O Venom era pra ser apenas uma mudança no uniforme do Homem-Aranha, mas o simples tapa no visual do Teioso acabou por conceber um de seus mais icônicos inimigos. Vamos relembrar aqui um pouquinho da trajetória meteórica do alienígena.

O início humilde

Inspirada pela ideia de um fã, conforme já mencionamos aqui, a mudança no uniforme ocorreu durante a saga Guerras Secretas, em 1984, por uma exigência da fabricante de brinquedos Mattel. Isso porque a toda-poderosa DC fez um acordo com a empresa de brinquedos Kenner para o lançamento da linha dos Super Powers, e a Marvel arregalou o olho para fazer o mesmo com suas marcas e ganhar um dinheirinho extra com licenciamento. Dentro da própria editora, as revistas licenciadas de brinquedos como G.I. Joe e Transformers estavam bombando.

O problema é que, naquela época, todo mundo queria fazer brinquedos com Batman, Superman e cia., mas fazer um investimento nos personagens desconhecidos da Marvel era um risco (como o mundo dá voltas). Então, a Mattel fez uma série de exigências para entrar no negócio, como que deveria haver uma saga para dar “suporte” à linha, e que nessa saga cada personagem deveria ter um uniforme alternativo para eles poderem lançar dois bonecos de cada

https://www.youtube.com/watch?v=HeOgTJr-gb4.

No fim, eles usaram um monte de personagens que nem estavam na história, não aproveitaram a maioria dos uniformes alternativos e os brinquedos eram bem porcaria, o que fez a linha dançar tão logo houve uma mudança de cadeiras na administração da fábrica do He-Man. Mas a saga escrita por Jim Shooter entrou para a história das HQs (pode se chamar de clássico, sendo da Marvel? :P)

Na história, o Homem-Aranha ficou impressionado ao ver como Thor andava alinhado depois de uma batalha e pediu umas dicas de alfaiataria. O deus do trovão indicou uma câmara que regenerava roupa descoberta pelo Hulk na base que os heróis estavam usando no Planeta Bélico. Quando o Teioso entrou lá, surgiu uma esfera preta na frente dele que envolveu seu corpo e se transformou em um novo uniforme, capaz de se transfigurar em roupas normais e lançar uma quantidade ilimitada de teias, que eram ainda por cima mais resistentes do que as do antigo lançador mecânico.

Puxa, que legal, eu estava mesmo precisando de uma roupa nova! Que estranhamente conveniente!

Uma curiosidade é que, no Brasil, a minissérie foi lançada desalinhada com a cronologia das revistas mensais. Como a Gulliver já tinha o contrato para lançar a linha dos brinquedos por aqui, a Editora Abril lançou a saga em 1986, o que forçou algumas mudanças de enredo. Em uma página adicional no fim da saga, o Teioso decide voltar ao uniforme de costume. Isso levou a vários redesenhos pelos quais a editora era famosa.

Mesma história, Homem-Aranha diferente.

De indumentária para monstro

O tempo passa e o Aranha aproveita o novo uniforme até se dar conta de algumas coisas estranhas, como o fato de que ficava muito exausto depois de usá-lo ou de que ele parecia antecipar suas ações em alguns momentos. O herói vai, então, consultar seu amigo Reed Richards, o Sr. Fantástico do Quarteto, que descobre que o modelito pretinho básico não era uma roupa, mas sim um simbionte alienígena. Mais tarde, descobre-se que ele pertence à raça klyntar.

Um simbionte? Deus, nãããão!! Peraí, o que diabo é um simbionte?

Michael Cane. Foto: Joe Pugliese (Hollywood Reporter)Michael Caine Explica
Simbionte é um organismo que vive em simbiose, ou seja, uma associação de longo prazo e mutualmente benéfica entre dois organismos de espécie diferentes, embora não haja uma definição totalmente consensual entre cientistas.
Um exemplo de simbiontes são protozoários que encontram um habitat no estômago dos cupins, e os ajudam a digerir a madeira.

Com a ajuda do Sr. Fantástico e do Tocha Humana, ele consegue se livrar da criatura e prendê-la, mas tempos depois ela foge e se une a Parker novamente. Aproveitando-se de sua vulnerabilidade a ondas sônicas, o Aranha sobe no campanário de uma igreja e, com o sino tocando, novamente se desvincula do simbionte.

Uma curiosidade é que Peter quase morre, mas, inconsciente, é salvo pelo Venom, demonstrando que a criatura foi influenciada pelo tempo em que estava com ele e desenvolveu sentimentos. Óun.

Mas não foi até a edição número 299 de Amazing Spider-Man, de 1988 (por aqui, Homem-Aranha 104, de 1992) que Venom fez sua aparição pela primeira vez com sua característica boca cheia de dentes, no traço de Todd MacFarlane.

Uuuuu…. Creepy…

Na história, depois que Peter o expulsou, Venom se une a Eddie Brock, um jornalista que havia tido sua carreira prejudicada quando revelou com alarde a pessoa errada como sendo o Devorador de Pecados em uma história anterior. Ele culpava o Homem-Aranha por sua desgraça, o que tornou a união ideal para buscar vingança contra o herói, ainda mais porque o simbionte é imune ao sentido de aranha dele.

Esse desenvolvimento pode explicar parte do sucesso do personagem, com sua história se desenrolando aos poucos, ele foi entrando na vida do Homem-Aranha de modo natural, e revelando paulatinamente seus mistérios. Foram quatro anos desde que o uniforme negro surgiu até a primeira aparição do monstro. Mas, se você preferir uma versão mais resumida, feita por um diretor relutante em um filme que já tinha vilões demais, pode assistir esta cena de dois minutos:

Bom, eu disse no primeiro parágrafo que a trajetória dele foi meteórica. Tudum-tss! Ok, melhor voltarmos aos quadrinhos. Em 1995, descobrimos na saga O Planeta dos Simbiontes que Venom foi considerado persona non-grata pela sua própria espécie em seu planeta natal porque tentava ligar-se ao seu hospedeiro ao invés de consumi-lo como era costume. Isso levou ao seu banimento para o Mundo Bélico, onde o Aranha o encontrou pela primeira vez.

Venom apareceu também em histórias do Deadpool em que este se une ao simbionte e seria o responsável por seu comportamento agressivo. Não tenho bem certeza se algumas histórias do mercenário tagarela são consideradas cânone dentro da Marvel, ou se são pensadas como uma brincadeira, mas fica aí a citação.

Venom teve vários parceiros de simbiose desde que apareceu pela primeira vez e se alternou no papel de vilão e mocinho. Teve até um filhote (óun, que fofo) que se uniu a um serial killer e passou a se chamar Carnificina (tá bom, não tão fofo).

Em sua nova versão cinematográfica, a Sony aposta que o personagem é forte o suficiente para levar um filme solo. Ainda que Venom seja bem interessante, será que a Sony vai ter capacidade para fazer esse filme decolar? Veremos nas próximas semanas.