Nota: essa resenha comenta informações da trama disponíveis no preview de sete páginas da revista, disponível aqui.

-” ´No final?´ Nada termina. Adrian. Nunca termina.”

É curioso como a reflexão premonitória de Dr.Manhattan ao final de Watchmen parece viajar pelo tempo e espaço e alcançar o leitor mais cético que tenha em suas mãos uma edição novinha de Doomsday Clock #1, de Geoff Johns Gary Frank.

Após décadas tentando convencer Moore a retomar à sua obra, a DC Comics finalmente decidiu em 2012 explorar novas possibilidades do cenário com a morna linha Before Watchmen, e agora com uma maxissérie em 12 edições que promete não só continuar a história original, como colocar seus personagens em rota de colisão com o universo principal da editora. Desde que foi anunciada há mais de um ano, Doomsday Clock (cujo nome deriva do símbolo do relógio alcançando a meia-noite, usado para marcar a chance de uma catástrofe global causada pelo homem) tem sido aguardada com ansiedade por muitos fãs de quadrinhos, e igualmente vista com descrédito por alguns.

Confesso que faço parte do segundo grupo. Minhas reticências só foram reforçadas com Rebirth Special #1 (tem uma resenha nossa aqui), em que Johns dá início à trama dando a entender que o onipotente Dr.Manhattan é o responsável pelo Novos 52 – com um subtexto de que a desconstrução do mito do super-herói feita por Moore em Watchmen seria “culpada” pela lambança editorial promovida pela editora. Não é um bom começo para quem quer usar a mesma obra como chamariz para promover seu novo trabalho e alavancar as vendas.

Feita essa ressalva, resolvi respirar fundo, relembrar o ensinamento do deus azulão pelado e mergulhar de cabeça novamente no mundo sujo e fétido de Watchmen…

Imagine a chamada do Plantão da Globo tocando…

É 22 de Novembro…

…a mesma data do assassinato do Presidente Kennedy pelo Comediante, da criação do Dr.Manhattan e do lançamento do novo gibi. Mas estamos em 1992. Logo nas primeiras páginas descobrimos que o “Grande Plano” para a Paz Mundial arquitetado por décadas por Adrian Veidt foi por água abaixo em menos de sete anos. Isso se deu possivelmente porque alguém do “The New Frontiersman” conseguiu traduzir a péssima letra do diário de Rorschach e revelar ao público toda a trama macabra descrita em Watchmen. Ozmandias não precisou esperar o julgamento da história: ele já é o homem mais procurado (e odiado) do mundo.

Embora nominalmente uma saga sobre o Superman, a primeira edição se passa quase toda na “Terra-Watchmen” (ela já tem número? Terra-22?). Nosso guia é novamente Rorschach (só que mais dislexo), mas se estamos falando de Walter Kovacs ou de alguém novo sob a máscara, fica por conta do leitor descobrir. É por meio deles que descobrimos que o mundo está a poucas horas de uma guerra nuclear entre os EUA e a URSS, e que aqueles que não estão fugindo para abrigos estão tomando as ruas em turbas enfurecidas. Cabe ao vigilante mascarado (e alguns surpreendentes aliados) a tarefa de parar o relógio do julgamento final.

Guess who´s back, back again…

É possível notar o esforço de Johns em “simular” ao máximo o roteiro original. Nas páginas divididas em grades de nove painéis espalha-se a iconografia de Watchmen, enquanto os personagens passeiam por vários cenários presentes da minissérie original. Johns também atualiza a crítica política de Moore, com o presidente dos EUA jogando golfe enquanto o mundo vai para o buraco. Ele até mesmo acrescenta uns recortes de jornal ao final da edição, como forma de contextualizar e divertir o leitor.

Os novos personagens introduzidos na aventura também tem uma origem semelhante aos heróis de Watchmen (como versões sombrias de antigos personagens da Charlton Comics), e até são bem interessantes e engraçados, mas seriam mais inovadores se não tivéssemos visto algo parecido em outra revista da editora ainda esse ano. A caracterização dos personagens já estabelecidos também se aproxima da série original, mas parece faltar algumas das sutilezas do texto de Moore, algo que também não é o forte de Johns como escritor.

A despeito desses aspectos, a julgar pela primeira edição a trama de Doomsday Clock será bem mais direta e simples, sem grandes mistérios ou conspirações. Nada de “quem matou o Comediante?” ou “quem está raptando os maiores artistas da Terra?”. Os saudosistas se sentirão como crianças visitando novamente um de seus parques de diversão favoritos, mas imagino que sem maiores surpresas entre um brinquedo e outro. É mais ou menos como se você tivesse lendo uma fanfic bacana que aquele seu amigo te mandou.

A diferença é que essa fanfic é ilustrada por um dos melhores desenhistas da atualidade.

Gary Frank: o mestre das caretas!

A escolha de Gary Frank não podia ser mais acertada. Se lhe falta um pouco da sobriedade crua do traço de Dave Gibbons, Frank compensa com sua arte pesada ao clima caótico, sombrio e intenso do universo de Watchmen, igualmente distante do mundo colorido e otimista dos super-heróis. A única cena de ação da primeira edição é fluída e carregada de violência, enquanto os muitos diálogos e cenas de exposição são complementados pelas expressões carregadas de dúvida, fúria e dor dos personagens.

Se quadrinhos é o casamento entre roteiro e ilustração em forma de arte sequencial, o que falta no roteiro do Johns nesse projeto deve ser bastante compensadas pela habilidade de Frank, cuja arte é bem fiel à proposta de Doomsday Clock.

No final do dia, Doomsday Clock #1 é um gibi interessante, com uma ótima arte e um roteiro bom, mas que infelizmente indica uma trama que poderia ser resolvida facilmente em poucas edições, ao invés de um longo ano de mensais, além dos possíveis tie-ins que não acrescentarão muito à história. É claro que a nova saga da DC ainda irá sofrer com as inevitáveis comparações com a minissérie original que se esforça tanto em emular.

Mas quadrinhos como Watchmen aparecem (felizmente ou não) uma ou duas vezes a cada geração, enquanto Doomsday Clock é apenas um dos muitos truques (nem o mais inovador) que a DC tem tirado de seu cinto de utilidades para tentar aumentar as vendas da editora e salvar o mercado de quadrinhos de um profetizado apocalipse que se avizinha…

Terá Doomsday Clock sucesso em sua empreitada? Provavelmente sim, a julgar pelo furor da comunidade de quadrinhos, bem como as filas quilométricas que se formaram nas mais de mil comic shops que abriram pouco antes da meia noite para o lançamento do gibi, com leitores ávidos para ter em mãos o primeiro número da série. Não duvido que a revista se esgote rapidamente (a DC inclusive já encomendou uma segunda tiragem), e que as edições seguintes figurem na lista dos mais vendidos ao longo do ano. E, convenhamos, Johns é um mestre em entregar o que os fãs querem (especialmente espalhado em looooongas séries…).

Pessoalmente, resolvi deixar de pra lá meu lado nerd ranzinza e ler a próxima edição, antes de decidir acompanhar ou não as desventuras do velho (novo) Rorschach até o final.

VEREDITO: Segunda Chance

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