Garth Ennis odeia super-heróis. Isso é público e notório.

Seu trabalho no Justiceiro, da Marvel, deixa isso bem claro quando o violento vigilante confronta o Homem-Aranha, Demolidor e, principalmente, Wolverine. Ele não poupa os clichês do gênero em suas séries The Boys e na graphic novel The Pro. Em ‘Punisher Kills the Marvel Universe‘, cada herói e vilão da editora é brutalmente assassinado.

Foi natural que todos os fãs de quadrinhos ficassem de cabelo em pé quando foi anunciado que Tommy Monaghan, o violento matador de aluguel do seu título Hitman para a DC Comics, ia encontrar justamente o maior de todos os heróis: o Superman.

Afinal, nas páginas de Hitman, o protagonista já tinha vomitado em cima do Batman e imposto uma terrível humilhação ao então-Lanterna Verde da Terra, Kyle Rayner. Ennis gosta da violência explícita que os quadrinhos lhe permitem explorar, gosta do absurdo e do bizarro, do impensável, do chocante. Seus trabalhos em Hellblazer e Preacher são os melhores exemplos disto.

O que tivemos, no entanto, foi uma das mais respeitosas homenagens já feitas ao Homem de Aço.

Hitman #34 (1999), escrita por Ennis e ilustrada por John McCrea, é uma daquelas edições que a gente se diverte lendo, mas fica pensando demoradamente ao fechar suas páginas. É uma declaração de amor, não ao personagem e seus, então, 70 anos de histórias, filmes, animações. Mas aos ideais que ele representa, especialmente para um estrangeiro (Ennis é irlandês).

Hitman foi publicada no final dos anos 90, uma era criativamente espetacular da DC Comics. Títulos como Starman, JLA e Aztek tentavam dar um novo fôlego para a editora em tempos pós-morte e retorno do Superman. Os já citados Preacher e Hellblazer, da Vertigo, eram sucesso de público e crítica. Atrás da Marvel em vendas, a DC não tinha medo de arriscar, com títulos como Young Heroes in Love e Major Bummer.

O protagonista Tommy Monaghan é um matador de aluguel, beberrão e fumante inveterado, mas com algumas características muito particulares. Primeiro, ele foi mordido por vampiros alienígenas (isso mesmo), ganhando visão de raios X e telepatia. Segundo, seu código de conduta o impedia de matar quem ele considerasse bom ou honesto. Ele não atira em policiais e não usa sua telepatia pra descobrir a identidade do Batman, por exemplo. As sessenta edições da série são, antes de tudo, uma saga sobre amizade e companheirismo, mas também um divertido passeio pelo Universo DC e seus ilustres habitantes.

A história começa com Monaghan num telhado, lendo uma revista e fumando tranquilamente, quando ele percebe que o Superman está ali, de pé, no MESMO telhado. Quais as chances? Bom, os quadrinhos são cheios de “convenientes coincidências” que nos permitem momentos como esse. Qual a única coisa que qualquer pessoa sensata poderia fazer uma situação dessas?

Conversar, pelas próximas 20 páginas.

Se fosse um gibi escrito pelo Brian Michael Bendis, muitos fãs estariam arrancando os cabelos. Mas Ennis é também um excelente escritor de diálogos, com noções de ritmo e narrativa que casam perfeitamente com o traço de McCrea, na construção de uma história que nos ajuda a conhecer melhor o Superman e entender o que ele significa. E o brilhantismo da coisa toda está no senso de humor precisamente colocado, sem a necessidade de piadas, a emoção na história sem cenas de ação.

Superman explica a Tommy o que está fazendo em Gotham. Ele veio procurar o Batman para conversar após uma missão fracassada para salvar astronautas de uma missão espacial com destino a Marte. Apesar de ter impedido uma tragédia maior, o Homem de Aço não conseguiu salvar o líder da missão e o peso dessa morte é mostrado na escolha das palavras (“o Superman o decepcionou”), nas sombras sobre seu rosto e na expressão tensa do herói, como se ainda estivesse em ação – em contraste ao relaxado Monaghan.

Ele reconhece que não pode salvar todo mundo, mas a percepção das pessoas é que, se o Superman está lá, ele vai resolver e todos ficarão bem, como um deus ex machina aparecendo no último minuto e decidindo qualquer confronto. É um momento humano do herói, mas é também a percepção dos leitores e fãs do personagem. Afinal, ele é O Superman. Tudo vai ficar bem – não vai?

Garth Ennis usa seu personagem para dar voz a um dos elementos mais importantes da mitologia do Superman. Ele é um imigrante, um “estranho visitante de outro planeta”, que vem para a Terra (ou para a América) e pergunta “como eu posso ajudar?” Por mais poderoso que seja, ele escolhe ajudar quem precisa, proteger e defender os mais fracos, ao invés de oprimir um mundo que não teria forças para antagonizá-lo.

Indo mais longe, Siegel e Shuster, como filhos de judeus que vieram da Europa em tempos de perseguição, mostram seu personagem Superman se disfarçando de Clark Kent, procurando um emprego normal e tentando dar sua contribuição para o país que o acolheu. Ele tem uma “outra vida”, valores e relíquias que mantém guardados em segredo na sua Fortaleza da Solidão, mas jamais se afasta demais deles. Ao contrário, lhe permitem fazer o que só ele pode. E ele jamais ignora quando é necessário.

A sensibilidade do texto atinge em cheio a ingenuidade do Superman, de maneira respeitosa e até solene. Ennis, realmente, não é um grande fã de super-heróis – exceto dois. “A Mulher Maravilha é um personagem que eu acho que poderia escrever porque tenho bastante respeito, senão pelo personagem, pela ideia por trás dela. E eu gosto do conceito do Superman. Ele vai estar nas páginas de Hitman em breve e tenho certeza que as pessoas acham que alguém vai vomitar nele, ou ser ridicularizado como o Lanterna Verde, mas não, de jeito nenhum. É bem respeitoso”, ele declarou numa entrevista, meses antes.

A grande questão é que, a despeito de seus poderes, o Superman sente o fracasso de não ter salvado uma única vida (isso dá uma dimensão do quanto ele é humano, do quanto se importa com cada vida). “Você é tudo que esse país tem de melhor e nem percebe”, Hitman diz. A percepção de Ennis, enquanto imigrante, é que a América é, de fato, uma terra de oportunidades, onde as pessoas podem deixar velhas diferenças de lado e ajudar umas às outras. O que torna Superman grande vai muito além dos poderes, mas do que escolhe fazer com eles – sacrificando o que poderia fazer – sempre ajudar o próximo. A resposta do Superman para Monaghan vem na forma de um sorriso.

Por mais que tenha um monte de defeitos – ele é um matador de aluguel, vale lembrar – Monaghan também é bem ingênuo ao ficar diante do Superman. Seu discurso é sincero, o apoio que oferece é honesto e ele chega a tremer um pouco ao pedir um autógrafo para o Superman. Sua admiração chega a ser comovente. “O pessoal lá do bar não vai acreditar, o cara é inacreditavelmente gente boa!”

O Homem de Aço se despede, grato, e vai embora voando.

Monaghan pega um rifle e mata um criminoso que estava espreitando daquele telhado.

Um pequeno lembrete de que a confiança, às vezes, é depositada em pessoas que desapontam você – ainda que possam ter as melhores intenções.

Um bom retrato da América, no final das contas.

Of Thee I Sing, o título da história, é uma frase da canção patriótica americana My Country, ‘Tis of Thee. Tommy Monaghan e Superman voltariam a se encontrar na mini-série em duas edições Hitman/JLA, de 2007.

Para Márcio Sampayo, maior fã que conheço de Superman e de Hitman.

 

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