Michael Cane. Foto: Joe Pugliese (Hollywood Reporter)Michael Caine Explica
"Degustação" é a coluna do HQCafé em que um de nossos intrépidos colaboradores analisam o primeiro número de um gibi mensal (ou início de um arco) em publicação. A ideia é simular a velha ida à banca da esquina, folhear uma revista e decidir se quer ler mais. O material será escolhido de forma aleatória, por sugestões em sites ou por indicação dos nossos leitores. Ao final, o leitor dá seu veredito:

Para a Estante: fisgado! vai acompanhar a série regularmente
Segunda Chance: talvez depois de mais uma ou duas edições...
Para a Lixeira: é, não foi dessa vez. Vamos passar para o próximo.

Aviso: Essa degustação contém spoilers presentes na sinopse da revista.

Uma das vantagens de escrever na seção “Degustação” é passar a ler periodicamente primeiras edições com um olhar mais clínico, o que possibilita notar certos padrões. A despeito da aparente crise, o mercado de quadrinhos norte-americanos é bastante ativo, com dezenas de novas séries pipocando toda semana. É como estar num grande mercado de pulgas, com vendedores ávidos se acotovelando para te oferecer o melhor produto. Com um agravante, é claro: o negócio de verdade não é fechado quando o cliente (você, leitor) compra a primeira edição, mas sim ao resolver voltar para os números seguintes… e não se enganem, é muito comum os números de venda despencarem a cada nova edição.

Obviamente, o mercado usa todo tipo de artifício para “fisgar” o leitor para sua nova série: para além de uma capa chamativa, preferencialmente recheada do sobrenome de artistas paralelas, as primeiras edições hoje em dia contam com cenas de ação eletrizantes e acontecimentos marcantes. A morte de algum personagem secundário querido é uma escolha popular, ainda mais nas mãos de um novo vilão que os leitores vão odiar/adorar conhecer. É comum que a trama seja complexa e venha recheada de mistérios, sugerindo ser ela apenas início de um grande épico que vai se alongar por muitas edições. Se a última página fechar com um cliffhanger chocante e confuso, melhor ainda.

Em certo sentido, Captain America #695 evita esses truques ao apresentar um recomeço para o Sentinela da Liberdade. E há bons motivos para isso.

Adivinha quem está de volta?

A Terra dos Valentes

Tem sido um biênio difícil para o Capitão América: após comprar briga com seus fãs ao substituir Steve Rogers por Sam Wilson, o Falcão, e colocar o bandeiroso como o antagonista principal de Secret Empire, a Casa das Ideias resolveu trazer o personagem de volta a suas origens como parte de sua iniciativa Legacy. Na mãos de um escritor menos habilidoso, a ideia soaria como uma tentativa desesperada de agradar seu fã-clube e alavancar as vendas (o que não deixa de ser verdade).

Felizmente estamos falando de Mark Waid, um roteirista com experiência em captar de forma crível a atmosfera “clássica” dos quadrinhos (como em Reino do Amanhã), bem como em realizar soft reboots de personagens sob seus cuidados. Demolidor é apenas o mais recente deles, e não estranhamente também em parceria com Chris Samnee, cujo traço limpo e cartunesco não só brinda o leitor com cenas de ação dinâmicas, mas transmite o espírito heroico pretendido para a série.

Falando em espírito, Captain America #695 é antes de tudo uma carta de intenções de Waid acerca de seu plano para o run do Capitão: começando em uma pequena cidade no Nebraska, Steve Rogers parte para uma jornada de aventuras em sua motocicleta pelo coração da América, tanto se reconectando com seu povo quanto inspirando aqueles ao seu redor com uma mensagem simples, que reflete o motivo de Jack Kirby ter escolhido um escudo e não uma espada para seu patriótico herói…

“O forte protege o fraco“. Parece simples, não? Bom, em nossas conversas na redação (haha) do HQCafé, comentamos o quão cínica pode ser essa mensagem, vinda do símbolo dos EUA. Afinal, estamos falando do país que criou a maior máquina de guerra da história da humanidade, que elegeu Donald Trump como seu líder, terra dos tiroteios em massa e dos negacionistas das mudanças climáticas. Quem acompanha Waid sabe que ele é um progressista ferrenho e bastante vocal em suas opiniões políticas, principalmente contra o atual governo. Em uma carta no final da edição, ele mesmo pondera os riscos de usar a filosofia dos super-heróis (arrebente a cara de quem está errado!) no confuso e complexo mundo real.

Mas a proposta de Waid é de tentar resgatar as raízes do Capitão, e o que ele representa no ideário do país, tanto que a série deve publicar mensagens de leitores com a hashtag #caplegacy ao final de suas edições. Trata-se de uma jornada de autoconhecimento não só para Steve, mas para que seus fãs redescubram o personagem. Esqueça a exposição das entranhas mais profundas da América: nem mesmo o impacto do sósia nazista de Secret Empire na vida de Rogers deve ser tratado em detalhes.

Tendo sido o grande pivô dessa polêmica mega-saga, talvez faça bem ao Capitão (e seus leitores) um período sabático sem estar envolvido em mistérios sombrios que se estendem por diversas revistas. Somente os mocinhos tentando fazer o que podem para proteger os demais, seja um supersoldado da II Guerra socando nazistas armados até os dentes, ou uma menina protegendo seu colega do tiroteio.

Portanto, se você está interessado em tramas simples de seu herói preferido mensalmente fazendo boas ações e derrotando vilões em cenas coloridas, dinâmicas e eletrizantes, essa é a melhor escolha que você encontrará.

VEREDITO: Para a Estante.

 

 

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