E mais uma vez chegamos às vésperas de mais uma CCXP… em sua quarta edição, a Comic Con Experience se firmou como o maior evento da natureza no mundo, ao menos em número de frequentadores (196 mil visitantes em 2016, passando a San Diego Comic Con). É claro, boa parte desse público compra os salgados ingressos e madruga nas longas filas dentro e fora do São Paulo Expo pela oportunidade de ter um vislumbre de seu astro preferido de cinema ou TV, conferir as novidades nos vistosos estandes das produtoras, e eventualmente comprar algum toy art para o Natal.

Não somente isso, mas com o lamentável cancelamento do Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) esse ano, arrisco dizer que a CCXP tornou-se o principal evento da comunidade nacional de quadrinhos em 2017. E se isso é verdade, o epicentro desse fenômeno é o Artist´s Alley (AA), ala que reúne centenas de quadrinistas brasileiros e estrangeiros, ávidos por apresentar (e vender) seus trabalhos para os milhares de entusiastas e curiosos que lotam os corredores do pavilhão.

Yanick Paquette no AA da CCXP 2016

Felizmente, o Alley continua em mais uma edição no centro da convenção, ao lado de estandes concorridos como os da Netflix HBO. Se os artistas perdem sossego com a barulheira dos vizinhos, ganham por serem um dos principais corredores de passagem do evento. Apesar da ampliação do AA para 489 artistas (novamente, o maior alley que se tem notícia), as vagas (alugadas) das mesas foram bastante disputadas, mostrando que é um bom negócio estar por lá.
Mas o que se pode encontrar no Alley?
Bom, primeiro os artistas, é claro! A maior parte deles está disposta para bater-papo e autografar material que os fãs tragam consigo, e o visitante pode examinar as artes disponíveis à vontade, sem ter que se aventurar em filas homéricas das outras atrações da convenção (salvo no caso de algumas figuras mais badaladas). Muitos dos artistas independentes ajustam seus lançamentos (muitas vezes produzidos por financiamento coletivo) justamente para a CCXP, então você verá muito material inédito de qualidade, alguns que infelizmente não devem chegar às bancas.

Dentre os produtos que você pode adquirir estão, além de quadrinhos, prints (artes impressas, normalmente em formato A3 e A4), sketchbooks artbooks (coleções de artes conceituais) e páginas originais de publicações. Muitos ilustradores já fecharam suas listas de comissions personalizadas com semanas de antecedência, mas vale à pena perguntar se ainda tem alguma vaga, ou se eles se dispõem a fazer um sketch para você levar para casa. Uma boa pedida é comprar revistas mensais com capas brancas que a Panini produz exclusivamente para a CCXP e vende em seu estande, e levar para seu artista preferido dar uma pincelada (gratuitamente ou por um valor a combinar).

Alguns produtos que podem ser encontrados no Artist´s Alley

Felizmente, é muito fácil se perder no Alley com tantas mesas à disposição, basta bater o olho na extenso mapa disponível no site da organização. Vários sites tem produzidos guias para ajudar o visitante a encontrar aquele material ou artista mais interessante: o blog O Quadro e o Risco e o Universo HQ levantaram uma lista (não exaustiva) de quadrinhos brasileiros que serão lançados na CCXP (veja aqui e aqui), o Collant sem Decote destacou as artistas femininas (veja aqui), o Boca do Inferno obviamente se concentrou no material de Terror (veja aqui), e até mesmo o Omelete, um dos organizadores do evento, publicou uma lista de artistas “essenciais” (veja aqui).

Nós do HQCafé resolvemos dar o nosso pitaco pelo segundo ano consecutivo. Deixamos de lado os artistas mais badalados: figuras como Artur Adams ou Laerte e Lourenco Mutarelli dispensam indicações (apesar dos dois últimos serem figuras raras em eventos dessa natureza). Também resolvemos excluir os indicados por nós em 2016, mas a maioria estará no AA esse ano e certamente também valem a visita (veja eles aqui). Procuramos elaborar uma lista bastante eclética, tanto no estilo de cada artista, como seu enfoque na produção de material para grandes editoras ou trabalhos mais autorais. Quando possível, colocamos o link para o site do indicado!

E boa CCXP!

Felipe Massafera (G01-G02)

Uma boa pedida é começar pelo responsável pelo poster oficial da CCXP esse ano, que recria a clássica capa de Avengers #4. Apesar de jovem, o quadrinista paulista Felipe Massafera já participa há algum tempo do mercado americano, com trabalhos na DC Comics, Marvel, Dark Horse e Avatar Press. Felipe também o desenhista de Jambocks (Zarabata Books), graphic novel sobre a vida dos combatentes brasileiros na II Guerra Mundial. Felipe foi ganhador do 23º Troféu HQMix de Novo Talento: Desenhista. Inspirado em expoentes como Alex Ross e Simon Bisley, os trabalhos de Massafera são verdadeiras pinturas, muitas das quais devem estão disponíveis para venda em forma de prints em sua mesa (incluindo um do Game of Thrones que eu devo levar para casa!).

Gidalti Jr. (C39-40)

Se você não sabe, somente esse ano o Prêmio Jabuti, principal premiação de literatura brasileira, passou a ter uma categoria própria para histórias em quadrinhos. E, pasmem, você pode conhecer na CCXP seu primeiro ganhador! O professor de artes visuais Gidalti Oliveira Moura Júnior publicou em 2016 de forma independente (por meio de financiamento coletivo) a novela gráfica Castanha do Pará, uma comédia dramática que conta a história de um menino urubu que vive de forma indigente pelo tradicional mercado Ver-o-Peso, em Belém do Pará, cidade em que o autor cresceu. Inteiramente ilustrada em aquarela, é uma dessas pequenas jóias que deve ficar para a história do quadrinho nacional.

Hiro Kawahara (G03-G04)

Sabe aqueles desenhos super-divertidos que te distraem enquanto você e seus amigos comem um lanche do McDonalds? É sua oportunidade de conhecer seu criador, o Hiro! Além de contribuir há mais de dez anos com a rede de fast food e outras grandes empresas, Hiro também empresta sua arte para livros infantis e quadrinhos. O mais recentes deles o belíssimo O Bestiário Particular de Parzifal, lançado esse ano e viabilizado pela plataforma de financiamento coletivo do Catarse. Um ótimo presente de Natal para as crianças (e para você também!).

Leonardo Romero (A21)

Mais um dos jovens artistas agenciados pela Chiaroscuro Studios, uma das organizadoras da CCXP, Leonardo Romero é formado pelo Instituto dos Quadrinhos e teve a hercúlea tarefa de, juntamente com a roteirista Kelly Thompson, capitanear Hawkeye (Marvel), nova mensal da “Gaviã Arqueira” Kate Bishop, ainda inédita no Brasil. Trata-se de uma continuação “espiritual” da elogiada série de mesmo nome de Matt Fraction e David Aja. A O traço “limpo” e a narrativa dinâmica de Leonardo tem sido bastante elogiada por colegas e críticos americanos, o que já vale a visita.

Magenta King (E25)

Essa dica é especialmente voltada para os aficcionados em mangá. Tá certo que hoje em dia tem muita coisa boa sendo traduzida ou mesmo disponível online, mas que tal conhecer alguns ótimos artistas brasileiros mestres nesse estilo? Rodrigo Ciola Solsona, aka Magenta King, vem produzindo sozinho ou em conjunto com outros artistas ótimos mangás brasileiros, como 9 Horas e Necromorfus. Seus trabalhos vem carregado de elementos da cultura pop japonesa, tão comum aqui em São Paulo, com um traço agressivo e caricato à base de pinceladas de nanquim que lembram a tradicional caligrafia japonesa, o Shodo. Estará lançando na CCXP Black Emperors, sua mais nova revista, com roteiro de Danton Cara.

María Concepción Algorta – Maco (D14)

Normalmente quando se fala de convidados internacionais em um Artist´s Alley, a maioria dos fãs de quadrinhos acaba buscando figuras conhecidas de grandes editoras americanas. Mas de vez em quando vale à pena voltar os olhos para alguns artistas que fogem do radar do grande público. A ilustradora uruguaia Maco segue o caminho bem semelhante a outros artistas independentes no Brasil: começando com sua webcomic Freda, passou a participar de fanzines e publicações próprias como o livro Aloha. Uma boa pedida para quem quer conhecer um pouco do cenário de quadrinhos sul-americanos fora do Brasil.

Mary Cagnin (F17)

E falando em ilustradoras independentes, outra que vale a visita é Mary Cagnin. Formada em artes visuais pela Unesp, a quadrinista publicou a HQ Vidas Imperfeitas e ganhou o troféu Angelo Agostini 2017 de melhor desenhista pela ficção científica em quadrinhos Black Science. Esse ano, Mary traz para a CCXP um sensual artbook com temática romântica: Lovers. Pode ser um presente bastante sugestivo para seu interesse romântico nesse final de ano!

Pedro Mauro (B39-40)

O veterano Pedro Mauro trabalha com quadrinhos desde a década de 70, tendo se notabilizado no mercado europeu na editora italiana Sergio Bonelli Editore, que publica clássicos como Zagor, Tex Dylan Dog. Assim como muitos quadrinistas brasileiros, Mauro acabou dedicando parte de sua carreira como ilustrador no mercado publicitário, mas retorna emprestando sua arte clássica ao roteiro de Carlos Estefan (B37) para o quadrinho western Gatilhos, a ser lançada na CCXP e já bem comentada por quem teve a oportunidade de pegar o material nas mãos.

Raphael Salimena (B07)

Se tem algo que me diverte é ver aparecer em uma das redes sociais uma das irreverentes tiras de Raphael Salimena, autor das webtiras Linha do Trem. Aparentemente despretenciosas, elas volta e meia trazem uma crítica social e política bastante oportunas (e muito, muito engraçadas). Salimena já participou de diferentes coletâneas e antologias lançadas aqui no Brasil, incluindo revistas próprias como Vagabundos no Espaço. Mas se você der sorte, encontrará em sua mesa a coletânea de suas melhores webtiras, lançadas esse ano.

Wagner Willian (E30)

Outro quadrinista que vem flertando com grandes prêmios é Wagner Willian. Seu primeiro livro, Lobisomem sem Barba (Balão Editorial) ganhou o segundo lugar de Ilustração do Prêmio Jabuti em 2015. Esse ano, sua primeira graphic novel, Bulldogma (Veneta), foi um dos finalistas da primeira edição do Prêmio Jabuti para história em quadrinhos.

 

 

 

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