Michael Cane. Foto: Joe Pugliese (Hollywood Reporter)Michael Caine Explica
"Degustação" é a coluna do HQCafé em que um de nossos intrépidos colaboradores analisam o primeiro número de um gibi mensal (ou início de um arco) em publicação. A ideia é simular a velha ida à banca da esquina, folhear uma revista e decidir se quer ler mais. O material será escolhido de forma aleatória, por sugestões em sites ou por indicação dos nossos leitores. Ao final, o leitor dá seu veredito:

Para a Estante: fisgado! vai acompanhar a série regularmente
Segunda Chance: talvez depois de mais uma ou duas edições...
Para a Lixeira: é, não foi dessa vez. Vamos passar para o próximo.

Aviso: Essa degustação contém spoilers, divulgados na sinopse no site da DC Comics. 

Uma das minhas séries favoritas de todos os tempos é a saudosa Liga da Justiça Internacional, a “Liguinha do Giffen e DeMatteis“. Quando eu era criança, estava ali a chance de ver a maioria dos meus heróis preferidos juntos! Superman, Lanterna Verde, Flash, Mulher Maravilha, Gavião Negro, Eléktron, Zatanna, Arqueiro Verde…

Não, pera. O Lanterna Verde não era o que eu conhecia tão bem, mas um valentão chamado Guy Gardner. Não tinha Superman, nem Flash… Bom, tinha o Batman, Ajax (Caçador de Marte, atualmente), Canário Negro e Capitão Marvel (Shazam, atualmente). E, mais estranho ainda, personagens que eu não conhecia: Besouro Azul, Gladiador Dourado, Dra Luz e… Senhor Milagre.

A roupa espalhafatosa, o sidekick Oberon, sua origem ligada aos Novos Deuses e o Quarto Mundo de Jack Kirby, foram conceitos que absorvi rapidamente. Mas o que realmente me fisgou eram suas habilidades: um artista de fugas, talvez o maior desde Houdini, utilizando a tecnologia da Caixa Materna para desafiar a morte! O gibi era muito bom e a narrativa ajudava a contextualizar porque aqueles personagens estavam na Liga ao invés dos maiorais. Alguns anos mais tarde e ele ganhou título próprio, também por J.M DeMatteis e pude me aprofundar em sua origem e papel na guerra entre Apokolyps e Nova Gênese. Outras tentativas de trazer o herói de volta, como a mini Sete Soldados da Vitória, de Grant Morrison, não me ganharam.

Corta pra 2017. Tanto a DC quanto a Marvel enfrentam crises criativas, de vendas e de disputas editoriais. Uma série do Sr Milagre é anunciada, escrita por Tom King – que já vinha mostrando serviço em títulos como Batman e Vision. Admito que tinha boas expectativas para o gibi, mas nada me preparou para Mister Miracle #1 (escrito por King, com desenhos de Mitch Gerards, seu parceiro em THE SHERIFF OF BABYLON), um dos títulos que a DC lançou em comemoração aos 100 anos do nascimento de Jack Kirby.

E, honestamente, vai ser difícil qualquer outro título superar Mr Miracle esse ano.

Tudo, da página de abertura ao último quadro, choca de maneira que só lembro de ter visto antes em Homem-Animal, de Grant Morrison. A meta-linguagem, o cuidado na construção de uma história maior, multifacetada e tridimensional estão lá. O carisma de seu protagonista, mesmo nas piores situações, e dos coadjuvantes fazem o leitor se pegar torcendo para uma resolução misericordiosa e pacífica em meio ao caos que está a mente de Scott Free. O maior artista de fugas do universo tenta escapar da armadilha definitiva: a Morte. Mas será que ele conseguiu?

Será que é apenas da Morte que ele está fugindo?

Tudo, até aqui, leva a crer que o Sr Milagre está transitando entre realidades, Novos 52 e Rebirth, mas inconscientemente. O universo ao seu redor está errado, ele percebe isso mas é incapaz de compreender a extensão do problema. Darkseid é. O treinamento nas fossas de Apokolyps com a Vovó Bondade, a convocação de Órion e os detalhes sutis – a preocupação de Barda, a presença de Oberon, a entrevista no programa de Godfrey, os pôsteres de Jack Kirby…

Até aqui, sabemos tanto quanto Scott Free. Estamos tão perdidos quanto ele, num dos poucos gibis que nos deixam ansiosos pela próxima edição. Não saber o que está acontecendo e, ainda assim, querer ir mais fundo na toca do coelho, é um trunfo que há muito não é alcançado pela indústria e os super heróis de linha mainstream. Sr Milagre tem o mérito de estar perfeitamente inserido na bagunça cronológica do Universo DC, refletindo nossa incompreensão frente a tudo que está acontecendo e, ainda assim, na última página, temos uma luz no fim do túnel (ou tubo de explosão).

Se você é fã da DC Comics, de quadrinhos, de Jack Kirby ou apenas de uma boa história, não perca mais tempo. Esse é o gibi. Longa vida ao Sr Milagre!

VEREDITO: Para a estante!

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