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Peter Kuper não é um cartunista usual. Mais conhecido por suas tiras de Spy vs Spy (originalmente criada por Antonio Prohías), Kuper tem uma longa e eclética trajetória profissional, que inclui desde a publicação de quadrinhos em fanzines undergrounds, publicações autorais e adaptações literárias, até charges em periódicos de grande circulação (como The New Yorker Time). Algumas vezes repleto de um humor ácido, outras de uma certa melancolia, os trabalhos de Kuper tem como traço comum uma crítica política e social mordaz, traduzida em imagens impactantes e caricaturais, muitas vezes sem o uso de diálogos.

O cartunista esteve há algumas semanas atrás em São Paulo, na Comic Con Experience – CCXP, à convite da Marsupial Editora, para a promover a tradução de Ruínas, seu mais recente trabalho. Ganhador do Prêmio Eisner 2016 de Melhor Álbum Gráfico, Ruínas entrelaça a história de um casal de artistas novaiorquinos que decide tirar um ano sabático em Oaxaca, México (o próprio Kuper fez o mesmo anos antes) e a viagem de uma borboleta-monarca até seu santuário na América Central.

Kuper fez a gentileza de ceder alguns minutos durante uma sessão de autógrafos para bater um papo sobre sua carreira, os temas de seus trabalhos, e o “parto” que foi a produção de Ruínas.

HQCafé – Sr.Kuper, você tem quase 40 anos de carreira como ilustrador em diferentes publicações, e na grande maioria de seus trabalhos você parece ser alguém que tem algo a dizer. Você acha que a arte deve sempre carregar uma mensagem, ser relevante?

Kuper – Ser relevante? Quero dizer… há muitas mensagens diferentes, tudo que qualquer pessoa faz possui uma mensagem. Pode ser uma mensagem de que você não se interessa em falar sobre o mundo ao seu redor, ou que seu interesse é apenas escapar dele. Não importa o que você faça, sempre há a sugestão de uma perspectiva, de um significado. Acontece que eu sou uma pessoa que prefere falar sobre o que eu acredito acerca do mundo ao meu redor, de uma forma bem específica… embora em Pau e Pedra1 eu preferi trabalhar com uma alegoria, com elementos fantásticos ou mitológicos para contar minha história.

Pau & Pedra: a história de um gigante confuso como uma alegoria da Era Bush.

Mas algumas vezes a fantasia não é uma forma mais atrativa de expressar uma ideia ou transmitir uma mensagem, ao invés de talvez um texto mais longo e árido?

Sim. Eu estou sempre procurando novas maneira de falar sobre coisas que eu vejo, e me comunicar com outras pessoas de forma que nos ajude a compreender juntos o mundo se nós pretendemos sobreviver nele. Há um aspecto, provavelmente um medo, em meu trabalho, que se nós não enfrentarmos os problemas à nossa frente agora, eles serão um problema para todos nós no futuro.

Falando sobre medos, um dos temas recorrentes em seus trabalhos é o relacionamento entre a humanidade e o meio ambiente. O psicólogo Per Espen Stoknes afirmou em um artigo que o Aquecimento Global é “provavelmente a maior falha de comunicação científica da história”, uma vez que os cientistas parecem incapazes de fazer as pessoas se importarem com a questão. Por outro lado, parece haver um movimento da arte contemporânea no sentido de ajudar nessa compreensão. Você acha que a ilustração pode ser uma ferramenta útil para alcançar o público e torna-lo simpático ao tema?

Com certeza. É minha maior esperança que nós seremos capazes disso. Mas também, eu concordo com a ideia de que o Aquecimento Global é um problema que as pessoas em geral não são capazes de se relacionar. Uma das coisas que os artistas podem fazer é “ligar os pontos” para fazer as pessoas entenderem algo visualmente, que elas não compreenderiam apenas lendo as estatísticas.

Capa da última edição de World War 3 Illustrated

Em seu prefácio para World War 3 Illustrated: 1974-20142, você afirma que a ilustração é uma forma de registrar história. Você acredita que ela pode também ser usada pode carregar de forma efetiva uma mensagem?

Sim, ela pode fazer ambos. O ilustrador pode ser bastante proativo, no sentido em que, no momento, o leitor olha para seu trabalho e imediatamente reage a ele. Ao mesmo tempo você está registrando esse momento, para que no futuro, que eu espero chegará, a próxima geração terá contato com o material, e ver que ele faz referência a um tempo em que as pessoas estavam discutindo o assunto… foi um dos motivos que levou eu e meu amigo (Seth Tobocman) a criar World War 3 Illustrated (WW3), que é uma publicação própria, porque há tanta informação disponível nas ruas, que as pessoas estão discutindo e não está sendo registrada.

E é muito fácil desconsiderar histórias que não aparentam ser evidentes. Então, a história está sendo escrita o tempo todo, e eu não quero que isso seja simplesmente feito por outra pessoa. Essa é minha oportunidade de criar minha própria história, que eu espero que ressoe em outras pessoas no futuro. Por exemplo, um jovem talvez leia uma edição antiga de WW3 e pense: “Ah, as pessoas falavam sobre essas coisas naquela época, ainda que não apareça nos livros de história.”

Eu me sinto muito melancólico e sombrio acerca do futuro, porque as forças dedicadas a destruí-lo lucram bastante com isso. Há muito dinheiro investido em destruir, há muito menos em criar. Meu trabalho muito mais difícil por causa disso, mas é meu trabalho, e é a forma como eu o encaro: com um senso de urgência que acompanha minha carreira inteira, de falar sobre certos assuntos…

Mas algumas vezes essa urgência é para falar sobre uma perspectiva que eu tinha em uma certa idade. Eu já fiz quadrinhos sobre perder minha virgindade. Em uma determinada idade, era sobre isso que eu achava importante falar. E sexo, o medo da solidão, não arranjar uma namorada, não sei… e me tornar um pai! Então eu basicamente escrevo sobre fatos contemporâneos para mim mesmo, mas tudo depende de haver uma história que pode ser lida por alguém no futuro.

Presidente Trump em trecho de “The Wall”

Falando em registrar histórias para o futuro: em seu conto The Wall (publicado na edição de julho de 1990 da revista Heavy Metal3), Donald Trump se torna o Presidente dos EUA, algo impensável na época. Você acha que as pessoas deixaram de perceber certos movimentos históricos que nos trouxeram até esse momento?

Algumas pessoas. Mas sempre haverá aqueles que irão notar esses fenômenos. É parte do trabalho de um artista prestar atenção em aspectos que outros não necessariamente percebem e expressa-los em seus trabalhos. Para as pessoas que enxergam esses fatos, há uma conexão. Para os demais, há sempre a possibilidade de que elas possam notar essas ligações posteriormente.

E quanto às pessoas responsáveis por registrar esses momentos, é realmente  estranho olhar para trás… eu me preocupava com Donald Trump em 1990…

E você basicamente previu essa eleição, não? Digo, não apenas o vitorioso, mas o contexto de uma sociedade totalmente dividida e manipulada por medo e ódio.

Não era minha intenção que a história chegasse tão próxima da verdade, mas é o que acontece quando se está olhando para essas coisas e tentando falar sobre elas: depois de um tempo, o que parecia fantasia se torna realidade.

Pouco antes das eleições americanas, a revista The New Yorker publicou uma charge sua com o Tio Sam levando um ovo na cara…

Sim, uma do Tio Sam com uma “Máquina de Rube Goldberg”4.

Como nessa charge, parece haver uma mensagem comum em seu trabalho de que o “sistema está quebrado”, seja o sistema político, a vida nas grandes cidades, nossa relação com o meio ambiente. Que de alguma forma esses complexos sistemas que criamos não funcionam mais.

Correto.

Charge de Peter Kuper publicada na revista “The New Yorker” em 06 de novembro de 2016

(Por uma questão de honestidade, vale ressaltar que eu gastei os segundos seguintes balbuciando coisas sem sentido. Felizmente Kuper foi educado o suficiente para esperar até eu conseguir formular a próxima pergunta)

Você não acha interessante que essa mesma situação caótica descrita por você é paradoxalmente uma fonte de inspiração para seu trabalho e o de outros artistas?

Sim, é sempre assim, tempos ruins sempre geram ótimas ideias para desenhar. Mas eu realmente quero também incluir em meu trabalho algum tipo de esperança… digo, sinto que a maior parte do meu trabalho é apontar o que está errado, mas eu também quero oferecer algo além disso, E algumas vezes só o que posso oferecer é: “essa é a situação, e nós deveríamos fazer algo quanto à isso, coletivamente.” Para começar, identificar o problema, traze-lo para a luz é parte disso, não esconde-lo ou ignora-lo. Esse é um caminho.

Mas uma vez que o problema foi exposto, algo muito mais complicado é responder: “para onde vamos a partir daqui?” E isso é algo que tenho tentado considerar em meu trabalho.

Sob essa ótica, seu mais recente trabalho, Ruínas, parece ser – e eu estou lutando com a palavra – mais “maduro”, de certa forma?

É, e muito complicado… eu acho que peguei tudo que aprendi ao longo dos anos anos e coloquei nesse livro.

Sim, e ele menciona uma série de temas: meio ambiente, desobediência civil, imigração, violência política, sexo… mas também os desafios da paternidade. E sem querer dar nenhum spoiler, a obra termina com uma mensagem positiva, certo?

Sim, nesse caso o ponto fundamental dessa história é: algumas vezes você pode conseguir o que quer, só que não necessariamente do jeito que você imaginava. Pode não ser uma resposta perfeita, mas é uma resposta com a qual você pode conviver. Meio que “a vida continua”. E algumas vezes, como o caso do casal da história: eles enfrentam os desafios, e eles vencem, mas não da forma que eles imaginavam.

A vibrante e caótica Oaxaca, no traço de Peter Kuper.

Ruínas é uma obra autobiográfica? Há questões nela que você também encarou em algum momento da vida? 

É uma combinação de fatores. Eu extrai eventos que eu conhecia de algumas pessoas, criei personagens baseados na combinação de outras que eu conheço, e também de histórias que eu tive contato, e eu fui somando tudo. Mas eu também tenho bastante interesse em insetos e borboletas, eu costumava criar borboletas-monarca quando eu vivia no Novo México, e eu visitei o santuário que eu desenhei em Ruínas. Esse aspecto foi fascinante para mim, e também me permitiu tratar das circunstâncias ambientais a que os insetos estão sujeitos, traçando um paralelo às mesmas questões a que humanos estão submetidos. Há uma série de metáforas, alegorias e paralelos com eventos atuais. Dá até para dizer que A Metamorfose, cuja adaptação para os quadrinhos eu participei5, está lá com a alegoria de Gregor Samsa sofrendo como um inseto. Então há um pouco de Kafka lá também.

É realmente todos esses muitos elementos que eu consegui recolher ao longo dos anos em um único trabalho.

Então é quase como uma antologia?

Sim. É como se costuma dizer, eu pus tudo lá, incluindo a pia da cozinha.

Ruínas tem uma estrutura bastante complexa, com quatro linhas narrativas (o sabático de Samantha e George; A viagem da borboleta-monarca; a história escrita por Samantha; e pontos da história do México), que se sobrepõem e dialogam entre si…

Eu tento, pelo menos.

Como você conseguiu organizar todas essas linhas e ideias em uma única história coesa?

Eu pensei sobre isso por cerca de cinco anos, e levou três anos para completar o trabalho. Com todo esse tempo, eu gostaria de pensar que eu teria sucesso. Eu ficava pensando sobre isso o tempo todo. Em diferentes momentos eu achei que eu não conseguiria terminar o livro, por ser tão grande, por tomar tanto tempo, que não haveria forma de conseguir financeiramente, por ser tão longo. Essa parte foi meio que um milagre… o livro meio que ganhou vida sozinho. Foi como ter um bebê…

As dores de escrever uma história.

Mais ou menos como o sonho de Samantha no início de Ruínas, em que ela literalmente dá à luz a um livro?

Foi daí que veio a ideia para essa cena. Essa noção de “parir” um livro… está bom o suficiente? É o momento certo? Eu tinha todas essas perguntas enquanto estava trabalhando no livro, e na verdade quase todo esse tempo eu estava cheio de dúvidas. Todo dia eu me perguntava se o mundo precisa de um livros desses, seu eu seria capaz de torna-lo tão bom quanto eu gostaria, se minhas ideias e habilidades estavam no mesmo nível. Então todo dia eu colocava duas linhas no papel e achava que uma delas estava errada.

Isso é parte do desafio e do prazer de um processo como esse, porque ao final de cada dia há um certo sentimento de sucesso, que eu consegui passar por mais um dia, e eu acho que isso é um resumo da vida.

Isso é uma boa metáfora para a paternidade? Tentar se o melhor pai possível a cada dia?

Exato. Você tenta não cometer erros, e sempre terá algo que você fez que não vai está certo, mas você torce que no final o resultado seja positivo.

1. Sticks and Stones usa a história sem diálogos de um gigante de pedra como alegoria para a Era Bush nos EUA. Foi publicado originalmente em 2004 pela Broadway Books, e lançado no Brasil em 2016 pela Companhia das Letras.

2. World War 3 Illustrated  é um fanzine criado por Peter Kuper e Seth Tobocman em 1979. Parte de seu material foi reunido na coletânea World War 3 Illustrated: 1979-2014, publicada em 2014 pela PM Press. Sua mais recente edição, Climate Chaos, foi lançada em novembro de 2016.

3. The Wall foi republicada em uma versão em cores na coletânea Drawn to New York, lançada em 2013 pela PM Press.

4. Rube Goldberg foi um cartunista e engenheiro norte-americano do início do século 20. Seus trabalhos por vezes representavam “máquinas de Rube Golberg”, equipamentos altamente complexos que serviam para um propósito final simples (como abrir uma porta ou jogar um ovo na cara do Tio Sam).

5. The Metamorphosis, adaptação em quadrinhos do livro homônimo de Franz Kafka, foi publicado em 2004 pela Crown Publications e lançado no mesmo ano em português pela Conrad Editora.

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