Recentemente, a equipe do HQ Café disponibilizou para os leitores do site um grupo no Telegram, aplicativo de mensagens instantâneas que permite uma melhor interação entre todos os interessados em discutir quadrinhos. Alguns dos nossos leitores já estão participando e, justamente durante um desses debates, levantamos a discussão sobre o Authority, equipe de super-heróis da WildStorm criada no final dos anos 90 por Warren Ellis e Brian Hitch, dos escombros do StormWatch.

Tudo que Trump mais odeia.

Não vem ao caso nos prendermos aos detalhes do fim do StormWatch – Ellis, com um currículo que tem Hellblazer e Planetary, recebeu carta branca pra acabar com a equipe e começar sua própria ideia do que seria uma equipe de super-seres proativa. Ao invés de esperar os vilões atacarem para reagir, o Authority tomaria medidas drásticas para garantir que, ao enfrentar uma ameaça, seria pela última vez.

Com a arte de Hitch, que já passou por Liga da Justiça e Os Supremos, começou aí uma revolução narrativa que, de diversas formas, fez outras equipes de heróis parecerem monótonas. Não que Authority não tenha os seus clichês – personagens bad-ass por todo lado, profusão de frases de efeito e ameaças em uma escala cada vez maior – mas o título determina o parâmetro para o que as super-equipes deveriam aspirar dali em diante. Se o final dos anos 90 foi marcado pelo “retrô-fantástico” de Grant Morrison em JLA e Kurt Busiek em Avengers, é em Authority que somos apresentados à noção de que, em um mundo ameaçado por terrorismo, medo e mortes sem sentido, era a hora dos heróis combaterem fogo com fogo e não fazer mais prisioneiros.

Ellis joga pela janela todo o excesso de gordura que faz sagas simples se estenderem por vários meses. Não há romances – ainda que haja, digamos assim, “interação carnal” entre alguns dos integrantes – nem intrigas internas com traições e espionagem. Todos os subplots menos relevantes estão lá, claro, como o romance entre Apollo e Meia-Noite ou a insegurança do Doutor, mas são apenas características dos personagens. O importante é deter a ameaça, da maneira mais maniqueísta possível. Na visão do renomado autor, o inimigo é sempre externo, sejam terroristas ou alienígenas.

Ou estereótipos.

Alguns vícios dos quadrinhos estão lá: os diálogos que descrevem os poderes e habilidades dos personagens, eventos passados e o plano do vilão. Mas a linguagem já caminha a passos largos rumo ao gibi “cinematográfico” popularizado por Mark Millar (seu sucessor no título). As sagas curtas são um bom exemplo de que é possível contar uma boa história de maneira enxuta. Todas as informações adicionais são habilmente inseridas nas entrelinhas e na arte.

Ler as edições de Authority, em um ritmo mais lento que estou habituado, me permitiu “degustar” melhor os pormenores da linguagem, da filosofia e dos objetivos do título, o que é raro em tempos de terabytes de informação passando à velocidade da luz pelos modems. Infelizmente, o mercado carece de ousadia e talento para manter essa perspectiva revigorada e com novas ideias. O Authority não luta para manter o status-quo – um tema frequente no título é “mudança”. Mas não é possível alimentar a mudança com tantas, e tão previsíveis, mega-sagas, mortes, ressurreições, cancelamentos, relançamentos, reboots… Ainda que isso fosse previsível, o Authority é o tipo de série fadada a ter vida curta. O que não deixa de ser condizente com o discurso de mudança. O que veio depois é que não foi muito animador.

Em novembro sai o filme deles, não?

E você? O que acha de Authority? Venha debater com a gente. O HQ Café está esperando você no Telegram.

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