Ao longo de seus mais de 75 anos de publicação, o Batman foi visto, revisto, analisado, dissecado, desconstruído, reformulado e interpretado de diversas formas diferentes. Considerando a humanidade do personagem (um garotinho que, não importa o preço, quer impedir que a tragédia que se abateu sobre sua vida se repita com qualquer outra pessoa), fica fácil entender como ele permite tantas visões diferentes.

Bom, não tão fácil...

Bom, não tão fácil…

O filme de 2005, Batman Begins, dirigido por Christopher Nolan, nos apresentou não apenas à origem do Batman, como também ao seu treinamento. E, nesse ponto da história, a batalha para superar o medo se torna um dos temas centrais – mais do que a busca por Justiça – especialmente o medo que Bruce Wayne tem de morcegos (chiroptophobia).

Enfrentar o medo é uma parte importante de qualquer jornada espiritual. Na ficção, temos diversos exemplos que vão de Star Wars a Senhor dos Anéis, passando por Duna e O Sombra. Tradicionalmente, o medo é visto como uma emoção negativa, algo a ser superado, derrotado. Abraçar o próprio lado negro e derrotar os demônios interiores conota amadurecimento e despertar. No filme, o Batman aprende esse paradoxo: o caminho para superar o medo é se render a ele. Apenas quando nos tornamos um com o medo, o maniqueísmo de extremos deixa de existir.

O Sutra do Coração ¹ diz que “forma é vazio e vazio é forma”. E vazio, aqui, não significa ausência ou não existência, mas a não-separação. Todas as formas são indivisíveis do (ou são uma com o) Despertar. Todas as formas são livres de si mesmas. Elas surgem iluminadas em suas essências. E o medo, em si, é uma forma. Tem sua própria iluminação.

"O senhor tem um minuto para ouvir a palavra de Fobos?"

“O senhor tem um minuto para ouvir a palavra de Fobos?”

Na Tradição Mística dos Hebreus conhecida como Cabalá, há um conceito chamado tikun, geralmente traduzido como “retificação”, dando a ideia de “retorno a um estágio original”. Quando algo se quebra, seja material ou espiritual, temos uma fissura. Podemos levar isso para quando ficamos doentes, perdemos algo que nos é caro ou quando passamos por um processo doloroso na vida. Mas essa fissura contém Luz. Como qualquer obstáculo, ela se torna uma oportunidade para que a Luz surja, para nosso aprendizado e crescimento.

Bruce Wayne, ainda criança, vê seus pais serem assassinados diante de seus olhos. A tragédia ocorre depois de Bruce ter caído dentro de um poço na propriedade de seu pai, quando foi cercado por morcegos dentro de uma caverna. Uma ferida profunda que ele levará anos tentando curar: a ferida de sua existência. Todos nós temos ferimentos assim – ainda que não sejam traumas tão dramáticos quanto os de Bruce. Ele acaba por associar a perda dos pais, o medo e a impotência diante de um criminoso, ao desamparo e solidão no fundo da caverna onde viviam os morcegos.

Deve ser muito difícil pra ele mesmo.

Deve ser muito difícil pra ele mesmo.

Bruce encontra seu Mestre anos mais tarde, um homem que se revelará ser seu inimigo Ra’s Al Ghul. Ra’s dá a Bruce uma poção alucinógena que o deixa em contato com a manifestação de seu maior medo: morcegos. Veja, Bruce se culpa pela morte dos pais, se culpa por tê-los tirado de dentro do teatro onde assistiam ópera, se culpa até por ter sobrevivido. Materializando essa culpa nos morcegos, ele se vê impotente, fraco e amedrontado ao encará-los novamente durante o delírio. Ra’s ordena que Bruce inspire seus medos profundamente: “Para conquistar seu medo, você deve se tornar o medo”.

Renegar o medo pode ser uma escolha destrutiva, tanto emocional quanto espiritualmente. É onde caímos em terapias e filosofias voltadas apenas para o pensamento positivo, para canalização de bons sentimentos, alegres, coloridos. Inconscientemente, a pessoa está sendo dirigida pelo medo, buscando bondade e simpatia a fim de evitá-lo. Mas esse não é o caminho.

“Para conquistar seu medo, você deve se tornar o medo”.

Também não vamos exagerar.

Também não vamos exagerar.

Para Ra’s Al Ghul, Bruce deve abraçar o medo para que cace criminosos sem misericórdia. Não é necessário ir muito longe para entender a sabedoria nesta linha de pensamento. Devemos inspirar nossos medos, como na técnica tibetana do Tonglen². O próprio Messias dos cristãos transpirou sangue no Horto das Oliveiras ante a iminência de sua morte, admitindo seus medos:

Pai, se puderes, afasta de mim este cálice.

E ainda assim devemos escolher caminhar além de nossos medos, apesar deles:

Mas que não seja feita a minha vontade, e sim a Tua.

Apropriar-se do medo e incorporá-lo é uma forma de Despertar. Batman, assim, é um Buda do Despertar, usando o Medo como ferramenta de Iluminação.

Sermão de hoje: o dízimo dos milionários.

Sermão de hoje: o dízimo dos milionários.

Mais tarde, Bruce busca os morcegos na escuridão de sua alma: a caverna onde ele caiu quando era criança. A materialização de seus medos está justamente no símbolo de seu inconsciente. Quando os morcegos o cercam, inicialmente ele age por instinto e se encolhe. Mas ele consegue abraçar o medo, se manter de pé e ficar bem no centro de uma verdadeira tormenta de morcegos. Ele sorri, ao reconhecer o poder nos morcegos, no medo e dentro de si. Ele completou o seu tikun, ao mergulhar nas trevas e trazer, de lá, a Luz. É o nascimento do Batman, um herói que não vai lutar por vingança, mas por Justiça – que significa equilíbrio e está acima do ego.

“Para conquistar seu medo, você deve se tornar o medo”.

Ele parece estar lidando bem com isso.

Ele parece estar lidando bem com isso.

Essa experiência, do medo induzido e controlado, não é algo que induza ao pânico ou desespero. É uma experiência realista de colocar os pés no chão, relaxar e se conhecer. Você não sentirá mais medo. As últimas palavras de Thomas Wayne para seu filho são: “Não tenha medo”. Se achamos que temos de fingir não sentir medo, então temos um problema. Demonstrar medo, em nossa cultura, é visto como um sinal de fraqueza, especialmente entre os homens. Mas as palavras de Thomas Wayne não são uma ordem, são uma descrição do que acontece quando abraçamos o medo.

O medo deixará de ser um inimigo para se tornar um conselheiro.

¹ = Sobre o Sutra do Coração: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sutra_do_Cora%C3%A7%C3%A3o

² = Sobre o tonglen: https://en.wikipedia.org/wiki/Tonglen

Adaptado de Embracing Fear: the Shadow Work of Batman, de Chris Dierkes.

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