Geralmente, quando vou ao cinema assistir uma adaptação de quadrinhos, acabo ficando impaciente por causa do burburinho, os comentários, risos… Eu gosto de mergulhar no filme, ter uma verdadeira experiência de imersão, e fica muito difícil conseguir quando alguém abre o celular do seu lado ou grita “olha lá, é o Stan Lee!”

Mas teve um filme em que isso não aconteceu. O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), foi um evento único. Durante todo o filme (nas três sessões que assisti), não ouvi risos, comentários, burburinho… Nada. A respiração da plateia parecia suspensa, como se todos estivessem sentados nas pontas das cadeiras, roendo as unhas, ansiosos pela próxima cena em que o vilão ia aparecer.

O Coringa, interpretado no filme por Heath Ledger, sempre foi um dos meus personagens favoritos, ao lado de Constantine, Superman, Homem-Aranha, Flash, Lanterna Verde, Justiceiro e do próprio Batman. Ele sempre representou algo ruim, hediondo, ameaçador – ainda que muitas vezes ele não tenha passado de um “palhaço criminoso”. Foram gibis como Asilo Arkham, com sua arte espetacular e roteiro primoroso que mostraram o Coringa como ele realmente deve ser. Um agente do caos.

Poster do filme The Dark Knight

Poster do filme The Dark Knight

A intepretação de Cesar Romero para o personagem se tornou clássica, Jack Nicholson fez um excelente trabalho no primeiro filme de Tim Burton, a versão animada do personagem, dublada por Mark Hammil, também era genial, mas quando a primeira imagem do Coringa foi divulgada para o Cavaleiro das Trevas, foi difícil conter a decepção. Afinal, estávamos falando de um personagem que espancou o Robin até a morte com um pé de cabra, aleijou a Batgirl e foi capaz de quebrar o próprio pescoço numa cena antológica do gibi Cavaleiro das Trevas.

Mas o filme anterior tinha sido realmente muito bom. Batman Begins explorava aspectos da mitologia do Homem-Morcego até então inéditos mesmo nos quadrinhos. Como o Coringa surgiria? Qual seria sua origem? Se manteria fiel às HQs? A resposta deixou fãs de quadrinhos e de cinema sem palavras.

Ledger e o diretor Christopher Nolan já tinham discutido a possibilidade de trabalharem juntos algumas vezes, com o diretor o convidando para o papel principal em Batman Begins. Na ocasião, Ledger recusou. Impressionado com o resultado do filme, porém, ele retomou as conversas para conseguir o papel de Coringa, convencendo Nolan rapidamente: “Heath estava pronto para o papel, para algo dessa magnitude”. Ele foi escolhido antes mesmo de terem um roteiro pronto. “… Eu sinto como se fosse uma oportunidade para não me levar tão a sério e, por algum motivo, eu fiquei orbitando o Coringa e sabia que tinha algo pra fazer com ele. E instantaneamente eu tive uma ideia de como seria.” Heath descreveu o Coringa como um “assassino em massa psicótico, esquizofrênico, sem nenhuma empatia”.

“See, I’m not a monster. I’m just ahead of the curve.”

O rosto, coberto de tinta branca falha e rachada, com olheiras em negro profundo e um sorriso de Glasgow¹ ameaçador por baixo de tudo aquilo, emoldurado pelo cabelo verde desgrenhado, ajudou a moldar uma imagem tão icônica quanto a de outros vilões clássicos: Darth Vader e Hannibal Lecter. Sim, é desse tipo de ícone que falamos aqui. O vilão que redefine o estilo. Os trejeitos de Ledger são perturbadores, a voz usando entonações mais altas e, de repente, caindo duas oitavas (ele estudou ventriloquismo e a Técnica de Alexander² até chegar no que pretendia). A mania de lamber as próprias cicatrizes. Os ombros curvados, com referência Sid Vicious, Tom Waits e quadros de Francis Bacon.

“Tudo que ele tira de cada gesto, cada pequeno cacoete facial, tudo que ele faz com a voz – tudo fala ao coração do personagem. Tudo gira em torno dessa ideia de um personagem devotado a um conceito de pura anarquia e caos. É difícil entender como todos esses conceitos se combinam. A fisicalidade me lembra grandes comediantes do cinema mudo. Tem um pouco de (Buster) Keaton e (Charlie) Chaplin nele.” – Christopher Nolan, sobre a performance de Ledger.

Durante um período de seis semanas, Ledger se trancou em um quarto de hotel escrevendo o “diário” do personagem e experimentando diferentes vozes. “Foi uma combinação de leitura de todos os gibis que pude e eram relevantes para o script e então fechar os olhos e meditar neles”, ele contou sobre seu processo. O diário contem rabiscos e cortes nas suas páginas, várias fotos do filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, coringas de diversos baralhos, fotos de hienas, maquiagem desengonçada de palhaço e a palavra “caos” destacada em verde. Também tem uma lista de coisas que o Coringa acharia divertidas, como AIDS, minas terrestre e gênios sofrendo trauma cerebral. Ledger também leu a história em prosa de Grant Morrison The Clown at Midnight para a revista Batman #663, onde baseou sua lista.

Capa de Batman #663

Capa de Batman #663

“Por dentro. Ele está rindo vermelho e negro e vermelho e negro até que não haja mais nada para rir. Até, quase carinhosamente, ele vira do avesso pela boca.” – trecho do diário do Coringa de Ledger.

A cena do interrogatório entre Batman e o Coringa foi a primeira em que Ledger realmente demonstrou toda a magnitude de sua performance (diferente da primeira a ser filmada, o assalto ao banco em iMax). O diretor e os atores principais gostaram da ideia de filmar essa cena chave logo no começo. Durante os ensaios, os atores mantiveram as coisas mais livres e improvisadas, “economizando energias” para a filmagem. Christian Bale confirmou que Ledger não fazia a “voz do Coringa” durante os ensaios, esperando para entrar no personagem apenas quando as câmeras estavam ligadas. Nolan mais tarde reconheceu como sua cena favorita do filme, dizendo que “eu nunca tinha visto alguém aguentar um soco como Heath fez com Christian.” Os socos, a pedido de Ledger, eram reais, numa das poucas cenas de luta não-coreografadas da trilogia.

“I don’t want to kill you! What would I do without you?”

Ledger também teve autorização para filmar e dirigir os videos com ameaças que o Coringa mandava como avisos. Cada tomada dele era diferente da anterior. Nolan, um controlador obsessivo de tudo que se passa no set, ficou suficientemente impressionado para não estar presente quando foi feita a cena do repórter sequestrado.

Heath Ledger sempre foi o primeiro a chegar no set. A primeira coisa que fazia era abraçar todo o elenco e equipe. E não importava o quão cansado estivesse depois de um longo dia, depois de tirar toda a maquiagem ele ainda iria abraçar todos no trailer dos maquiadores antes de ir embora. Ao fim das filmagens, as últimas palavras em seu diário do Coringa foram BYE BYE.

Madness is like gravity

“Madness is like gravity.”

O Coringa de Ledger faz todas as interpretações de personagens de quadrinhos parecerem medíocres (no sentido de “medianas”, não de “ruins”), porque ninguém consegue ser tão bom, tão perfeito e captar tão bem a essência do personagem quanto ele – e, ao mesmo tempo, ninguém consegue ser tão cruel, desconexo da realidade e suas regras sociais, tão vil e doentio. O que sempre admirei no personagem é o fato de ele estar tão fora de nosso mundo de “acorde cedo, arrume um emprego, trabalhe, case-se, tenha filhos e morra” que nenhuma  regra parece se aplicar a ele. Não por simples revolta ou anarquismo, mas porque, em sua mente, não é assim que o mundo funciona. Como não admirar isso, mesmo que num nível subconsciente? Como não se identificar com alguém que não dá satisfações a ninguém sobre coisa alguma e ainda por cima se mantém acima de tudo que o mundo impõe? Em Asilo Arkham, um psiquiatra teoriza que o Coringa não é louco – o que ele tem seria “super-sanidade”. Seu cérebro se adaptou para tempos de terrorismo, apatia e angústia. Ele sobreviveria ao inferno das pressões sociais e guerras religiosas, das políticas opressoras e de um mundo onde irmão mata irmão.

Nós não conseguiríamos. E essa ideia, do conforto na loucura, é estranhamente aterradora e familiar.

Arte de Arkham Asylum, por Dave McKean

Arte de Arkham Asylum, por Dave McKean

¹ – O Sorriso de Glasgow é um ferimento causado por cortes que vão dos cantos da boca até as orelhas, formando um “sorriso” macabro.

² – A Técnica de Alexander é uma técnica de reeducação corporal e coordenação realizada a partir de princípios físicos e psicológicos, baseada na autopercepção do movimento e aplicável a diversos casos, como alívio de dores na coluna, reabilitação após acidentes, melhora na respiração, posicionamento correto ao tocar instrumentos musicais ou cantar, além de outros hábitos relacionados.

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