Michael Cane. Foto: Joe Pugliese (Hollywood Reporter)Michael Caine Explica
"Degustação" é a coluna do HQCafé em que um de nossos intrépidos colaboradores analisam o primeiro número de um gibi mensal (ou início de um arco) em publicação. A ideia é simular a velha ida à banca da esquina, folhear uma revista e decidir se quer ler mais. O material será escolhido de forma aleatória, por sugestões em sites ou por indicação dos nossos leitores. Ao final, o leitor dá seu veredito:

Para a Estante: fisgado! vai acompanhar a série regularmente
Segunda Chance: talvez depois de mais uma ou duas edições...
Para a Lixeira: é, não foi dessa vez. Vamos passar para o próximo.

Antes de entrar no mérito se gostei da revista ou não, permitam-me uma pequena regressão aqui. Há exatos trinta anos, quando li pela primeira vez uma revista dos Comandos em Ação, então um menino de nove anos que não sabia nada da vida, tive até um certo baque. Isso porque o desenho já estava rolando no Brasil havia um tempo, e a diferença de tom entre as histórias em cada mídia era bastante evidente. O gibi era certamente mais sério e escuro.

Enquanto o desenho nos EUA havia sido uma consequência do sucesso mercadológico dos soldados de plástico, sendo o gibi anunciado de maneira bastante complementar, aqui o brinquedo dos “colecionadores de aventuras” veio primeiro pela Estrela em 1984, então a Rede Globo começou a passar o desenho do “grupo especial de combate” aos domingos em 1986.  A Sunbow produziu apenas duas temporadas da animação, além de dois especiais e um longa entre 1984 e 1987, mas elas foram lançadas localmente de maneira homeopática pela emissora até o fim dos anos 80, até passando pela Sessão Aventura, em dias de semana no fim da tarde, e no Xou da Xuxa pelas manhãs. Só depois que o brinquedo e o desenho faziam sucesso é que a Editora Globo resolveu publicar a revista, que durou menos de um ano por aqui.

É possível que o impacto maior do desenho tenha dado aos fãs brasileiros uma visão mais lúdica de quem eram o Cobra e o G.I. Joe. Embora os personagens estivessem ali bem definidos com suas histórias criadas por Larry Hama, estavam às voltas com divertidas tramas de armas malucas de destruição em massa e intrincados planos de dominação mundial, além dos indefectíveis sequestros de cientistas.

O Comandante Cobra que conhecemos e amamos. Talvez você não o tenha reconhecido porque ele está disfarçado.

Isso tudo cativou as crianças brasileiras, mas deve ter sido muito para o pessoal da DIC entender. Essa produtora, que sucedeu a Sunbow depois do naufrágio de G.I. Joe – the Movie, deixou a animação apenas boba, e o sucesso não foi o mesmo.

Por que eu estou me detendo tanto para explicar isso? Porque minha teoria é que, ao contrário do que acontece nos EUA, os fãs brasileiros de Comandos em Ação têm uma memória afetiva muito mais ligada à versão mais leve do desenho. Scarlett era o interesse amoroso do Duke e não do Snake Eyes (aliás, ela parece estar sempre namorando o boneco preferido do autor da obra da vez). O Comandante Cobra, ainda que ameaçador, era carismático e atrapalhado.

Veja bem, não que eu esteja falando mal da versão de Hama (que eu adoro, mas também quem não adora?), ou qualquer outra que tenha se seguido. É só que, embora o autor siga escrevendo A Real American Hero, deixando seus fãs contentes, aqueles que gostavam do desenho ficaram órfãos de uma versão mais light. Tanto os runs anteriores da IDW quanto de outras editoras, bons ou não, tendiam a ser puxados para o lado mais sério e militar da franquia. Até que surgiu esse cara:

Com vocês, o Aubrey

Aubrey Sitterson foi contratado para escrever G.I. Joe vs. Street Fighter (que eu só li um e não gostei, diga-se de passagem) porque, além de ser autor de quadrinhos, ele mantém um podcast de WWE e, portanto, manjava de lutas. Seu run viria depois de um pequeno jejum de G.I. Joe por parte da IDW, que não conseguia fazer a marca decolar depois de algumas fases muito boas seguidas por outras de mais do mesmo.

É evidente que  Hasbro está tentando conquistar um público mais jovem com suas marcas dos anos 80 depois do que conseguiram fazer com os filmes do Transformers, e isso fica bem evidente nos crossovers que promoveram na IDW com Revolution e o que pretendem fazer no cinema. Tá, mas se eu já disse que a saga Revolution foi uma merda e G.I. Joe vs. Street Fighter foi uma merda, por que diabos estou lendo esse run afinal de contas?

Bom, eu ia ler para ver qual é de qualquer jeito, porque sou fã de G.I. Joe. Não vou mentir, comecei a ler com o maior preconceito por causa do que tinha vindo antes, mas vi um certo potencial ali. Agora um já adulto que ainda não sabe nada da vida, a revista da IDW me impactou no sentido contrário do que a da Marvel havia feito anos antes.

Embora não seja tão escrachada quanto às vezes era a do desenho, a história tem um tom mais divertido do que eu estava acostumado (com ninjas-robôs de quatro braços, um Transformer ranzinza como membro do G.I. Joe e Crystal Ball como o vilão principal), e os personagens estão sempre travando diálogos cheios de brincadeiras uns com os outros, cada um com sua personalidade bem definida, e apesar disso me pareceu algo bastante familiar.

Não é por menos. Sujeito bastante empolgado e nada modesto, Sitterson se diz um grande fã do desenho da Sunbow e, em uma entrevista ao podcast What’s on Joe Mind, questionou a premissa que se tem hoje de que uma história tem que ser séria para ser inteligente. Ele diz que considera G.I. Joe como a “joia da coroa” do universo Hasbro, não só porque já foi feita muita coisa boa com eles, mas também porque entre todos esses personagens fantásticos espaciais que a gigante dos brinquedos tem, a equipe de ações especiais ousada e altamente treinada é a última linha de defesa da humanidade, provando que nós também podemos ser representados nessa batalha.

Está até na capa da revista agora.

Estou no número três da série e, até agora, Sitterson tem cumprido o que prometeu: uma história divertida, para ler relaxado. E com aqueles personagens que já conheço há trinta anos. E a razão pela qual esse texto ficou tão grande é que eu recomendo a leitura para aqueles que gostavam do desenho. É por isso que a série foi para minha estante.

VEREDITO: Para a Estante