Editor e roteirista da Editora Draco, Raphael Fernandes é um dos mais ativos (e subversivos) quadrinistas brasileiros da atualidade. Ex-editor da Revista Mad no Brasil, seus diversos projetos tem um viés underground e transitam entre temáticas sociais, o terror e o bizarro, procurando ao mesmo tempo divertir e incomodar. As iniciativas que fez parte nos quadrinhos já foram reconhecidas com seis troféus HQMix, incluindo o de “Novo Talento – Roteirista” em 2013.

Nesse cafezinho, conversamos com Raphael sobre O Despertar de Cthulhu em Quadrinhos, antologia em quadrinhos baseada nos “Mitos de Cthulhu” e a segunda parte de uma “Trilogia de Cores” do terror, iniciada com O Rei Amarelo em Quadrinhos. A coletânea será lançada na 24ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, mas já está disponível para pré-venda no site da editora. Comentamos ainda um pouco sobre o trabalho de editor de HQs no Brasil, o cenário do quadrinho nacional e tentáculos em lugares estranhos!

Arte da capa de "O Rei Amarelo em Quadrinhos" de João Pirolla

Arte da capa de “O Rei Amarelo em Quadrinhos” de João Pirolla

HQCafé – O Rei Amarelo em Quadrinhos teve uma ótima recepção tanto de público quanto de crítica, tendo ganhado o Troféu HQMix 2015 de “Melhor Publicação Mix” (e indicações em outras duas categorias). Como surgiu a ideia de fazer uma antologia baseada no livro de Robert W. Chambers, tendo a cor amarela como elemento narrativo e ligação entre os contos?

Raphael – Tudo começou com True Detective! Vi a série e fiquei obcecado com o tal Rei Amarelo e decidi ler tudo o que encontrasse sobre ele. Foi assim que descobri a obra de Robert W. Chambers e vi que tinha fortes ligações com Ambroise Bierce e H. P. Lovecraft, dois autores que gosto muito. Imprimir um livro nas quatro cores é bem mais caro do que em preto e branco, como eu queria produzir a obra, mas sem que o custo fosse muito pesado para o leitor, orcei o duotone* e realmente ficava mais acessível. Daí para perceber que as histórias poderiam se apropriar disso, foi questão de pautar bem os autores. A principal ligação entre os contos é a loucura destrutiva e perversa, principalmente a gerada pelo acesso ao conteúdo proibido. Como se a peça de teatro fictícia que dá nome a obra fosse um fruto proibido da árvore do conhecimento, mas que o saber em questão destruísse a sanidade de quem o provasse. Saber é enlouquecer.

Nota – Duotone: método de reprodução de uma imagem por meio da sobreposição de duas cores contrastantes, normalmente sendo uma delas o preto.

Rei Amarelo Salimena

Trecho de um dos contos de “O Rei Amarelo”, por Raphael Salimena

HQCafé – O formato imaginado para O Rei Amarelo sempre foi o de uma antologia, ou se cogitou uma adaptação mais literal da obra original?

Raphael – A Editora Draco produz apenas histórias originais feitas especialmente para os nossos leitores. Queremos proporcionar a experiência única de ter um mundo criado para surpreender os fãs do gênero. Nunca houve um interesse pela adaptação do livro do Chambers, pois seus contos não trazem o desespero e loucura sem limites que o horror contemporâneo alcançou com Clive Barker, Stephen King, Takashi Miike, Junji Ito e outros mestres do macabro. Essa foi a alquimia do livro: resgatar a mitologia do horror cósmico, do livro enlouquecedor e de uma criatura indescritível, mas com uma abordagem exclusiva e realmente assustadora.

HQCafé – O Despertar de Cthulhu em Quadrinhos pode ser considerada uma continuação “espiritual” do O Rei Amarelo? A escolha por abordar os “Mitos de Cthulhu” foi natural ou rolou uma discussão sobre outras opções menos óbvias?

Raphael – Na verdade, O Despertar de Cthulhu em Quadrinhos é o segundo volume de uma trilogia de horror cósmico duotone iniciada por O Rei Amarelo em Quadrinhos. Apesar de não ter sido concebida como uma série, o livro fez tanto sucesso e gerou tantas ideias na nossa equipe que o desdobramento foi natural. Faz tempo que gostaríamos de trabalhar com o universo criado pelo Lovecraft e uma coisa puxou a outra. Como Chambers foi uma grande influência para os Mythos, a sequência não foi óbvia, mas necessária. Haverá um terceiro livro e tudo o que posso dizer é que vamos mostrar a corrupção da alma humana em preto, branco e vermelho.

HQCafé – O Despertar de Cthulh

Arte da capa de "O Despertar de Cthulhu em Quadrinhos" de João Pirolla

Arte da capa de “O Despertar de Cthulhu em Quadrinhos” de João Pirolla

u segue o mesmo formato? Uma antologia de oito contos de 20 páginas cada, em duotone, dessa vez com o verde como cor destacada? Reunindo quadrinistas veteranos e estreantes?

Raphael – Por ser uma série, optamos por respeitar a mesma estrutura, acabamento e identidade visual. A ideia do livro é fazer uma seleção combinando autores da casa e novos colaboradores, buscando sempre um conjunto de histórias que tenha unidade e ao mesmo tempo mostrem aspectos diferentes de um mesmo tema.

HQCafé – O Rei Amarelo se destacou pelo projeto editorial inovador e pelo lançamento logo após a primeira temporada de True Detective. Como alcançar o mesmo sucesso agora com O Despertar de Cthulhu?

Raphael – Apesar do sucesso de True Detective ter levantado a moral de O Rei Amarelo, Lovecraft e Cthulhu são muito maiores como fenômeno na cultura pop. Por outro lado, muitos dos leitores do primeiro livro pediram por uma continuação e realmente ficaram empolgados com a possibilidade de uma coleção. Com séries como Stranger Things, livros de RPG e jogos de tabuleiro, o Cthulhu é certamente um dos personagens mais famosos de toda literatura de horror. Até mesmo foi tema de um episódio de South Park! E, se depender dos resultados das pré-vendas e do buzz gerado pelos leitores, a segunda coletânea tem tudo para ser um sucesso ainda maior que a primeira.

HQCafé – Como você bem lembrou, os “Mitos de Cthulhu” já foram largamente trabalhados na cultura pop, em diferentes mídias e gêneros, desde o cyberpunk até a comédia. É possível trazer uma abordagem inédita ou atraente em um material tão explorado?

Raphael – Estamos trabalhando para que nossos projetos sejam feitos todos dentro de um espírito Draco de contar histórias, que isso acabe se tornando uma marca da editora. Nessa série de horror cósmico duotone, existe sempre um elemento que está presente em todas as histórias, mas sem forçar. Ele surge naturalmente e passa a chamar a atenção da gente no processo de produção. Por exemplo, a forte presença de líquidos que não devem ser bebidos é algo marcante nas histórias e que surgiu naturalmente. Acho esses detalhes saborosos e a sincronicidade é prova total de que o projeto já nasceu para enlouquecer nossos leitores.

HQCafé – A antologia terá como foco o gênero do horror, certo? Quais são os traços distintivos do horror lovercraftiano?

Raphael – Lovecraft era uma figura bastante atormentada e durante toda sua obra podemos perceber que ele tinha medo de tudo. Ele via o mal em seu máximo potencial em diversos aspectos da natureza humana. Ele também gosta de amplificar o nosso medo do desconhecido criando seres que nossa mente não é capaz de processar. Só de olhar ou ter contato com eles, nós quebramos. A fina camada entre a sanidade e a completa loucura é rompida de maneira brutal. Outro aspecto marcante é o narrador, que decidimos não seguir a risca para não limitar as possibilidades narrativas de um quadrinhos.

Apesar disso tudo, o livro não é apenas de horror inspirado no Lovecraft. O principal critério de seleção é que as histórias trouxessem o frescor de mentes diabólicas contemporâneas, como os já citados Barker e King, mas também para a insanidade de nomes como David Cronember, Ruggero Deodato, Dário Argento, Zé do Caixão e muitos outros.

HQCafé – A arte da capa de João Pirolla remete a um tema sexual, com tentáculos saindo das genitálias das figuras. Essa temática não estava presente na obra original de Lovercraft, que parecia ser bastante reprimido. Por que a opção por essa abordagem?

Raphael – Na verdade, apesar de pautarmos o que gostaríamos para a capa, demos liberdade total para que João Pirolla criasse a cena. Ele é um artista fenomenal e trazer esse aspecto sexual para esse universo é o tipo de rompimento que gostaríamos de ver no álbum. De uma maneira banal, tentáculos remetem aos hentai mais curiosos e o tema da sexualidade reprimida sempre esconde uma potencial sexualidade pervertida. Nas histórias, essa repressão e o desespero gerado por ela estão presentes.

No entanto, um olhar mais atento vai encontrar ainda mais referências sexuais na figura do Cthulhu, que possui asas feitas de tentáculos e uma presença extremamente perturbadora. Quando você tem alguém louco e incrível como o Pirolla, tem mais é que deixar ele colocar os demônios para fora.

HQCafé – Além dos contos originais, você sugeriu ou utilizou outros materiais derivados como referência para O Despertar?

Raphael – Do ponto de vista editorial, sou um leitor antigo do Lovecraft e sua turma. Então, boa parte do que eu precisava de referência já estava embutido na minha bagagem cultural. Por exemplo, acredito ter visto praticamente todos os filmes inspirados ou derivados da obra do queixudinho de Arkham. Porém, admito que percebi que muitos dos autores haviam lido RPGs como O Chamado de Cthulhu (Terra Incógnita) e Rastro de Cthulhu (RetroPunk), além de encontrarem elementos de influenciados como a série de filmes Hellraiser e o mangá Berserk.

Dois clássicos RPGs baseados nos mitos de Cthulhu

Dois clássicos RPGs baseados nos mitos de Cthulhu

HQCafé – Rolou algumas mesas de RPG de O Chamado de Cthulhu para os artistas entrarem no clima?

Raphael – Infelizmente, eu joguei poucas vezes esse RPG que me agrada tanto. Na verdade, eu espero ser convidado para muitas mesas depois de lançar esse livro! ahahaha

HQCafé – Sidney Gusman (editor da Maurício de Souza Produções) disse em um artigo em 2009 que não existem editores de quadrinhos de fato no Brasil, mas sim editores de texto. Essa distinção faz sentido? Você concorda com a afirmação?

Raphael – Esse artigo é referência ao cenário dos quadrinhos que existia até o começo dos anos 2000, mas de uns tempos para cá as coisas mudaram. Realmente, existem editores de texto que trabalham traduções ou publicam obras nacionais sem interferirem criativamente nelas. Porém, tenho orgulho de dizer que não faço parte dessa linhagem. Meu trabalho é totalmente inspirado em nomes como Bill Gaines, Harvey Kurtzman, Stan Lee, Philip Athans, Karen Berger (das minhas favoritas da vida) e, por que não dizer, no próprio Sidão.

Por ironia do destino, eu fui parar na revista mais odiada pelos editores que trabalhavam comigo: a MAD! O problema é que eu não me dava muito bem com aquele trabalho de traduzir e adaptar, mas eu simplesmente me encontrei no trabalho de criar e organizar a cambada de malucos na última revista de humor das bancas brasileiras. Aquele ambiente foi uma grande escola para mim e pude desenvolver um trabalho que até hoje norteia minhas escolhas editoriais. Porém, acredito que segui em frente e tenho construído junto com o Erick Sama uma das mais originais linhas editoriais do mercado nacional. E que se dane a modéstia! HAHAHAHA

HQCafé – Como você descreveria o trabalho do editor de quadrinhos?

Raphael – O editor de quadrinhos é uma parteira, mas que muitas vezes trabalha do momento em que o casal se conheceu até colocar a criança na faculdade. Passando pelo coito e não deixando de dar educação para o infante. Em outras palavras, um editor de quadrinhos é aquela figura que concebe e agrega novos projetos, organiza tudo para que a produção seja eficiente e atenda a demanda de nossos leitores e, não menos importante, faz com que os autores sejam ainda mais eles mesmos.

Ele pode interferir no conteúdo, mas sempre buscando o melhor produto possível, nunca tentando impor seu estilo de narrar uma história. Porém, percebemos que estamos criando um espírito Draco de contar histórias e agregando pessoas que estavam indo pelo menos caminho. Queremos ser uma casa editorial reconhecida por ter um estilo próprio de fazer literatura e quadrinhos.

Raphael autografando "Ditadura No Ar - Coração Selvagem", uma das HQs de sua autoria.

Raphael autografando “Ditadura No Ar – Coração Selvagem”, uma das HQs de sua autoria.

HQCafé – Você trabalha também como roteirista, além de editor. O trabalho de edição surgiu como uma necessidade, ou você prefere ele à produção de roteiros?

Raphael – Na verdade, o processo foi bem complexo. Sou formado em História e entrei no curso com o absurdo objetivo de “conhecer um pouco de tudo” para ser um escritor. No meio disso tudo, esqueci esse objetivo infantil e tentei ser professor, mas não deu certo. Felizmente, o universo é um grande piadista e me ofereceu a possibilidade de começar uma carreira como editor de quadrinhos, que abracei com unhas e dentes. Estou nessa há dez anos e cada vez mais apaixonado por essa linguagem. Quando assumi a revista MAD, já pela Panini, percebi que precisava estudar mais sobre roteiro, desenho e narrativa. Durante os diversos cursos que fiz, sendo os melhores na Quanta Academia de Artes (bença, André Diniz), me redescobri como um contador de histórias. E comecei a escrever compulsivamente e simplesmente não paro de criar e ter ideias para novas HQs. A real é que eu adoro editar, mas meu o verdadeiro prazer está em escrever.

HQCafé – As últimas edições do Troféu HQMix têm sido bastante polêmicas e na última edição passou por mudanças importantes no processo de seleção dos premiados. O próprio O Rei Amarelo acabou por ser prejudicado por não ser indicado na categoria “aventura/terror/ficção”. Você acha que as mudanças foram satisfatórias?

Raphael – O Troféu HQMix é uma das pedras fundamentais do nosso mercado de quadrinhos, ainda em formação. Vi muitos autores pedindo o fim da premiação, porém, ela é o momento em que celebramos toda a luta que foi fazer quadrinhos no ano anterior. Para mim, pouco importa quem venceu. O que me interessa é participar desse processo, seja sendo indicado ou votando em projetos que eu acredito serem relevantes. Por isso mesmo, eu fiquei indignado com o que foi feito este ano. Ser selecionado por um júri era a verdadeira premiação de crítica que o HQMix tinha a oferecer. Jogar a responsabilidade de organizar o prêmio para a comunidade foi uma atitude um pouco irresponsável, mas que também conscientizou muita gente de que tocar esse projeto é muito mais difícil do que parece.Os organizadores prometeram que ano que vem, as editoras e autores farão as inscrições de suas obras nas categorias. Só isso já ajuda bastante no processo. Porém, eles não deveriam abrir mão de um júri.

Quanto às polêmicas, elas assustaram os caras, mas foram muito importantes para o amadurecimento do mercado. Depois daquela falha grave do “vai bombar”, as mulheres conquistaram cada vez mais espaços, seja publicando, participando de eventos, formando coletivos e ganhando um público cada vez maior. Eu mesmo passei a prestar muito mais atenção a participação feminina nas produções da casa e também na forma como eu escrevia minhas personagens. Não quero dar uma de desconstruído, mas acho bacana que a gente saiba usar as adversidades para aprender e desenvolver o nosso tão frágil mundo dos quadrinho e, por que não dizer, a nossa sociedade.

HQCafé – O modelo atual de “voto popular” em dois turnos não privilegia os autores consagrados e as publicações com maior distribuição no Brasil? Que mudanças você sugeriria para o prêmio?

Raphael – Na verdade, até o modelo anterior (nota: com lista de indicados selecionada por um júri especializado) favorecia esse tipo de publicação. Porém, eu acredito que os resultados desse ano foram completamente surpreendentes. A Draco não tem distribuição em banca e nem fazemos tiragens astronômicas, mas levamos quatro prêmios. Outros projetos, como o independente La Dansarina (de Lillo Parra e Jefferson Costa), ganharam merecidamente prêmios importantes. Vamos dizer que os caras atiraram pra cima, mas acabaram acertando do mesmo jeito. Foi o primeiro ano sem premiações bizarras, como uma coletânea de clássicos do Laerte concorrendo com publicações de humor atuais.

Porém, a principal sugestão que gostaria de fazer é que exista uma categoria chamada AUTOR. Para que a categoria “Roteirista” seja concorrida apenas por quem não desenha as próprias histórias. A dinâmica de trabalhar em conjunto com outra pessoa é muito diferente e vem crescendo bastante com o surgimento de toda uma geração de roteiristas talentosos. Acredito que todos os envolvidos só tem a ganhar com isso.

HQCafé – Sobre essa questão, tradicionalmente os autores de quadrinhos nacionais são responsáveis por toda a produção de uma HQ, incluindo roteiro, desenho, arte e mesmo publicação e distribuição. O recente aumento de parcerias entre roteiristas e desenhistas é um sinal de um mercado que está se tornando mais sofisticado?

Raphael – Claro. Você tem uma produção nacional não só mais rica, como um aumento de qualidade e diversidade. “Sofisticado” não sei, mas mais profissional… com certeza.

HQCafé – Para quem adquirir de O Despertar, qual sua indicação de trilha sonora para acompanhar a leitura?

Raphael – Sem pensar muito, eu vou indicar um disco que tenho ouvido bastante para escrever. Principalmente por ele ser instrumental e bastante experimental. Gosto de música que te deixa em transe na hora de criar. Por isso, ouçam o álbum At The Mountains of Madness, da banda Electric Masada.

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