Michael Cane. Foto: Joe Pugliese (Hollywood Reporter)Michael Caine Explica
"Degustação" é a coluna do HQCafé em que um de nossos intrépidos colaboradores analisam o primeiro número de um gibi mensal (ou início de um arco) em publicação. A ideia é simular a velha ida à banca da esquina, folhear uma revista e decidir se quer ler mais. O material será escolhido de forma aleatória, por sugestões em sites ou por indicação dos nossos leitores. Ao final, o leitor dá seu veredito:

Para a Estante: fisgado! vai acompanhar a série regularmente
Segunda Chance: talvez depois de mais uma ou duas edições...
Para a Lixeira: é, não foi dessa vez. Vamos passar para o próximo.

Aviso: Essa degustação contém spoilers presentes na sinopse da revista.

Em um futuro pós-apocalíptico, uma implacável guerreira das estradas atravessa os desertos da antiga civilização humana enfrentando bárbaros motorizados, tentando sobreviver em um mundo em que pólvora e gasolina valem tanto quanto comida e água.

Mad Max – Estrada da Fúria? Não, estamos falando de Ian Livingstone´s Freeway Fighter, mais recente publicação em quadrinhos da editora inglesa Titan Comics.

Ah, ok. Então estamos falando de mais uma “cópia” que tenta surfar na onda de areia do aclamado filme de 2015? Bom, sim e não…

Acontece que Freeway Fighter é na verdade uma adaptação de um livro-jogo homônimo de 1985 da Fighting Fantasy, coleção co-criada por Ian Livingstone, empresário inglês do ramo de jogos de RPG e video-games. Para quem não conhece, os livros-jogos são uma modalidade de “RPG individual” em que os leitores escolhem o caminho que o protagonista deveria tomar na história, conduzindo-o através de sucessivas encruzilhadas (algo como “você encontrou com um monstro: você vai tentar enfrenta-lo [vá para a pg.01] ou fugir [vá para a pg.02]?”). Esses livros-jogos fizeram bastante sucesso no exterior nos anos 80 e também tiveram sua legião de fãs brasileiros nos anos 90: vários deles foram lançados aqui na série Aventuras Fantásticas (editora Marques Saraiva) e felizmente está sendo relançado aqui pela editora Jambô.

Freeway Fighter: o livro original, a adaptação em HQ, e a nova edição da Jambô.

Normalmente, eram aventuras de fantasia medieval bem tradicionais, bem na pegada de Senhor dos Anéis,  com o aventureiro desbravando masmorras perdidas, castelos amaldiçoados ou florestas misteriosas, em busca de tesouros e perigo Freeway Fighter foi um dos primeiros que apresentava um cenário mais alternativo, pós-apocalíptico, expressamente inspirado na película original de Mad Max de 1979. O interessante desse livro é que você tinha até as estatísticas do seu próprio carro, uma lata velha que tinha que ir sendo consertada ao longo do história. Como parte das comemorações de 35 anos da referida coleção, Ian Livingstone resolveu escolher justamente esse volume para ganhar as páginas do quadrinhos (tenho certeza que o sucesso do filme não teve nada a ver com isso…).

A Guerreira das Estradas

Em Freeway Fighter, nossa “Furiosa” é Bella de La Rosa, uma ex-piloto de corrida que sobreviveu a uma misteriosa doença que varreu quase toda a humanidade da face da Terra. La Rosa agora atravessa os desertos da Califórnia em sua máquina de guerra motorizada, sendo perseguida (e também arrebentando), guerrilheiros igualmente turbinados, em busca de raspar os últimos suprimentos que restaram da civilização para sobreviver mais um dia. E continuar na estrada.

A “Furiosa” de Freeway Fighter

O roteiro do inglês Andi Ewington é bastante enxuto. Aprendemos muito pouco sobre a protagonista, sabemos apenas que ela durona, mortífera e, provavelmente, bastante perturbada. Também não somos apresentados a nenhum antagonista, só adversários físicos, e é mencionado que o cenário caótico se passa apenas 18 meses após a pandemia (o que me parece curto para a situação apresentada na história). Há também menção de algumas comunidades remanescentes espalhadas pelo mundo, mas a construção do mundo e as consequências maiores da tragédia não parecem ser o foco da série. Na verdade a primeira edição é praticamente uma grande cena de ação em quadrinhos.

E isso é ruim? Felizmente, não. Geralmente prefiro histórias com mais conteúdo, mas nesse caso abro uma exceção. Não conheço outros trabalhos do autor, mas ele parece ter um bom domínio da narrativa e sabe o potencial da mídia em que trabalha. As cenas de perseguição e de duelo motorizado é eletrizante, com os destaques em locais e momentos certos. Os quadros se sucedem em um ritmo frenético, tornando a ação bastante fluída, especialmente com a leitura guiada de leitores digitais. Experimente colocar a trilha de Mad Max para tocar e folheie a edição: é quase como se estivéssemos vendo um bom curta-metragem da franquia em quadrinhos.

Talvez parte dessas qualidades se deva à arte de Simon Coleby. Como todo artista inglês que se preze, Simon é um antigo colaborador da revista 2000 AD, mas confesso que também não tive contato com trabalhos anteriores deles. A arte é um pouco suja, mas bem detalhada nos designs dos carros e materiais (destacando um revólver colado no carro silver tape, ou um remendo estranho em um outro veículo, por exemplo). Isso combina bem com o ambiente pós-apocalíptico que deve retratar. Seu traço me lembra um pouco o material mais recente do Mike Deodato, ainda que um pouco menos elaborado nas expressões faciais, o que me parece casar bem com histórias violentas e cheias de ação e destruição.

Freeway Rider é uma ótima leitura rápida como quadrinho único. Certamente seria uma ótima adição em uma antologia de quadrinhos, como Heavy Metal ou 2000 AD. Mas pelo menos sua primeira edição não me apresentou nada que garanta que poderia se sustentar como um gibi mensal de linha. E talvez essa nem seja a intenção de seus idealizadores, que podem ter se contentado em apenas produzir algum material promocional para seus outros produtos. Por outro lado, talvez na edição seguinte alguma história mais interessante apareça para me “fisgar” para além da qualidade da arte.

VEREDITO: Segunda Chance

 

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