Michael Cane. Foto: Joe Pugliese (Hollywood Reporter)Michael Caine Explica
"Degustação" é a coluna do HQCafé em que um de nossos intrépidos colaboradores analisam o primeiro número de um gibi mensal (ou início de um arco) em publicação. A ideia é simular a velha ida à banca da esquina, folhear uma revista e decidir se quer ler mais. O material será escolhido de forma aleatória, por sugestões em sites ou por indicação dos nossos leitores. Ao final, o leitor dá seu veredito:

Para a Estante: fisgado! vai acompanhar a série regularmente
Segunda Chance: talvez depois de mais uma ou duas edições...
Para a Lixeira: é, não foi dessa vez. Vamos passar para o próximo.

Aviso: Essa degustação contém spoilers presentes na sinopse da revista.

Que tal começar a semana com uma Degustação fresquinha? Dessa vez vamos deixar um pouco de lado as editoras mais alternativas e vamos folhear um gibi leve, mas que traz supreendente retorno de um personagem bastante querido pelos fãs do Universo da DC Comics: Bug – The Adventures of  Forager!

Péra, quem?

Ok, essa é uma pergunta difícil mesmo para um fã hardcore de quadrinhos. O Forrageador é um personagem criado pelo lendário Jack Kirby como parte do elenco de apoio dos Novos Deuses, tendo estreado em New Gods #9 (1972). Até onde eu sei (e não li muito), ele faz parte de uma raça de “micro-vidas” que surgiu em decorrência da guerra entre Apokolips e Nova Gênese. O Forrageador é mandado para buscar ajuda dos Novos Deuses para salvar seu povo e, é claro, aprontar muitas confusões.

A primeira aparição, a morte e o “renascimento”

Com poderes semelhantes a um Homem-Aranha genérico e um escudo (não um fodão que nem o do Capitão América, um normal mesmo), o Forrageador sempre ficou meio que em segundo plano no meio do elenco do Quarto Mundo, servindo mais para lembrar a soberba de Órion e os demais deuses, que por vezes o tratavam como um ser inferior por sua origem. Para a maioria dos leitores, ele é mais lembrado por sua participação na fantástica Odisseia Cósmica (1988), em que ele trabalha ao lado do Batman, e acaba se sacrificando para salvar o Multiverso (ser parceiro do Batman deve ser uma das profissões mais mortais da história).

A despeito de seu final heroico, o Forrageador poderia facilmente ter entrado para a longa lista de campões que deram sua vida para impedir a ameaça da semana, uma nota de rodapé na Grande História do Universo DC.

Alguns diriam que pouco mais que um inseto.

O Fantástico Forrageador está de volta!

Saindo do Casulo

Bom, isso se ele não fosse resgatado para se tornar estrela de um novo título da Young Animal, selo “ultra-jovem” e alternativo de curadoria do escritor e músico Gerard Way. Ao contrário de outras degustações, dessa vez mergulhei de cabeça conhecendo bem a equipe – no caso uma família – criativa: o desenhista Mike Allred (criador de Madman), seu irmão Lee Allred (escritor de Batman ´66) e sua esposa Laura Allred (colorista de boa parte do trabalho do marido). Individualmente ou em grupo, os artistas tem produzidos alguns dos materiais mais inovadores e divertidos do mercado, alguns deles honrados com premiações internacionais.

Esse também o caso de Bug. Fiquei surpreso que a edição abre como uma continuação direta de Odisseia Cósmica, com nosso herói despertando de sua morte em um porão genérico qualquer em que foi deixado pela editora por todos esses anos (literalmente). Já nas primeiras páginas dá para perceber que ao menos no arco inicial a história girará em torno do Forrageador “saltando” de aventura em aventura em uma jornada existencialista sobre o lugar de um figurante num mundo de super-heróis.

Uma das vantagens de HQs de personagens obscuros é que normalmente os roteiristas tem ampla liberdade para brincar com sua criação, e certamente a equipe de Bug tira bastante proveito disso: entre ursinhos de pelúcia que discutem Camus e circuitos de ultrasofisticados de computador feitos com peças de dominó, a revista apresenta uma aventura onírica sobre livre-arbítrio. Apesar de soar as vezes pedante, os diálogos e elementos da trama são apresentados de forma ágil e divertida, bem distante de hermetismo à la Morrison, e combina bastante com o conceito anterior do personagem.

O Forrageador discutindo Camus e livre-arbítrio com um ursinho de pelúcia.

Por outro lado, a temática da revista casa muito bem com toda a mitologia dos Novos Deuses: basta lembrar que a Equação Anti-Vida, o grande objetivo de Darkseid, pode ser interpretada justamente como a ausência de livre-arbítrio. Durante a história também são apresentados inúmeros elementos da mitologia do Quarto Mundo e de outros recantos obscuros da DC, o que deve agradar bastante os fãs mais antigos (e um pouco órfãos desse tipo de material).

A arte indie do Mike e Laura é bem semelhante a materiais anteriores do casal, como em Madman e os últimos volumes de Quarteto Fantástico Surfista Prateado: personagens bem cartunescos passeando por cenários improváveis, com o cores bem chapadas. Assim como no roteiro, há um certo excesso na repetição de situações e tipos de personagens já utilizados em outros trabalhos da equipe, o que pode dar aquela sensação para o leitor veterano de que ele já viu algo parecido antes.

Felizmente, esses problemas são facilmente superáveis para quem quiser uma leitura divertida, mas que ao mesmo tempo abrace com carinho (ainda que com uma nova roupagem) todo o importante material produzido pelo Rei justamente em seu centenário. Como disse em uma resenha anterior, infelizmente a Young Animal ainda não se mostrou um selo capaz de “revolucionar” o mundo dos quadrinhos, mas ao menos tem servido para apresentar ao leitor da DC as últimas tendências da 9ª nona arte, ao mesmo tempo revisitando conceitos interessantes e promissores da editora.

VEREDITO: Para a Estante.

 

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