Quando eu era criança, os grandes supermercados (não lembro de usarem o termo “hipermercado” na época) sempre tinham gôndolas com revistas próximos aos caixas – prática que se mantém até hoje em muitos deles. A diferença é que, no final dos anos 80 e começo dos 90, era muito fácil achar revistas em quadrinhos nessas gôndolas. Na época, a editora Abril tinha uma série de graphic novels que publicava tanto super heróis (como a fantástica “Parábola” do Surfista Prateado, escrita por Stan Lee e desenhada por Moebius) quanto quadrinhos de ficção e fantasia (onde conheci a arte de Charles Vess na sensacional “A Bandeira do Corvo”, escrita por Alan Zelenetz). O final dos anos 80, marcado pela “batmania” do filme de Tim Burton, impulsionou a popularidade de heróis mais violentos, como Wolverine e Justiceiro, e títulos mais maduros, como Monstro do Pântano e Sandman.

O tipo de coisa que qualquer mãe compraria para seu filho de oito anos.

O cenário ideal para a publicação da graphic novel “O Sombra – 1941: o Astrólogo de Hitler”, escrita pelo veterano da DC Comics Denny O’Neil e desenhada por Michael Kaluta. Numa viagem ao redor do mundo, o misterioso protagonista enfrenta nazistas numa trama com ação, misticismo e um irresistível clima noir. Pelo menos é assim que me lembro dela, pois nunca mais a reli.
Um pouco mais tarde, ainda na primeira metade da década de 90, um exercício muito divertido passou a ser ir a locadoras de fitas VHS para escolher filmes. Por um lado, você precisava ser rápido pra pegar os lançamentos (eu lembro que toda locadora tinha, no mínimo, meia dúzia de cópias de “Titanic”) e, por outro, você tinha a oportunidade de descobrir muitos filmes esquecidos, velhos ou pelos quais ninguém mais se interessava. Foi quando reencontrei um velho conhecido de chapéu, sobretudo, cachecol e nariz adunco.

The Shadow NOSE.

“O Sombra” (The Shadow, 1994, dirigido por Russell Mulcahy) foi uma grata surpresa. Entre os “filmes esquecidos” que tentaram pegar carona no “Batman” de Tim Burton, “O Sombra” teve um grande número de acertos – no mesmo ano, tivemos o “Quarteto Fantástico” de Roger Corman, “O Corvo”, “Timecop” e “O Máskara”, também baseados em quadrinhos e completamente diferentes em suas propostas. O clima, sombrio e kitsch ao mesmo tempo, o colocava acima de filmes como “Dick Tracy” e “Rocketeer”; o elenco, muito bem escolhido com Alec Baldwin no papel do protagonista, conseguia transmitir dignidade mesmo em cenas que não eram comuns para filmes de super heróis na época. “O Sombra” misturava vigilantismo com telepatia, poderes místicos e segredos de reencarnação, além da corrida nuclear nos anos que precederam a Segunda Guerra Mundial.

“Me desculpe pelo Joel Schumacher, senhor Sombra”

É importante contextualizar as muitas similaridades entre o Sombra (o personagem) e Batman. Ambos são milionários que usam seus recursos (fortuna, rede de informações, armas e habilidades de se ocultar nas sombras) para combater o crime, de maneira a aterrorizar os criminosos. O Sombra precede o Batman em quase uma década, tendo reaparecido mais tarde no gibi de seu “sucessor” mais popular e bem-sucedido.

“VIM LHE TRAZER O PROCESSINHO”

Curiosamente, há uma série de similaridades entre “O Sombra” (o filme) e “Batman Begins”, o absolutamente bem-sucedido reboot da franquia do homem-morcego pelas mãos de Christopher Nolan. O protagonista passa sete anos treinando secretamente na Ásia após ser dado como morto, muda a voz quando assume sua outra identidade, é amigo de alguém influente na polícia, muitos ótimos atores no elenco, suas “atividades noturnas” são descobertas pelo interesse romântico, tem um leal assistente, passa pelo mesmo tipo de treinamento que o vilão – e o plano do vilão é justamente destruir uma grande cidade.

Uma série de similaridades entre os filmes estão listadas neste link!

Obviamente, essas semelhanças ou estão intrinsecamente ligadas à origem do herói ou servem a propósitos muito específicos em suas respectivas histórias, não sendo o suficiente para uma visita do nosso amiguinho, o processinho. A proposta dos filmes é completamente diferente e Nolan teve uma vantagem: pegou um personagem com forte apelo junto ao público atual – e um orçamento condizente.
Já Mulcahy (que, antes de “O Sombra”, dirigiu “Highlander”) precisou usar as mais diversas técnicas para driblar as restrições orçamentárias. Matte paintings, maquetes, miniaturas, perspectivas forçadas, próteses de maquiagem… tudo trabalha satisfatoriamente a favor do filme. A trilha de Jerry Goldsmith é excelente, apesar de, em alguns momentos, lembrar “Batman” de Danny Elfman. Tim Curry é sempre ótimo quando se exige pouco dele – nesse filme, ele enlouquece e entrega muito mais do que gostaríamos de ver em sua performance, cômica e perturbadora ao mesmo tempo. Ian McKellen, ainda não esmagado pela popularidade de Gandalf e Magneto se junta ao elenco mas, diferente de muitos protagonistas de Batman, Baldwin tem brilho próprio e se sai muito bem nas cenas com Penelope Ann-Miller, a corajosa Margo Lane. Os diálogos entre os dois remetem a “A Ceia dos Acusados”, “Levada da Breca” e “Jejum de Amor”, entre as muitas homenagens e influências no roteiro de David Koepp (“Jurassic Park” e “Missão Impossível”, pra citar apenas dois).

“Sim, sou rico. Fui traficante de ópio no oriente por sete anos.”

Com o sucesso das novas séries de quadrinhos do Sombra, não seria surpresa se uma nova adaptação cinematográfica aparecesse nos próximos anos. O mercado parece saturado de filmes de super-heróis, mas o Sombra permite uma abordagem incomum, retrô e muito forte, calcada no carisma de seu protagonista e na ambientação noir. Mas dificilmente uma super produção seja capaz de superar a honestidade desse filme, com muitos defeitos, sim, mas com uma vontade palpável de equilibrar as possibilidades do gênero, trazendo ação, aventura, humor, suspense, drama e, por que não, um pouco daquela sensação de comprar um gibi no caixa do supermercado sem saber exatamente do que se trata – mas ficar plenamente satisfeito com o resultado.
Dirigido por Russell Mulcahy
Roteiro de David Koepp
Estrelando Alec Baldwin, John Lone, Penelope Ann Miller, Peter Boyle, Ian McKellen, Jonathan Winters, Tim Curry
Música de Jerry Goldsmith
Lançamento: 1 de julho de 1994
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