Aviso: essa resenha contem informações sobre Logan presentes nas sinopses e nos trailers divulgados antes do lançamento do filme. Leia por sua conta e risco. E divirta-se.

Deixe-me contar sobre uma experiência levemente curiosa – e um tanto constrangedora: eu comecei a ler quadrinhos bem cedo, é possível dizer que eles foram uma parte significativa da minha alfabetização. Logo transitei da Turma da Mônica e dos clássicos da Disney para as revistas de super-heróis e, como muitos moleques brasileiros nascidos na década de 80, rapidamente me apaixonei pelos X-Men. Naqueles tempos jurássicos, torrava a paciência dos meus pais e do jornaleiro tentando acompanhar mensalmente a saga da equipe mutante, um misto de folhetim de novela com robôs gigantes e monstros com poderes. Eu adorava aquilo.

Até que um dia me deparei com um texto do editorial da Abril Jovem, comentando com grande pompa e circunstância como seria publicada Dias de um Futuro Esquecido, a aventura “final” dos X-Men, em que os heróis encontram seu fatídico destino nas mãos dos terríveis Sentinelas. Lembro que demorei um tempo para processar a informação, enquanto aquele nó se formava no fundo do meu estômago. Era isso? Meus heróis preferidos, que eu dediquei tanto tempo e atenção simplesmente morreram? Acabou? Não acredito…

É claro, com o tempo descobri que aquele foi apenas mais um de muitos arcos com futuros alternativos sombrios, um recurso narrativo já bastante manjado e bastante usado na revista, que é publicada até hoje mais ou menos com os mesmos personagens (alguns diriam que até por tempo demais). Talvez você ache que eu tive uma infância muito mole, muito “leite com pera” para dar bola para uma coisa boba dessas. De fato, a vida bem cedo te ensina que há questões muito mais importantes para se preocupar. Logo, você é um homem sério que não dá a mínima para personagens imaginários (para pessoas normais também, mas isso é outro assunto). Histórias são só um passatempo eventual, certamente nada que um adulto responsável deveria dar mais que um minuto de importância.

Bom, aí eu fui assistir Logan.

E o nó no estômago voltou.

“No More Mutants”

O Velho e o Mundo que Já Acabou

Voltamos ao Universo Marvel da Fox no futuro próximo de 2029. Nem o sonho de Xavier da coexistência pacífica entre humanos e mutantes, tampouco o pesadelo da supremacia mutante de Magneto, se realizaram: ambos foram suplantados por uma melancólica distopia em que os mutantes estão praticamente extintos, como uma piada de mau gosto de Deus que durou tempo demais, uma nota de rodapé no épico da humanidade, a qual por sua vez caminha para sua lenta autodestruição. Os X-Men são pouco mais que uma lenda, eternizada curiosamente em histórias em quadrinhos.

Logan, o mutante de ossos indestrutíveis, é um homem quebrado, física e espiritualmente. Uma máquina de matar cujo prazo de validade há muito expirou. Seus dias como o super-herói Wolverine também ficaram para trás: ele agora vive no ostracismo, trabalhando como um motorista de Uber bêbado na mítica fronteira entre o México e EUA. Sua única missão parece ser manter escondido Charles Xavier, um velho senil adoentado, uma pálida sombra do líder da causa mutante. Não que isso importe muito: o governo e seus outros inimigos nem parecem fazer muito esforço para encontrar os antigos heróis. Eles claramente já são uma página virada da história.

“Eu sou o melhor no que faço”. Todo o fã de quadrinhos sabe que esse é o lema do Wolverine, o que normalmente associamos com fazer pessoas em pedaços. Mas o mutante é talvez melhor ainda em outra coisa… sobreviver. E isso seria algo bom, certo? Sobreviver é o instinto natural de qualquer ser vivo, é a força por traz do nascimento das civilizações, o que nos faz sair da cama todas as manhãs. Mas no caso de Logan significa também ver sua família e amigos morrerem, seu mundo ficar para trás, sentir seu corpo lentamente deixar de responder como antes, resistindo apenas o suficiente para carregar por mais tempo nas costas o peso de sonhos não-realizados. Sobreviver é prolongar o sofrimento de uma vida que já acabou.

Bem deprimente, não? E certamente não é algo que a maioria das pessoas pessoas pagaria para ver por mais de duas horas. Entra então o elemento catalizador da história: Laura, uma jovem e furiosa mutante em fuga. E há homens muito maus atrás dela.

“Hit the road, Jack”

Vamos pegar a estrada uma última vez, Logan

Parte thriller, parte road movie, parte drama, Logan é levemente baseado na minissérie Old Man Logan, cortando um pouco dos excessos do quadrinho e concentrando-se na essência da história: a aventura final de Wolverine. Na verdade, o filme mistura de forma brilhante a despedida de Hugh Jackman, Patrick Stewart, Wolverine e o Professor X da franquia mutante (bom, ao menos temporariamente). Ele encerra um longo ciclo de 17 anos iniciado em 2000 com X-Men: o Filme, película que abriu caminho para que os super-heróis dominassem as salas de cinema nos últimos anos. É de certa forma poético que essa seja também a melhor atuação dos dois atores em seus respectivos personagens, que parecem realmente conseguir transmitir algum tipo de empatia para o espectador. Isso só é possível graças à carga dramática presente no roteiro, que tem poucas arestas a serem aparadas. Os fan services easter eggs, tão famosos no gênero, são muito pontuais e não afetam em nada a trama principal.

Retirado os aspectos fantásticos, temos por um lado a história intimista de dois homens velhos e amargurados, que se veem obrigados a participar de uma última grande jornada e tentar fazer as pazes com os erros do passado. No caso de Logan, sua relação com Laura permite ainda ao filme refletir sobre a natureza da paternidade, seja como possível força motriz para vida do pai, seja como forma de transcender seus pecados, uma espécie de “segunda chance” na forma de um filho melhor (seja ele biológico ou afetivo).  Já Laura, interpretada com competência por Dafne Keen, poderia facilmente ter sido usada de forma piegas para transmitir pena ou apenas como alívio cômico, mas o roteiro toma o cuidado de evitar essa saída fácil, conferindo à personagem um interessante arco próprio.

“É… estamos ficando velhos, Magneto.”

Apesar de ser um filme bonito, Logan tem tensão, lágrimas, sangue, e muita, MUITA violência. Não violência estilizada, clean e orgânica: as várias cenas combate são sujas e viscerais, um festival de tiros e desmembramentos que fazem o telespectador agarrar-se na cadeira em certos momentos. Isso ressalta o lado mais bestial de Wolverine, mostrando o bem que faz uma versão Rated das cenas de ação com o personagem. O filme também traz alguns poucos momentos mais leves e divertidos, mas que servem apenas como a calmaria antes do desastre iminente que teima em perseguir o trio principal em sua jornada.

Falando em perseguição, os Carniceiros não chegam a ser vilões fantásticos, mas conseguem contribuir para o senso de emergência da história, além de remeterem a um dos arcos mais sangrentos dos X-Men nos quadrinhos: o Massacre de Mutantes. O ator Boyd Holbrook ainda consegue conferir alguma personalidade ao seu líder, o ciborgue Donald Pierce. Ainda não sei se gostei muito da ameaça final por trás do grupo, mas ao menos ela não atrapalha a história principal.

Wolverine Unleashed!

Me parece ainda que o “Fator Deadpool” não afetou somente a censura do filme: a Fox parece ter aprendido a lição e dado mais liberdade criativa para que o diretor James Mangold (que já havia dirigido o irregular Wolverine: Imortal) pudesse entregar um filme coeso e com personalidade: os diálogos secos, a trilha incidental contida e a fotografia sóbria que se distancia dos super-heróis clássicos e remete aos faroestes modernos convergem para uma história cruel e dolorosa, que abraça a essência trágica do personagem principal. Talvez a mensagem final é que a estrada da vida pode ser um inferno algumas vezes, com uma trilha de arrependimentos atrás de você, e sem uma garantia de final feliz no final da viagem. E você ainda terá que achar alguma forma de lidar com seus erros, e talvez, TALVEZ, achar algum conforto momentâneo ao lado daqueles que ama.

Pensando bem, gostaria de voltar á abertura do texto: talvez não seja tão ruim assim ligar para historinhas de faz-de-conta como Logan, se entre uma eletrizante cena de ação e outra, elas te ajudarem a refletir um pouco mais sobre você ou sobre aqueles que estão ao seu redor, seja alguém tendo que lidar com os efeitos amargos da velhice, as ansiedades e dramas da paternidade, ou o peso de uma vida cheia de remorsos.

E espero que você também sinta aquele nozinho no fundo do estômago!

 

Nota: 9/10 Sucessos do Johnny Cash.

 

 

 

 

 

 

 

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