de seus mais importantes trabalhos na editora, ao lado de JLA, que ele escreveria no final dos anos 90.

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Sem mencionar a Bat-Vaca.

Entre as muitas sacadas geniais da série, vemos Lex Luthor construindo cópias robóticas dos heróis – que explodiam quando eram capturadas pelos alienígenas; o Desafiador usando seus poderes para confundir os líderes alienígenas e jogá-los uns contra os outros; e os ancestrais da Legião dos Super-Heróis sendo reunidos e formando uma equipe própria, a L.E.G.I.Ã.O.

Chegamos à 2016, onde a série de TV da Supergirl migrou para o canal CW, fazendo companhia a The Flash, Arrow e Legends of Tomorrow. Ainda que situada em um “universo paralelo”, a chegada de Supergirl à emissora foi a chance de transpor para as telinha a história Invasão!, de maneira mais simples mas muito honesta e divertida.

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– Por que não chamamos o Superman? – Já temos o Brandon Routh aqui.

Durante a semana de 28 de novembro a dois de dezembro, os Domínions chegaram à Terra, primeiro no episódio Medusa, de Supergirl. A relação com a saga, contudo, está restrita aos últimos 50 segundos do episódio, quando Barry Allen (o Flash) e Cisco Ramon pedem sua ajuda. É apenas em Flash que vemos os heróis se preparando para enfrentar os alienígenas, fazendo treinamento de combate com a Supergirl (e sendo surrados por ela) e discutindo problemas que o próprio Flash causou ao viajar no tempo e mexer com a cronologia. Acontecem as primeiras lutas, os heróis são divididos entre os meta-humanos que ficam na terra e os vigilantes que são abduzidos pelos Domínions, enquanto os cientistas das séries tentam entender os motivos por trás do ataque.

Eu exijo plano odontológico!

No episódio de Arrow as coisas ficam bastante devagar. Os heróis abduzidos se veem numa alucinação coletiva em que seus maiores sonhos são realizados e precisam de concentração e força de vontade para conseguir escapar da armadilha. Na Terra, os cientistas descobrem que a língua dos invasores é similar ao hebraico, sendo capazes de decifrá-la usando gematria³.

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Nerds cabalistas.

É apenas em Legends of Tomorrow que as coisas se resolvem (na porrada) e os heróis entendem os motivos da Invasão. Como nos quadrinhos, os alienígenas temem que as alterações genéticas dos terráqueos, que estão dando origem a um número cada vez maior de meta-humanos, façam deles uma ameaça no futuro. Viajando no tempo, eles conseguem negociar um cessar-fogo, mas os Domínions têm uma última exigência: eles querem que o Flash se entregue, pois suas manipulações da linha do tempo se provaram muito perigosas. Os heróis lutam mais uma vez e encontram uma maneira de debelar a invasão de uma vez por todas, reatando antigos laços e forjando novos.

Se, nos quadrinhos, a Invasão nos deu séries como L.E.G.I.O.N. e Justice League Europe, o evento televisivo nos mostrou os heróis fazendo o que eles fazem de melhor: lutar pelo próximo, pagando o preço que for necessário pela segurança e bem-estar dos demais. O crossover abre as possibilidades para a adaptação de mais sagas, o Multiverso está cada vez mais estabelecido e novos personagens têm surgido. Ainda que as séries não tenham roteiros primorosos, a sensação que fica é exatamente aquela de comprar gibis na banca no começo dos anos 90: o visual é incrível e ação não para. Lições para serem aprendidas pelas versões de cinema dos personagens.

Canário Albina lendo GIBI!

Canário Albina lendo GIBI!

¹ = “Dominators” no original. O nome hoje é traduzido para “dominadores”. O termo “Domínions” foi o primeiro utilizado pela editora Abril e é o que ficou na memória afetiva.

² = olha, pra época era muito legal, sim. Só Deus pode me julgar.

3 = gematria é um método de encriptação muito comum no estudo da Cabalá hebraica, em que letras são substituídas por números e vice-versa, chegando-se a mensagens ocultas de acordo com sua somatória.

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