Quando se é criança, é muito fácil gostar de personagens como o Flash e o Lanterna Verde. A combinação de cores marcantes e poderes legais prende a imaginação de jovens leitores e todas as versões dos personagens (cinema, TV, animações) acabam sendo facilmente reconhecidas por causa de suas características mais marcantes. O Flash é rápido – muito rápido. E o Lanterna Verde pode fazer praticamente qualquer coisa virar real com seu anel.

Exceto esse filme receber bons reviews.

Exceto esse filme receber bons reviews.

Minha filha tem cinco anos e adora super-heróis. Esses dois a cativaram muito cedo. Eu mesmo, na idade dela, lembro (ainda que vagamente) de ter um gibi com histórias desses dois personagens. A história do Flash mostrava a esteira que ele usava pra viajar no tempo e, a do Lanterna, uma batalha contra criaturas amarelas. Simples, simplórias, mas bem condizentes com o que eu já tinha visto dos personagens na série de desenhos dos Superamigos.

Tempos estranhos aqueles.

Tempos estranhos aqueles.

As histórias, como vim a descobrir apenas bem mais tarde, eram desenhadas por um cavalheiro chamado, curiosamente, Carmine Infantino.

Cet homme, cet enfant

Cet homme, cet enfant

Carmine Michael Infantino nasceu em 24 de maio de 1945 em Nova York, filho de uma imigrante italiana e de um músico de jazz (que precisou virar encanador por causa da Grande Depressão). Aos 18 anos, já desenhava Tocha Humana e Anjo para a Timely Comics (o embrião do que viria a ser a Marvel) e, pouco mais tarde, uma história de seis páginas para a DC Comics que introduzia a personagem Canário Negro.

Tem algo errado.

Tem algo errado.

Foi com a DC Comics que sua carreira ficou associada, desenhando Sociedade da Justiça, Lanterna Verde e Flash.

Em 1956, o lendário editor Julius Schwartz designou o roteirista Robert Kanigher para trabalhar com o artista em uma nova versão do Flash. Infantino criou o clássico uniforme vermelho com detalhes amarelos, tentando manter o design tão simples quanto possível, e uma linguagem visual inovadora para retratar a velocidade do Flash, com linhas de movimento horizontais e verticais, borrões e sequências dentro do quadro. O sucesso foi tão grande que despertou novamente o interesse por super-heróis, dando origem ao que chamamos hoje de Era de Prata dos Quadrinhos.

A Mulher Gato roubou um colar pensando que era de ouro mas... ERA DE PRATA.

A Mulher Gato roubou um colar pensando que era de ouro mas… ERA DE PRATA.

Infantino desenhou também “Flash de dois mundos”, colocando frente a frente as versões da Era de Ouro e Era de Prata do personagem, um evento que daria origem a todo o multiverso de heróis da DC e que deixaria de existir depois de Crise nas Infinitas Terras. Também desenhou Adam Strange, ajudou o Batman a voltar às suas origens e criou o visual de Homem Elástico, Arrasa-Quarteirão e da nova Batgirl: Bárbara Gordon.

Vilões especialmente convidados: Adam West e Burt Ward!

Vilões especialmente convidados: Adam West e Burt Ward!

No final dos anos 60, já muito prestigiado, recebeu uma proposta de Stan Lee para se mudar para a concorrente Marvel Comics. Sem poder cobrir a proposta, a DC lhe ofereceu o cargo de diretor de arte, convencendo Infantino a ficar. Ele foi o responsável pelas contratações de talentos como Dick Giordano, Neal Adams, Denny O’Neil e pelas reformulações de Mulher Maravilha, Lanterna Verde, Arqueiro Verde e Superman.

Ele ainda trabalharia para a Marvel em títulos como Star Wars, Mulher-Aranha e Nova, além do crossover entre Superman e Homem-Aranha.

O Batman cósmico da Marvel

O Batman cósmico da Marvel

Infantino faleceu no dia 4 de abril de 2013, aos 87 anos, em sua casa em Manhattan. Seu legado, no entanto, continua até hoje, seja com os personagens que co-criou aparecendo nas mais diversas mídias, seja pelo seu estilo dinâmico e elegante. É o clássico desenhista que poderia se encaixar em qualquer título, dar profundidade a qualquer personagem e desenvolver os mais variados conceitos, incluindo-se aí terror, ficção científica, western e romance. Mais do que isso, é o tipo de desenhista que faz você reconhecer e identificar os personagens, lhes dá vida e faz com que nos importemos com aqueles heróis de papel. Como ele conseguia isso, comparado aos desenhistas estilosos e bem-sucedidos de hoje, é difícil dizer. Seu estilo já foi descrito como avant-garde, combinando quadrinhos e modernismo. Um dos maiores de todos os tempos, os personagens nas capas que desenhava pareciam saltar diretamente na direção do leitor, o convidando para uma nova aventura. Poucos foram tão bem sucedidos. Talvez fosse seu amor pelos personagens, em especial pelo Flash, que desenhou por 130 edições em dois períodos diferentes.

Como sempre, aprontando na linha do tempo alheia

Como sempre, aprontando na linha do tempo alheia

E crianças não se enganam. Elas sabem quando algo é feito com amor porque fala diretamente com elas, e elas jamais esquecem. Como eu não esqueci a esteira do Flash e minha filha, com certeza, não vai esquecer o uniforme vermelho com detalhes amarelos passando rapidamente por quadrinhos, seriados, desenhos animados, vídeo-games e filmes.

Talvez não esse filme.

Talvez não esse filme.

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