Michael Cane. Foto: Joe Pugliese (Hollywood Reporter)Michael Caine Explica
"Degustação" é a coluna do HQCafé em que um de nossos intrépidos colaboradores analisam o primeiro número de um gibi mensal (ou início de um arco) em publicação. A ideia é simular a velha ida à banca da esquina, folhear uma revista e decidir se quer ler mais. O material será escolhido de forma aleatória, por sugestões em sites ou por indicação dos nossos leitores. Ao final, o leitor dá seu veredito:

Para a Estante: fisgado! vai acompanhar a série regularmente
Segunda Chance: talvez depois de mais uma ou duas edições...
Para a Lixeira: é, não foi dessa vez. Vamos passar para o próximo.

Aviso: Essa degustação contém spoilers presentes na sinopse da revista.

Eu me tornei A Morte, a Destruidora de Mundos.

Intensa, não? A citação de um antigo texto hindu se popularizou ao ser proferida pelo físico Robert Oppenheimer, um dos pais da bomba atômica americana, ao presenciar o poder de destruição da primeira explosão nuclear feita pelo homem, em 1945. Curiosamente, a frase me veio à cabeça quando resolvi degustar uma das novas revistas mensais da Marvel. Você consegue imaginar essa frase sendo dita por uma certa adolescente mutante ruiva… e ter certeza que é ela é absolutamente verdade?

A Jovem Destruidora de Mundos

Após o relativo sucesso de All-New X-Men (2012), em que Brian Bendis trouxe do passado a versão original (e jovem) da famosa equipe mutante para cronologia atual da Marvel, a Casa das Ideias resolveu dobrar a aposta e lançar um gibi solo de sua primeira mutante: Jean Grey. Apesar de já ser uma “senhora” de quase 50 anos e um dos sustentáculos da franquia X, foi com espanto que descobri que a Garota Marvel nunca teve uma série própria. Isso por si só já deve despertar a curiosidade de um fã dos X-Men para a Jean Grey #1.

É claro que se pode argumentar que a “Saga da Fênix Negra”, talvez a melhor história dos X-Men, é basicamente sobre Jean em luta pelo controle de sua identidade. Infelizmente, O peso do épico de Claremont & Byrne veio a marcar de forma indelével a personagem, cujo papel passou desde então a gravitar entre ser a hospedeira da terrível entidade cósmica e pivô do triângulo amoroso Wolverine e do banana do Ciclope (além de paixão platônica de alguns fãs dos X-Men da década de 80).

All-New All-Diferent Comedora de Lámen Jean Grey!

E a nova mensal não pretende inovar muito nesse ponto: já na (ótima) capa de David Yardin é estampado que a Força Fênix terá papel central nos primeiros arcos. Aqui, temos uma bem-intencionada, mas inexperiente Jean tentando romper o trágico ciclo de morrer imolada nas chamas da entidade cósmica, apenas para ressurgir das cinzas anos depois, como em suas versões anteriores. O tema da busca da identidade própria é um clichê bastante usado em histórias de protagonistas adolescentes (pode-se dizer que é o ponto central de ser um adolescente). Mas no caso de Jean Grey essa jornada ganha contornos quase metalinguísticos, já que é o próprio desafio do roteirista Dennis Hopeless de definir um novo papel para a tradicional personagem.

Felizmente, esse conflito é apresentado de forma ágil e bem-humorada. Há um excesso de caixas de pensamento, mas não chega a prejudicar a leitura. Dennis sabe que está escrevendo um gibi de super-herói de linha e já nos leva para a ação, num divertido (e quase cômico) confronto da jovem mutante com a Gangue da Demolição (sério, se você quer dar um desafio genérico para um herói, esses são seus caras). Essa leveza serve também para destacar o peso da verdadeira ameaça que se apresenta ao final da edição.

Nota: esses caras já derrotaram O THOR!

A identidade visual da nova Jean remete bastante à personagem original, mas com alguns símbolos visuais diversos que lhe dão uma cara própria, mais autônoma. Não estamos falando aqui da voluptuosa heroina da década desenhada por Jim Lee, mas sim de uma menina esguia, que talvez tenha mais apelo perante o público feminino jovem do que o leitor tradicional de quadrinhos (algo semelhante à nova Batgirl de Burnside). Victor Ibanáñez também tem um traço um pouco sujo, caricato, com uma boa composição de páginas e uma narrativa dinâmica, que combinam bem com a proposta do gibi.

Será que a equipe será bem-sucedida em seu desafio de criar uma “All-New All-Diferent” Jean Grey? Olha, estamos falando da Marvel, então arrisco dizer que não: grandes editoras tendem a chacoalhar seus produtos um pouco, apenas para devolve-los ao mesmo lugar algum tempo depois. Mas nem por isso não será uma tentativa divertida de se acompanhar. Não é uma revista com grandes pretensões, mas é uma boa adição se você quer acompanhar histórias leves, que apelem para o saudosismo de fãs mais tradicionais dos X-Men, mas com um visual mais jovem e moderno.

VEREDITO: Para a Estante

 

 

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